Goya na cidade

Goya e Curitiba

Para cada gravura da série Disparate, que Francisco Goya riscou no cobre, entre 1815 e 1820, uma sombra se espicha até nossos dias. Dei sorte de perguntar se havia um livro sobre a exposição “Loucuras Anunciadas”. E dei sorte de haver um da curadora Mariza Bertoli, de onde tirei as informações sobre as gravuras.

Saímos, o fotógrafo Anderson Borges e eu, pelas ruas de Curitiba, loucos para cutucar  a cidade e seus monumentos com a ponta-seca ácida de Goya.

O medo debocha daqueles que se mostram valentes. Um fantasma falso assusta soldados, provavelmente bêbados. Para quem tem a consciência pesada pelos abusos do poder militar nos desastres das tantas guerras travadas pelo mundo, um lençol jogado sobre dois homens, um sobre o ombro do outro, pode parecer um espectro clamando por vingança.

Não há como se esconder ou rezar em alguma ruína, ainda que ela seja uma igreja que os portugueses não acabaram. As Ruínas de São Francisco, na imagem que abre este post, são a metáfora da decadência da cidade, que vive uma guerra injusta e silenciosa entre os que podem mais (e não assustam)  e os que pagam mais ônibus, imposto, comida e recebem como troco um presente com menos cultura, educação e saúde.

Um futuro cada vez mais incerto é o que vislumbra, na Praça 19 de dezembro (data da emancipação do Paraná), o gigante nu esculpido por Erbo Stenzel e Umberto Cozzo. Grande como Babalicon, da tradição aragonesa dos gigantes cabeçudos… Um padre se esconde de medo das máscaras assustadoras que evaporam da figura enorme. Máscaras que são o espelho dos amedrontados, mostrando o mundo real  que ninguém quer enxergar. Só que o gigante, é, na verdade, bem brincalhão e toca até castanholas…

Psiu…Essa é uma informação que os malfeitores não devem saber… Tão grande esse cara, mas como as massas nuas, parece não saber seu poder amedrontador de emancipar-se.

 

Essas jovens mulheres representadas por Goya se emanciparam. Elas desacatam o poder policial. Jogam para cima os fantoches vestidos de militares. A Mulher Nua, em Curitiba, embora tenha sido esculpida por Umberto Cozzo para ficar no Tribunal de Justiça do Paraná, prefere não se comprometer e permanecer na Praça 19 de dezembro, longe dos meandros de qualquer poder questionável. Não sei se ela está lá para ficar perto do Homem Nu. Não vejo problemas nessa relação desproporcional.

Tal como Goya, questiono os siameses dos casamentos tradicionais realizados numa igreja, sei lá, como a da Ordem, a mais antiga de Curitiba, construída pelos portugueses em 1737. O homem do Disparate Matrimonial acusa o padre, também um belo monstro.

Os siameses têm oito pés. Pés demais não decidem para onde ir e vão provocando um desvario de atrelamento ao fado. Vão provocando um vão erótico.

Para onde vai a volúpia da alegoria do Cavalo Raptor que Goya colocou para abocanhar uma jovem mulher? Falta vigor aos babões. Reza a lenda que um criador de cavalos não queria que sua égua mais bonita desse à luz em dia de eclipse porque o filhote nascia babão.  Se é verdade ou não, o fato é que um babão nasceu no Largo da Ordem, em forma de escultura feita por Ricardo Tod . Além de remeter à lenda, é uma homenagem aos tropeiros que saíam do interior e atrelavam seus cavalos por ali, em ponto próximo do comércio.

Não carregavam o glamour de um Pégasus ou a estranheza de um cavalo alado que voa com um casal no dorso. O cavalo retratado por Goya é uma figura híbrida; a cauda é feita de penas. O casal é dominado pela fúria e glória da paixão.

É isso que move. Em todas as áreas e recantos. Mas, quando a paixão por pessoa, coisa, ideia, ideologia vira obsessão, a violência vem a galope ou na turbina do avião de guerra.

A violência vem na atitude do homem que tem a coragem de atravessar o outro com a lança ou com a desfaçatez cínica.

Cinismo que insiste em colocar cada macaco no seu galho. O amontoado de gente é empurrado para longe. Não há lugar digno para o povo que aparece nas tapeçarias das paredes da aristocracia e passa os dias servindo suntuosos banquetes.

Há sempre o desejo de liberdade, escancarado na vontade de ser pássaro. Goya deve ter, por um momento, pensado ser Leonardo da Vinci com suas máquinas tão bem desenhadas. A cabeça do homem leva um chapéu de pássaro para deixar claro que não há morcego alegoricamente representando seres diabólicos. Diabólicos como os que insistem na guerra… Depois, precisam fazer aterrissar um antigo avião na Praça do Expedicionário para homenagear soldados que participaram da Segunda Guerra Mundial.

As asas nem sempre estão carregadas de liberdade. Goya perdeu a audição aos 46 anos. Fez essas últimas obras gráficas sem ouvir. Talvez tenha se sentido um pouco mais livre por retratar aqueles que nunca puderam lhe encomendar um trabalho ou, quem sabe. serem convidados para participar das festas do reinado absolutista.

LOUCURAS ANUNCIADAS – FRANCISCO GOYA
Data: até 2 de julho
Horário: de terça-feira a sábado das 10h às 20h, domingo das 10h às 19h
Local: Caixa Cultural Curitiba
Endereço: Rua Conselheiro Laurindo, 280 –  Galerias Térreo e Mezanino – Centro, Curitiba
Entrada franca

Gravuras: 1. Disparate do Medo / 2. Babalicon / 3. Disparate Feminino / 4. Disparate Matrimonial / 5. Disparate do Cavalo Raptor / 6. Disparate Volante / 7. Disparate Furioso / 8. Disparate Ridículo / 9. O Modo de Voar

 

Karen Monteiro

Com arte, tá tudo bem. Se as exposições, peças de teatro, shows, filmes, livros servirem de gancho  para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, cronista, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além de repórter, foi produtora, editora e editora-chefe. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado. Seu mais recente projeto é o seu site pessoal

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