Governo de Pernambuco diz que proposta federal de liberar cruzeiros em Fernando de Noronha “não respeita a natureza”

Governo de Pernambuco diz que proposta federal de liberar cruzeiros em Fernando de Noronha "não respeita a natureza"

Não é de hoje que a atual administração federal quer mudar as regras de turismo de Fernando de Noronha, um dos destinos turísticos mais visitados do Brasil. Composto por 21 ilhas e ilhotas, o arquipélago foi declarado Patrimônio Natural da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

Por ser um local importantíssimo para a conservação marinha – diversas espécies ameaçadas de extinção vivem ali -, o arquipélago é protegido por duas Unidades de Conservação (UCs) Federais: o Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha e a Área de Proteção Ambiental de Fernando de Noronha-Rocas-São Pedro e São Paulo.

Mas desde que assumiu o governo, Jair Bolsonaro já expressou, várias vezes, sua intenção de “incrementar” o turismo na ilha. Sempre muito criticado por biólogos e ambientalistas.

No ano passado, o presidente falou em acabar com taxa ambiental cobrada no Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha e seu ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, disse que pretendia liberar voos noturnos e a pesca de sardinha no local.

A nova ameaça à vida selvagem e aos ecossistemas do arquipélago foi anunciada esta semana, através de um vídeo nas redes sociais, pelo senador Flávio Bolsonaro. Acompanhado do presidente da Embratur, Gilson Machado, ele afirmou que está trabalhando para liberar, novamente, a operação de cruzeiros marítimos na região. Já Machado anunciou que, junto à Marinha, conseguiu aprovar mais doze pontos de naufrágio artificial para estimular o mergulho.

Logo depois da divulgação do vídeo, o secretário do Meio Ambiente de Pernambuco*, José Bertotti, publicou uma nota criticando as propostas.

A informação de que o Governo Federal vai “autorizar” a entrada de cruzeiros marítimos em Fernando de Noronha deixa mais uma vez evidente a maneira como a União lida com o tema meio ambiente. Fernando de Noronha é Patrimônio Natural da Humanidade, as 21 ilhas do arquipélago abrigam uma biodiversidade única e não podem ser alvo do modelo de turismo predatório sugerido no video publicado pelo senador Flávio Bolsonaro e o presidente da Embratur, Gilson Machado.

As referidas autoridades desconhecem a existência da limitação do número de visitantes em Fernando de Noronha e as consequências de colocar na ilha mais de 600 pessoas de uma só vez, como acontece no caso dos navios de cruzeiro.

O Governo de Pernambuco, responsável pela administração do território estadual de Fernando de Noronha, tem investido em programas sustentáveis como o Plástico Zero, que impede a entrada de embalagens plásticas descartáveis na ilha e o Carbono Zero que, através de uma lei, determina a substituição gradativa dos veículos a combustão por elétricos no local.

Além disso, novas ações estão em processo de contratação como o novo estudo de capacidade de suporte, plano diretor e a lei de uso e ocupação do solo …

Fica claro como os representantes do Governo Federal se ocupam muito mais em querer impor um tipo de visitação que não respeita a natureza do que focalizar sua energia em iniciativas que respeitam o meio ambiente ou que ofereçam melhores condições de vida aos moradores do arquipélago.

Seguiremos firmes no propósito de manter Fernando de Noronha como uma referência de preservação ambiental e de boas práticas de sustentabilidade e de turismo”.

Cruzeiros em Fernando de Noronha

Em 2018, houve também uma polêmica envolvendo a questão da presença de navios turísticos na ilha. Na época, o fato provocou consternação nas redes sociais. Para esclarecer o assunto, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), órgão do ministério do Meio Ambiente, que administra o Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha, afirmou que cruzeiros operavam na ilha há mais de 25 anos.

Entretanto, segundo a nota do instituto, na última década, a frequência dessa atividade havia diminuído muito. O órgão destacou que o Plano de Manejo para Fernando de Noronha coloca como limite máximo o número de 700 pessoas, permitidas a deixar o barco por vez, sendo que deste total somente 450 podem ficar em terra e outras 450 em atividades aquáticas.  

O ICMBio esclareceu ainda que é apenas responsável pela autorização ambiental e que a administração da ilha, no caso o governo de Pernambuco, fornece a autorização inicial para a chegada dos barcos.

“É preciso lembrar que um dos principais motivos que fazem os turistas irem para Fernando de Noronha é justamente por causa da natureza exuberante do local. E quando se tem uma super-população de visitantes, a biodiversidade é colocada em risco, pois ela pode ser muito impactada”, diz Angela Kuczach, diretora executiva da Rede Nacional Pró-Unidades de Conservação. “Do ponto de vista econômico pode ser um erro gigantesco e do ponto de vista ambiental, um desastre”.

A lição tailandesa

A proposta de “estimular” o turismo em Fernando de Noronha nos remete a uma história que aconteceu na Tailândia e mostramos, nesta outra reportagem, em 2018. A baía de Maya, na ilha de Koh Phi Phi Leh, ficou mundialmente famosa depois de ser cenário do filme “A Praia”, estrelado pelo ator Leonardo DiCaprio, no ano de 2000.

Com isso, milhões de turistas viajavam até ali por ano. Eram cerca de 200 barcos aportando no local diariamente. Estimativas davam conta de 120 mil turistas por mês – quase 1,5 milhão de pessoas anualmente.

Pois o número assombroso e insustentável de turistas teve um impacto profundo na baía de Maya. Os recifes de corais foram destruídos e a vida marinha afetada.

A solução encontrada pelo governo da Tailândia foi fechar a baía. Segundo o Departamento de Parques Nacionais do país, a medida só seria suspensa quando o ecossistema conseguisse se recuperar plenamente. Até hoje, ela não foi reaberta.

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*O arquipélago de Fernando de Noronha é uma região geoeconômica, social e cultural do estado de Pernambuco, instituído sob a forma de Distrito Estadual.

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Foto: Bruno Lima – MTUR/Creative Commons/Flickr

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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