Governo lança campanha internacional, no Dia da Amazônia, para abafar sua política de devastação

O governo Bolsonaro foi rápido. Em vez de ignorar a data – como fez com o Dia do Índio, em 19 de abril -, aproveitou o Dia da Amazônia, celebrado ontem, para lançar campanha publicitária nacional e internacionalAmazônia pelo Brasil – para promover uma imagem de país que sabe valorizar “sua maior riqueza, patrimônio nacional e da humanidade”e é considerado exemplo de preservação, conservação e sustentabilidade ambiental. Mas, pra não variar, tudo que o video diz é mentira ou faz parte do passado, da performance de outros governos.

Diz o vídeo: “O governo federal reafirma de forma soberana as suas ações de proteção, desenvolvimento sustentável. e conservação da Amazônia. O Brasil é exemplo de sustentabilidade”. O governo brasileiro não tem ações de proteção. Tão pouco investe em desenvolvimento sustentável e na preservação da Amazônia. E o país deixou de ser exemplo de sustentabilidade. Foi em vários aspectos, sim! Justamente nos governos de Lula e Dilma – que ele tanto ataca e que estão longe da perfeição na área ambiental –, o país chegou a ter papel de protagonismo em negociações internacionais, tanto no que se refere a mudanças climáticas como a biodiversidade. Isso é página virada.

“Conservamos 60% da vegetação nativa e 84% da floresta amazônica continuam preservados. A proteção da Amazônia é nosso dever”. Sim, é dever do governo garantir essa proteção, mas Bolsonaro e Salles não têm feito outra coisa se não atacar o meio ambiente.

Posso listar inúmeras medidas que confirmam que tudo que esse vídeo apresenta é mentira. Em suas falas, Bolsonaro legitimou invasões de garimpeiros, madeireiros e grileiros, que só crescem no país, desde que assumiu como presidente. Em abril, chegou a desautorizar uma ação do Ibama. E disse inúmeras vezes, que vai legalizar o garimpo na Amazônia. Oras, um governantes que se preocupa com preservação jamais diria isso.

Quando a aldeia dos indigenas Wajãpi foi invadida e seu cacique assassinado, Bolsonaro disse não acreditar no crime e voltou a declarar sua intenção de legalizar o garimpo. Ele fala abertamente que é contra a demarcação de terras indigenas e vai rever o assunto para poder alterar a lei. Quem se interessa pela preservação do meio ambiente, faz isso? O presidente desconhece nossa história: boa parte da natureza que ainda está intacta no país se deve à proteção e ao cuidado dos povos indígenas.

As queimadas e os incêndios criminosos que ainda consomem a floresta, são fruto de sua política antiambiental. E, depois de toda essa agressão ao bioma, não é mais possível dizer quanto do território amazônico está protegido. Afirmar que é 84% é leviano, portanto.

“Estamos trabalhando para combater o desmatamento ilegal e atividades criminosas que coloquem nossa Amazônia em risco”. Mais mentira!

Para se defender de criticas sobre o desmatamento no exterior, o Itamaraty utilizou dados do governo Lula. O Inpe fez inúmeros alertas sobre desmatamento, e o governo ignorou. Em 70 dias, Inpe emitiu mais de 20 alertas e, mesmo assim 32 km de floresta amazônica foram devastados, ressaltou o especialista em florestas e clima, Tasso Azevedo, do MapBiomas. Em julho, a devastação explodiu. Salles e Bolsonaro desqualificaram seu sistema de monitoramento, reconhecido com um dos mais eficientes do mundo. O presidente disse que os índices do Instituto eram mentirosos e, em seguida – por não aceitar a resposta de seu diretor, Ricardo Galvão, o exonerou.

Vale lembrar epois de ter contestado dados oficiais de desmatamento, criticado a política de demarcação de terras indígenas e recusado ajuda financeira internacional, o presidente  Bolsonaro acabou recuando após pressão de setores que temiam boicote a seus produtos no exterior, como o agronegócio.

Ele deu sua chancela para a campanha internacional de contenção de danos fosse colocada em marcha antes da Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, onde fará seu primeiro discurso de abertura, no dia 22 de setembro.

Só acredita no que diz esse vídeo quem quer. Fazer campanha pra contar uma história linda, qualquer um pode. Quero ver Bolsonaro e Salles provarem tudo que ela tenta promover. Mentira tem perna curta. Será que eles ainda não aprenderam isso?

Interessante notar que a campanha tem o nome de Amazônia pelo Brasil. Poxa, não deveria ser o contrário: o Brasil pela Amazônia?

Quem tiver estômago, quiser passar raiva ou, ainda, ovacionar “seu mito”, pode assistir ao vídeo em português, abaixo:

Foto: André Dib/Parque Nacional de Roraima

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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