Governo libera registro de mais 57 agrotóxicos: agora, são 410 novos venenos em 2019!

Parece piada! O governo Bolsonaro divulgou a liberação de mais agrotóxicos no dia em que celebramos as abelhas e a agroecologia: 3 de outubro. Tem gente que não liga para efemérides – nós, do Conexão Planeta, sempre as destacamos nas redes sociais -, mas a lembrança de dias como este é muito importante para incentivar a conscientização sobre diversos temas. Neste caso, imprescindível para quem se importa com a vida, sabe que os polinizadores são vitais para nossa sobrevivência e promove a alimentação saudável.

Por isso, nada mais indigesto do que a autorização do uso de mais venenos em nosso país: mais uma prova de total desrespeito da gestão de Bolsonaro para com a saúde dos brasileiros e a preservação do meio ambiente. Com a desculpa (e mentira) de sempre: o agronegócio precisa deles para garantir alimento no país.

Agora, foram aprovados 57 agrotóxicos que se somam aos 353 registrados de janeiro a setembro (neste último mês, foram 63) -, totalizando 410 novos venenos, número que ainda não supera a quantidade aprovada em 2018, por Temer – 450 -, mas ultrapassa todos os números dos anos anteriores. Do impeachment de Dilma até hoje – portanto, sob os auspícios de governos ainda mais desenvolvimentistas 1,2 mil novos agrotóxicos passaram a poluir o ar, as plantações e o prato dos brasileiros. Cerca de três a cada dois dias!

Segundo o Ministério da Agricultura, o objetivo da liberação de novos venenos é aprovar novas moléculas, que seriam menos tóxicas e ambientalmente mais corretas já que desenvolvidas com mais tecnologia, para substituir produtos antigos. De acordo com a legislação, as empresas fabricantes só podem registrar itens de ação semelhante se apresentarem menor ou igual risco à saúde (!!) do que os que já são comercializados.

Não há dúvida de que, nos últimos dez anos, este é um dos períodos mais trabalhosos para os ativistas da agroecologia e da alimentação saudável. A quantidade e o ritmo das aprovações, apesar de a ministra negar, são assustadores. E o movimento Chega de Agrotoxicos cresceu e se tornou mais agressivo.

“Já batemos recordes de anos anteriores inteiros e ainda estamos em outubro. Chegaremos ao fim de dezembro com um triste recorde. Muitos desses produtos são proibidos na União Europeia. Por que os europeus são poupados, mas os brasileiros não?”, destaca Iran Magno, da campanha de Agricultura e Alimentação do Greenpeace Brasil. 

De acordo com o site G1, ambientalistas traduzem a corrida do governo aos agrotóxicos como uma forma de este colocar em prática reivindicações do projeto de lei 6.299/02, conhecido como Pacote do Veneno, que ainda tramita na Câmara dos Deputados. Para os grandes agricultores, o registro de novos produtos – em especial dos genéricos -, é uma maneira de baixar custos de produção. Pra se ter dimensão disso, basta dizer que no maior estado produtor de soja, Mato Grosso, os agrotóxicos são responsáveis por 21% dos gastos nessas lavouras.

Maior consumidor do mundo

Em números absolutos, o Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo, mas quando são consideradas a quantidade de alimentos produzidos e as áreas plantadas, o país perde a liderança para Japão, União Europeia e Estados Unidos. Com um detalhe: nestes, a aplicação de veneno é proporcionalmente menor. 

Segundo o Ibama, em 2017, por exemplo, a agricultura tradicional, no Brasil, aplicou 539,9 mil toneladas de pesticidas, o que representa gastos de US$ 8,8 bilhões (cerca de R$ 35 bilhões), como indicam os índices divulgados pela Andef, associação dos fabricantes dos venenos. E o que não faltam são especialistas que garantem que não só é desejável, mas possível, restringir seu uso.

Se o governo federal não muda, cada cidade pode mudar

Todo mundo sabe que as abelhas são aliadas na produção de alimentos e o declínio de sua população tem impacto direto na agricultura. No Brasil, por exemplo, mais da metade das 141 espécies de plantas cultivadas depende da polinização realizada, principalmente, por elas. Mas os agrotóxicos mais nefastos – alguns proibidos em outros países, como o glifosato (que tem levado a Monsanto/Bayer aos tribunais, onde a multinacional tem perdido com frequência) e os neonicotinóides – são responsáveis pela morte em massa desses insetos.

Por isso, lutar para que o governo pare de aprovar novos venenos e reduza sua utilização é vital. Nao só! É preciso cobrar para que ele incentive práticas naturais como a agroecologia, que respeita o ambiente natural e a saúde de todos os seres. Iran, do Greenpeace, enfatiza: “Reduzir gradualmente o uso de agrotóxicos é um pedido completamente razoável. O que não é razoável é continuar envenenando a população”.

Mas, independente das ações do governo federal, as cidades podem agir de forma a impedir que os agrotóxicos e o agronegócio tradicional continuem a dominar o cenário da produção de alimentos. Prova disso é a cidade de Florianópolis – a Ilha da Magia – que, em setembro, aprovou lei que proíbe o uso de agrotóxicos.

A população queria muito essa transformação e encontrou na militância de um vereador agroecológico praticante a força e a coragem necessárias para realizar esse desejo. Leia a reportagem que publicamos. Procure o seu! Ou junte-se a outros moradores de sua cidade para criar um movimento agroecológico e de hortas urbanas que cause impacto.

O boicote a produtos que não tenham certificação de origem também é uma forma de protesto. Pode começar por você e crescer. Lembre-se da adolescente sueca Greta Thunberg, que iniciou seus protestos sozinha, em frente ao parlamento sueco, e, no mês passado, reuniu milhões de jovens e adultos pelo mundo contra as mudanças climáticas e a inação de governos e empresas.

O boicote aos produtos brasileiros por causa do excesso de agrotóxicos já está acontecendo em diversos lugares do mundo, como no caso de uma rede sueca de supermercados, como publicamos em junho deste ano.

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Fontes: Greenpeace, G1, Folha de SP, Exame

Foto: Mitja Kobal/Greenpeace

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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