Governo americano reconhece que o pesticida mais usado no mundo pode prejudicar as abelhas

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Pela primeira vez na história, o governo americano – por intermédio de sua agência ambiental, a EPA – se pronunciou claramente a respeito do uso de pesticidas, admitindo que um dos mais utilizados no mundo, o imidacloprid (um neonicotinóide comum), pode ser prejudicial às abelhas e outros polinizadores.

Não se trata ainda de uma proibição do uso do produto, mas esta primeira avaliação – serão quatro, este ano – abre precedentes e ajudará a embasar pesquisas científicas para que o governo dos EUA considere a possibilidade de controlar sua utilização ou possa, até, impedir que o pesticida seja comercializado. O boletim diz que poderão ser tomadas medidas para restringir o uso desse produto químico até o final de 2016.

De acordo com o administrador assistente para segurança química e prevenção da poluição na agência, Jim Jones – que falou ao jornal The Guardian – este é um grande passo para que ampliemos a compreensão a respeito do potencial tóxico desse pesticida e seu impacto. Ele contou que o declínio no número de abelhas nas regiões onde o imidacloprid foi aplicado é um fato. A quantidade de colônias de abelhas tem caído vertiginosamente desde 1947: naquela época havia seis milhões; hoje, elas não passam de 2,5 milhões. E, agora, também foram encontrados vestígios do pesticida – em níveis baixos, de cerca de 25ppm -, no néctar e no pólen das plantas, e a produção do mel de cada abelha caiu.

Na União Europeia, o imidacloprid está proibido, assim como outros dois neonicotinóides. Ele foi o primeiro a entrar nos EUA e é utilizado amplamente em culturas de milho e legumes desde o início dos anos 90. Para se ter ideia da dimensão do impacto dessa produção, basta dizer que, em 2010, foram produzidas 20 mil toneladas do ‘veneno’, que é um dos mais utilizados no mundo. Sua popularidade vem do fato de ser absorvido facilmente e se espalhar por toda a planta eliminando, com rapidez, grande variedade de pragas.

Há mais de dez anos que ambientalistas e organizações de apicultores pressionam a agência ambiental americana contra o uso dos pesticidas. Para os ambientalistas, a notícia não muda nada já que considera apenas grandes colônias e não espécies nativas e colônias menores. Além disso, proibir o uso do tal pesticida, não seria suficiente para reviver as populações de abelhas dizimadas pela perda de seu habitat, doenças e parasitas. E sua ação ainda atinge também outros animais como pássaros, borboletas e invertebrados por conta, também, da água contaminada.

Alguns apicultores preferem comemorar a pequena vitória que se soma às suas ampanhas para por fim ou restringir consideravelmente o uso dos neonicotinóides. Mas uma coalizão de grupos ambientalistas e apicultores entrou com ação no Tribunal Federal no mesmo dia da notícia da EPA, alegando que o pesticida em questão nunca foi avaliado pela agência na forma como é mais utilizado: como revestimento de sementes.

Com a declaração da EPA, abrem-se novas discussões e a briga vai ser dura. Mas é uma loucura pensar que as medidas restritivas para produtos de tal magnitude tóxica demorem tanto para virar lei. Desconsidera-se a vida, em primeiro lugar. Mas, se levarmos em conta apenas a economia, é fato que perderam a noção também, veja só: apenas nos Estados Unidos, as abelhas são cruciais para a produção de, pelo menos, 90 culturas, o que equivale a US$ 15 bilhões/ano. De acordo com os ambientalistas, se as abelhas nativas forem consideradas na conta, esse montante cresce mais US$ 9 bilhões. Não é pouco.

Foto: Nick Rivers/Pixabay

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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