“Gostamos de leite. De lixo, não!”


Sempre gostei de leite. Quando surgiu a oportunidade de beber leite fresco, de boa qualidade, virei cliente do leite da Fazenda Bela Vista. Por mais de 14 anos, ele foi entregue em minha residência, semanalmente. No início, para mim e meu marido. Depois, tivemos dois filhos e o consumo aumentou. Ao longo desse período como cliente, sempre fui bem tratada e atendida pela empresa. A não ser em um quesito.

Desde que fui morar sozinha, antes até de casar, separo meus resíduos e os encaminho para reciclagem. De início, levava na cooperativa de catadores Coopamare. Depois, passei a utilizar a coleta da prefeitura, que atende o meu bairro. Ao separar o lixo, fui percebendo o volume que as garrafas plásticas de leite geravam. Por ser um consumo diário, elas representavam a maior quantidade em nosso lixo reciclável.

Há pelo menos dez anos, comecei a telefonar para o SAC do Leite da Fazenda Bela Vista e tentar mudar essa situação. Sempre fui tratada com simpatia, mas jamais com eficácia. As desculpas foram se acumulando, por telefone, e depois, por e-mail. “Estamos atentos ao seu incômodo, vamos levar sua reclamação adiante”, diziam de início, quando eu falava que não era razoável colocar no mercado tal quantidade de garrafas plásticas. “Nossas garrafas são recicláveis”, disseram depois. Então, por que vocês não as recolhem, reciclam e voltam a embalar o leite?, perguntava. “Por se tratar de produtos alimentícios, estamos proibidos por lei de utilizar material reciclado para embalar o produto”, responderam.

Propus, então, que adotassem embalagens de vidro, um material menos nocivo ao meio ambiente. “Isso implicaria em mudanças em nossa planta e grandes investimentos”. Cheguei a dizer que me dispunha a comprar um kit de embalagens, se eles adotassem, ao menos para as pessoas que recebiam na residência, algum tipo de vasilhame retornável. Ouvi mais desculpas.

No ano passado, cansei! Me dei conta de que dez anos são mais que suficientes para uma empresa planejar e implementar mudanças. Queria fazer algo, já que falar com o atendimento ao cliente não surtia efeito. Este ano, encerrei a entrega em casa (que encarecia o produto) e diminuí o consumo. Mas meus filhos ainda tomam leite, e seguimos gerando uma quantidade exagerada de garrafas plásticas.

Ao pesquisar sobre reciclagem no Brasil, descobri que, segundo dados oficiais do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (Snis), órgão ligado ao Ministério das Cidades, apenas 5,7% do material reciclável é deveras reciclado. Ou seja: uma grande parte das garrafas que consumimos acaba em aterros, rios, mar, no meio ambiente. Fiquei ainda mais incomodada.

Conversando com uma amiga, Thais Mauad, professora da Faculdade de Medicina da USP, percebi que ela tinha o mesmo incômodo. “Vamos juntar garrafas e tentar bolar algo com elas para chamar a atenção”, pensamos. Decidimos pedir a alguns amigos que também consumiam o leite que nos ajudassem a juntar garrafas. Fiz um cálculo, modesto, de que uma família de 4 pessoas consumiria perto de 1 litro por dia, ou seja, 30 por mês, o que significava 365 garrafas ao ano. E nos colocamos como meta chegar a essa quantidade. Em seis pessoas, juntamos perto de 400 garrafas em apenas 2 meses.

Outra amiga, a fotógrafa Renata Ursaia, se dispôs a fazer imagens desse volume todo, para que pudéssemos mostrar a dimensão do problema.

Decidimos separar 365 garrafas e fazer uma foto da minha família com elas, que é a que ilustra este post. A sensação é que iriamos ser soterrados em plástico. E se tratava de apenas um ano de consumo!

Fiz o cálculo e descobri que, daquelas 365 garrafas, apenas 21 seriam de fato recicladas (5,7%). As outras 344 iriam parar na natureza. Um completo descalabro!

A Thais encontrou em uma caçamba uma daquelas redes de construção e resolvemos embalar as 365 garrafas e entrega-las na empresa. Algumas pessoas se juntaram a nós nessa entrega. O programa Repórter Eco, da TV Cultura, e a TV Globo se interessaram pela pauta e nos acompanharam também.

Fomos recebidos por dois gerentes. Explicamos a eles que havia muito tempo buscávamos uma solução e não éramos ouvidas. Thais entregou-lhes cópias dos e-mails enviados ao longo destes anos por ela e por mim e uma carta (reproduzida no final deste texto) com um abaixo assinado que recolhemos pelo Facebook entre amigos que consomem o leite. Os gerentes disseram que apenas o diretor comercial poderia responder pela empresa, e ele não estava.

O Diretor Comercial, Paulo Pasarini, foi ouvido pela Mara Gama, colunista do UOL, que escreveu reportagem sobre o assunto – Grupo de consumidores entrega garrafas usadas para produtores -, logo naquela tarde. Ele disse que a empresa “fazia sua parte”, mas se negou a detalhar que parte seria. Mara procurou, ainda, o Sindicato das Indústrias de Laticínios e descobriu que o setor não assinou o acordo setorial das embalagens, firmado por vários setores em fevereiro de 2016, que regula a reciclagem de recipientes plásticos, de papel e latas de alumínio e estabelece as responsabilidades em relação à coleta e ao tratamento dos resíduos.

Quando essas informações foram publicadas, no dia seguinte à nossa entrega das garrafas, o post que fizemos no Facebook, contando sobre a entrega, já tinha centenas de compartilhamentos e mais de mil curtidas. Uma repercussão que não esperávamos.

Descobrimos, então, que havia muito mais gente preocupada com o destino de suas embalagens de leite. Alguns, inclusive, que consumiam outras marcas de leite fresco, como a Xandô, ou leite em embalagens Tetrapack.

Vendo tal força, surgiu a ideia de juntar todo esse pessoal e tentar forçar o setor a assinar o acordo e se responsabilizar pela logística reversa, algo que está previsto na Política Nacional de Resíduos Sólidos, que já tem sete anos. Para dar andamento a essa ação, criamos uma página no Facebook – Gostamos de leite, de ixo, não! – e estamos nos organizando para juntar embalagens de todo tipo de laticínios e levar ao Sindileite, junto com um abaixo assinado eletrônico, pedindo a adequação do setor. Quem sabe assim eles entendem que seus consumidores estão preocupados com a situação e querem mudanças…

Se os fabricantes de laticínios não se sensibilizam, e se o poder público não fiscaliza nem pune, resta a nós, consumidores, fazermos a nossa parte.

A Política Nacional de Resíduos Sólidos prevê que indústrias, distribuidores, poder público e consumidores sejam solidários na reciclagem. Estamos fazendo coleta e pressão. Não vejo outra saída. A grande vantagem é que agora sei que não estou sozinha.

Abaixo, o abaixo assinado que entregamos à Fazenda Boa Vista:

Prezados senhores,

Somos um grupo de consumidores satisfeitos com o produto de vocês: o leite da Fazenda Bela Vista. Estamos, porém, profundamente infelizes e insatisfeitos com o tipo de embalagem utilizada para entregá-lo: garrafas plásticas.

Quando se busca preservar o planeta, consumir de modo 
consciente e seguir a legislação – no caso, o Plano Nacional de Resíduos Sólidos, que vigora desde 2014 – vemos que a empresa deixa muito a desejar.

Uma família de quatro pessoas consome, fazendo um cálculo modesto, 7 litros de leite por semana. São 30 garrafas por mês, 365 por ano. Por mais que as garrafas sejam recicláveis, por mais que se tente utilizá-las para outros fins, trata-se de um impacto ambiental fenomenal, que deve ser endereçado pela empresa de modo responsável e urgentemente.

Segundo dados oficiais do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (Snis), cuja coordenação é do Ministério das Cidades, apenas 5,7% do material reciclável no país é deveras reciclado. Ou seja, grande porcentagem das garrafas produzidas por vocês não chega a ser recuperada. Segundo esse cálculo, das 365 garrafas/ano de uma família, apenas 21 seriam recicladas. As outras 344 garrafas terminam em aterros, rios, mar. E estamos falando de uma única família!

Portanto, as garrafas plásticas utilizadas pela Fazenda Bela Vista são profundamente nocivas ao meio ambiente e totalmente inadequadas para qualquer companhia que se pretenda moderna e preocupada com o impacto de seus produtos.

Vários de nós, consumidores, temos tentado, insistentemente, mas sem sucesso, alertá-los para o problema e pedir uma solução por meio do SAC. Algumas reclamações e pedidos datam de 2007, mas as respostas recebidas são sempre negativas e inócuas:

“Por risco de contaminação, a legislação não permite utilização de material reciclável para alimentos perecíveis, portanto, não podemos utilizar matéria prima reciclada em nosso processo de produção”.

Ou: “Infelizmente nossa fábrica não está estruturada para embalagens de vidro” – uma das soluções por nós propostas –. “Isso requer um amplo estudo para troca de equipamentos e altos investimentos.”

Ora, qualquer processo de adequação requer investimentos. E acreditamos que 10 anos (!) seja um período razoavelmente amplo para se estudar e implementar mudanças.

Entendemos, ainda, que tais investimentos poderão ser amortizados na medida em que vocês terão clientes mais satisfeitos e dispostos a consumir os produtos que vendem. Poderia estudar-se, também, se é viável repassar parte desse valor aos consumidores. Clientes que recebem o leite em casa poderiam adquirir seus próprios “kits” de garrafas de vidro, por exemplo.

É nossa intenção resolver o problema e estamos dispostos a ajudar na busca de soluções para se chegar a embalagens mais propícias.

 O que não aceitamos mais são respostas burocráticas e defensivas, sem que, ano após ano, nenhuma providência seja tomada.

 Atenciosamente,

  1. Adela de Coene
  2. Adele Santelli
  3. Aedy Martins
  4. Adriana Alves
  5. Adriana Cerveira Soares de Oliveira
  6. Adriana Machado Ferla
  7. Adriana Marmo
  8. Ahlan Dias
  9. Alessandra Bussilli
  10. Aline Cunha Barbosa
  11. Aline Fanti
  12. Amanda Silveira Carb
  13. Ana Carmen Foschini
  14. Ana Carolina Nunes
  15. Ana Paula Souza Carvalho
  16. Andrea Lie Iwamizu
  17. Andrea Marcondes
  18. Andrea Valencio Pesek
  19. Anna Carolina Mello
  20. Annalu Flecha de Lima
  21. Artionka Capiberibe
  22. Augusto Faria
  23. Beá Meira
  24. Beatriz Bueno Spinardi
  25. Beatriz Moreira Ferreira
  26. Bruna Monteiro de Barros
  27. Carina Castro
  28. Carlos Emilio Faraco
  29. Carolina Pasquali
  30. Carolina Tarrio
  31. Cassia Conti
  32. Christina Mello Meirelles
  33. Cintia Aline Marçalo Tolosa
  34. Claudia Carmello
  35. Claudia Tavares
  36. Cléa Martins
  37. Cristina Catunda
  38. Daniela Correia de Sequeira
  39. Daniela Dantas de Andrade
  40. Danielle Mayumi
  41. Débora Ribeiro de Lima
  42. Denise Barbosa
  43. Diogo Xavier Schelp
  44. Edna Dantas
  45. Elena Grosbaum
  46. Elma Gomes
  47. Ernesto Mazolla
  48. Érika Luciani
  49. Fabiana Queirolo
  50. Flavia Bolaffi
  51. Flavia Caldeira Mello
  52. Flavia Martinelli
  53. Gabriel Lavisnky
  54. Gabriela Alves
  55. Gabriela Arbex
  56. Gislane Azevedo
  57. Giuliana Arcocha Bergamo
  58. Guilherme Freire
  59. Gustavo Calazans
  60. Isabel Amando de Barros
  61. Isabel Luciane
  62. Isabella Marcatti
  63. Isadora Cal Oliveira
  64. Jaisse Moraes
  65. Jandira Ribeiro
  66. Joana Mendes da Rocha
  67. Joana Savaglia
  68. João Paulo de Saboia Fiuza
  69. João Ricardo Marincek
  70. Jocelia Mainardi
  71. Julia Kater
  72. Juliana Farah
  73. Juliana Ruiz
  74. Juliana Taioli
  75. Jurema de Oliveira
  76. Katia Geiling
  77. Katia Keiko Matunaga
  78. Kim Riebel Annenberg
  79. Kitti Haasz
  80. Larissa Anastacio
  81. Laura Alves Martirani
  82. Lola Vaz
  83. Lorena Meicon
  84. Luana Rocha
  85. Lucia Bergamo
  86. Lucia Finotti
  87. Luciana Benatti
  88. Luciana Camuzzo
  89. Lucila Fillizola
  90. Lucila Vigneron Villaça
  91. Magno Carraro
  92. Manuela Prata
  93. Marcelo Seckler
  94. Márcia de Carvalho Santos
  95. Marcia Grosbaun
  96. Marcia Padilha Lotito
  97. Maria Clara Moura
  98. Maria Fernanda Franco
  99. Maria Mello
  100. Maria Lucia Ramos Monteiro
  101. Mariana Correa
  102. Mariana Cotrim
  103. Mariana de Fatima Gallardo
  104. Mariana Fontes
  105. Mariana Labaki
  106. Mariana Waechter
  107. Marília Rosenberg Beznos
  108. Marina Mello
  109. Maristela do Valle
  110. Marcia Pires
  111. Miriam Aratangy
  112. Monica Meira
  113. Mônica Nunes
  114. Morgana Alonso
  115. Nara Kassinoff
  116. Nicle Ackermann
  117. Nina Furukawa
  118. Paola Cavallari Azevedo
  119. Patricia Andrade
  120. Patricia Duarte Cançado
  121. Patricia Escudeiro
  122. Patricia Rubano
  123. Patricia Cerqueira
  124. Patricia Kranz
  125. Paula Carvalho
  126. Paulo Cesar Grecco
  127. Paulo Vieira
  128. Rachel do Valle
  129. Renata Rubano
  130. Ricardo Ferraz de Almeida
  131. Regiane Santos
  132. Regina Barrionuevo
  133. Roberta Meirelles Guidi
  134. Sandra Chiappero Schaun
  135. Sergio Rodrigues
  136. Silvia Ballan
  137. Silvia Berlink
  138. Silvia Düssel Schiros
  139. Silvia Prado Alterhum
  140. Simone Melo
  141. Sonia Oliveira
  142. Tathiana Pagano
  143. Thais Lazzeri
  144. Thais Lobo
  145. Thais Mauad
  146. Thais Sterling Rosenthal
  147. Thamis Esteves Silva
  148. Tissiane Almeida
  149. Vágner Silva
  150. Valeria Santos
  151. Veronica Freidenraich
  152. Viviani Rossi
  153. Wanda Nestlehener

 Fotos: Renata Ursaia

Mãe de dois filhos, jornalista e consumidora de leite, Carolina está bem preocupada com o tanto de plástico que descartamos no ambiente. Ela deseja que seus filhos possam pisar na terra, não em camadas de plástico!

Carolina Tarrío

Mãe de dois filhos, jornalista e consumidora de leite, Carolina está bem preocupada com o tanto de plástico que descartamos no ambiente. Ela deseja que seus filhos possam pisar na terra, não em camadas de plástico!

Um comentário em ““Gostamos de leite. De lixo, não!”

  • 29 de agosto de 2017 em 12:02 PM
    Permalink

    Estimada Carolina Tarrío.
    Como reciclador de embalagens plásticas, gostaria que você considerasse doar essas embalagens vazias para algum sistema de coleta seletiva ou PEV próximo à sua residência.
    Essas garrafas são feitas com PEAD, um plástico de grande valor no mercado de reciclagem. A doação dessas embalagens geraria renda a diversas pessoas que trabalham nos sistemas de logística reversa e às empresas recicladoras. Não as jogue no lixo, esse é um destino infeliz para essas embalagens.
    Atenciosamente.
    Irineu

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