Brasileiros recebem bolsa do governo inglês para ampliar pesquisas sobre racismo contra os índios

As más notícias no cenário ambiental e social têm ocupado grande espaço na mídia (!!) e na vida dos brasileiros, desde o ano passado. A impressão é que só piora. Mas é verdade também que não falta notícia boa – amém! – sobre pessoas e ações inspiradoras, que fazem a diferença e transformam a realidade, dando início a uma revolução pelo bem comum.

O líder indígena Ailton Krenak (foto ao lado), o jornalista e sociólogo Felipe Milanez e a especialista em literatura indígena Lúcia Sá estão entre essas pessoas. E o projeto que os três inscreveram em edital do prestigiado Arts & Humanities Research Council (AHRC), do Reino Unido – e acaba de vencer, com nota máxima e muitos elogios, uma bolsa de estudos do conselho britânico -, também. O tema não poderia ser mais apropriado: Racismo e anti-racismo no Brasil: o caso dos povos indígenas (Racism and anti-racism in Brazil: the case of indigenous peoples).

Krenak dispensa apresentações, mas vamos lá: ele é líder indígena – muito além de sua etnia-, ativista, professor honoris causa na Universidade Federal de Juiz de Fora e fundador do Núcleo de Cultura Indígena. Felipe é professor na Universidade Federal do Recôncavo Baiano e índio de coração e de alma, com trajetória linda no ativismo pela causa desses povos. Lúcia é referência internacional no estudo da literatura indígena e professora da Universidade de Manchester.

O projeto recebeu a maior nota de avaliação do Conselho que o consideraram excepcional (outstanding, em inglês) e o prêmio no valor de 45 mil libras esterlinas (cerca de R$ 180 mil). Os revisores da instituição entenderam que a proposta dos três estudiosos oferece a possibilidade de grandes avanços na pesquisa de raça e racismo no Brasil, especialmente contra os povos indígenas. Um deles escreveu que a pesquisa apresentada é uma “simbiose entre os interesses acadêmicos da pesquisa e o desenvolvimento sustentável dos impactos de suas atividades”, impactos considerados como “extremamente valiosos” e de “longa duração”.

Em sua página no Facebook, Felipe (foto ao lado) escreveu, entusiasmado: “Um tempo atrás, o txai (essa palavra significa mais do que parceiro, seria como a outra metade de alguém, uma alma gêmea, na língua dos índios Kaxinawá, do Acre) e mestre Ailton Krenak me disse ‘Se o bicho avançar, vamos encarar de pé’, num depoimento lindo que publiquei no site da Carta Capital (leia aqui). Daí que, junto com ele, brilhante intelectual de luta, e da querida Lúcia Sá (uma pessoa maravilhosa que admiro imensamente), pesquisamos e expomos o racismo, e conseguimos uma bolsa do governo britânico, com muitos elogios dos revisores para uma proposta que vai construir uma reflexão em conjunto com os índios e o movimento indígena, a partir de vários encontros e da produção de material que certamente também terá impacto político na luta anti-racista no Brasil”.

Não há dúvida de que este trabalho idealizado e organizado por Krenak, Felipe e Lúcia ajudará não só a promover e a manter vivo o debate sobre tema tão pouco estudado, mas muito presente na realidade do pais desde o descobrimento, que é o racismo contra os povos indígenas. Também contribuirá para fortalecer a resistência desses povos.

O projeto contempla a realização de seminários que deverão ser realizados na Bahia (na UFRB), em Brasília e Manchester e, certamente, serão grandes oportunidades para promover reflexões, debates e o compartilhamento de ideias entre lideranças, intelectuais e artistas indígenas, acadêmicos e ativistas de movimentos anti-racistas. Como resultado de todo movimento gerado por esses encontros e os estudos de Krenak, Felipe e Lúcia, serão produzidos artigos científicos, um livro em conjunto com os autores indígenas e um pequeno documentário. Viva!!

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Foto: Thiago Gomes/Agência Pará/Fotos Públicas (Semana dos Povos Indígenas, realizada em abril deste ano)

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na Claudia e Boa Forma, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, considerado o maior portal no tema pela UNF. Integra a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade.

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na Claudia e Boa Forma, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, considerado o maior portal no tema pela UNF. Integra a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade.

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