Geleira derretida na Islândia devido à mudança climática ganha memorial de alerta sobre o futuro

Geleira derretida na Islândia devido à mudança climática ganha memorial de alerta sobre o futuro

No começo do século passado, Okjökull era uma geleira com uma extensão de 38 km2 e profundidade de 50 metros. Ficava situada em Borgarfjörður, na região central das montanhas da Islândia. Em 1945, o glaciar já media apenas 5 km2.

Finalmente, em 2014, Okjökull tornou-se apenas ‘Ok’. Ela havia perdido o status de geleira – significado da palavra jökull em islandês. O gelo que restou sobre o então antigo vulcão era mínimo.

Agora Okjöjull é considerado oficialmente o primeiro glaciar do país a ter desaparecido devido ao aquecimento global. Por ter virado símbolo de algo tão triste, no mês que vem, será inaugurado um memorial no lugar, onde no passado ele estava situado, para lembrar a esta e às futuras gerações do impacto do ser humano sobre o meio ambiente.

“Um carta ao futuro,

Ok é a primeira geleira islandesa a perder seu status de geleira.

Nos próximos 200 anos, todos os nossos glaciares deverão seguir o mesmo caminho.

Este monumento foi criado para reconhecer que sabemos o que está acontecendo e o que precisa ser feito.

Só você sabe se nós fizemos isso”.

O texto acima está escrito na placa que será colocada junto ao memorial, uma mensagem clara para as futuras gerações, em que se admite a culpa e o reconhecimento de que a atual geração sabe o que está acontecendo. A mudança climática é real, já causa grave impacto sobre o planeta e é a responsável pelos chamados extremos climáticos, como ondas de calor sem precedentes, tempestades, degelos nos pólos, dentre outros.

A placa tem ainda a data “Agosto 2019” e o número 415ppm CO2: o nível recorde de dióxido de carbono registrado na atmosfera terrestre em maio deste ano, a primeira vez que isso aconteceu na história da humanidade.

“Este será o primeiro monumento a uma geleira perdida para a mudança climática em qualquer parte do mundo”, diz Cymene Howe, antropóloga da Universidade de Rice, nos Estados Unidos. “Ao lembrar o desaparecimento de Ok, esperamos chamar a atenção para o que está sendo perdido quando as geleiras da Terra sumirem. Esses corpos de gelo são as maiores reservas de água doce do planeta e congelados dentro deles estão histórias da atmosfera”.

O futuro das geleiras da Islândia

Desde os primeiros assentamentos humanos na Islândia, há aproximadamente 1.200 anos, o povo que habitou essas terras estava acostumado com a paisagem dominada pelo gelo. Mas desde o início do século XX, as mais de 400 geleiras do país têm derretido em um ritmo sem igual, perdendo, atualmente, cerca de 11 bilhões de toneladas de gelo todos os anos.

Cientistas prevêem que todas as geleiras da Islândia terão desaparecido até 2200.

Em 2018, foi lançado o documentário “Not Ok”, produzido por Howe e o também antropólogo Dominic Boyer. O filme fala sobre o desaparecimento da menor das geleiras islandesas, Okjökull.

“Ok foi a primeira geleira declarada morta pela maneira como os seres humanos transformaram a atmosfera do planeta. Seu destino será compartilhado por todas as geleiras da Islândia, a menos que ajamos agora para reduzir radicalmente as emissões de gases do efeito estufa”, alerta Boyer.

“Memoriais não são para os mortos, eles são para os vivos. Queremos ressaltar que cabe a nós, os vivos, responder coletivamente à rápida perda de glaciares e aos impactos contínuos das mudanças climáticas. Para a geleira Ok já é tarde demais. Ela agora é o que os cientistas chamam de “gelo morto”.

*Com informações da Rice University

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Fotos: divulgação Rice University

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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