Gatos e aves, uma combinação desastrosa

Post 17 - Blog Avoando (autor: Sandro Von Matter)

Diferente de outros animais como vacas, cavalos e porcos, os gatos iniciaram sua longa jornada rumo a domesticação por meio de uma associação definida pela ciência como comensalismo que é a relação entre espécies diferentes que se caracteriza por ser benéfica para uma, não causando prejuízo para a outra.

As primeiras evidências arqueológicas da associação entre gatos e humanos datam de 9.500 anos atrás. Acredita-se que a partir do desenvolvimento da agricultura, gatos selvagens passaram a frequentar, naturalmente, locais utilizados para estocar grãos em busca de uma de suas presas prediletas, os ratos.

Mas as origens ancestrais dos gatos domésticos, foram realmente desvendadas apenas em 2007, por um grupo de cientistas liderado por Carlos Driscoll, no estudo The Near Eastern Origin of Cat Domestication, publicado na revista científica Science. Os pesquisadores descobriram que todos os gatos modernos são descendentes de espécies selvagens nativas do Oriente.

Tudo começou há milhares de anos em uma região, conhecida pela invenção da agricultura moderna, atualmente denominada como Crescente Fértil que, compreende, Palestina, Israel, Jordânia, Kuwait, Líbano e Chipre, bem como partes da Síria, do Iraque, do Egito, do sudeste da Turquia e sudoeste do Irã.

Na época, curiosamente os gatos se auto domesticaram. Isso mesmo! Se, hoje, donos de gatos têm dificuldade em manter seus animais dentro de casa, há 10 mil anos, na região do Crescente Fértil era impossível manter um gato fora de casa.

Uma vez que esses felinos se mostraram animais extremamente úteis no controle de pragas, se tornaram imprescindíveis e, pouco a pouco, passaram a ser incluídos em longas migrações que atravessaram a Europa, a Ásia e a África. O sucesso da parceria entre gatos e humanos foi tão grande que, hoje, existem nada menos que 600 milhões de gatos domésticos em todo o mundo.

Mas, e as aves? Bem, para as aves esta histórica associação está longe de ser benéfica, muito pelo contrário: hoje, gatos domésticos são reconhecidos, no mundo todo, como uma das maiores ameaças globais à biodiversidade.

Como todos os felinos, os gatos são predadores muito eficazes. Não é mera coincidência que já tenham contribuído para a extinção de, pelo menos, 33 espécies de aves e continuem a ameaçar não apenas aves, mas uma ampla variedade de espécies de animais nativos, incluindo espécies ameaçadas.

O impacto ambiental provocado pelos gatos domésticos é tão catastrófico que a União Internacional para Conservação da Natureza (UICN) os incluiu na lista global das 100 piores espécies invasoras.

Segundo o estudo The impact of free-ranging domestic cats on wildlife of the United States, publicado em 2013 na revista Nature Communications, apenas nos Estados Unidos, todos os anos os gatos domésticos são responsáveis pela morte de aproximadamente 2,4 bilhões de aves. A pesquisa coordenada pelo renomado cientista Peter Marra analisou os dados de cerca de 90 publicações disponíveis na literatura científica.

Você pode imaginar, então, que apenas gatos de rua caçam para se alimentar e que gatos bem tratados não contribuem para a morte de aves, mas a caça é um comportamento instintivo da espécie e a fome não tem relação direta com a predação de aves.

Na verdade, o problema é ainda mais sério: a pesquisa científica Fearing the feline: domestic cats reduce avian fecundity through trait-mediated indirect effects that increase nest predation by other species, publicada em 2013 na revista Journal of Applied Ecology, pelo cientista Karl Evans e colaboradores, aponta que a mera presença de um gato próximo a áreas onde existam ninhos de aves desencadeia um efeito cascata que leva à predação de, pelo menos, o dobro de ovos e filhotes por outros predadores, além de alterar o comportamento dos pais, reduzindo em 33% a quantidade de alimento que será oferecido aos filhotes no ninho.

Gatos domésticos podem ser tão nocivos ao meio ambiente que já foram responsáveis pela destruição de alguns dos maiores paraísos de biodiversidade das aves, como o Havaí. Lá, a introdução de gatos por volta do ano de 1700 afetou a sobrevivência de milhares de espécies de aves nativas na ilha e coloca em risco espécies icônicas como o Vestiaria coccinea ou ‘I’iwi (no vídeo acima).

Aqui no Brasil, os gatos foram levados ao Arquipélago de Abrolhos. Dezenas foram introduzidos na Ilha de Santa Bárbara, após infestação por ratos (Rattus rattus). Mas, em vez de caçar ratos, os gatos domésticos passaram a se alimentar dos ovos e dos filhotes de aves como o Atobá-branco (Sula dactylatra). Um desastre ambiental! Ainda hoje, mesmo após a remoção dos gatos da ilha, as taxas de sucesso reprodutivo das aves é baixa e o equilíbrio do ecossistema continua vulnerável.

Além de colocar diretamente em risco aves nativas, os gatos podem, por consequência, interferir na integridade de nossos ecossistemas, afetando espécies de aves que desempenham papel-chave no seu equilíbrio. Quando uma ave é extinta ou ocorre declínio populacional de determinada espécie, todo o funcionamento do ecossistema – que é formado por uma teia delicada de interações – acaba sendo drasticamente alterado.

Mas qual seria a solução?

A maneira mais simples e eficaz de eliminar o impacto provocado pelos gatos domésticos sobre a biodiversidade brasileira é conscientizar seus donos para que adotem os Princípios da Posse Responsável (Lei N.º 13.131).

Em prol da saúde e do bem estar dos próprios gatos, os animais devem ser mantidos em área delimitada, seja dentro de casa, em áreas cercadas por telas ou em outros locais que garantam tanto a segurança física dos animais quanto que impeçam que se tornem um risco real para as aves e, consequentemente, para o equilíbrio do meio ambiente.

Ao explorar áreas externas sem o acompanhamento de seus donos, os gatos se expõem a inúmeros riscos. Estimativas realizadas por entidades dedicadas à proteção animal apontam que a expectativa de vida de gatos mantidos em áreas controladas é até dez anos maior que a de gatos que acessam áreas abertas livremente.

Além dos riscos de brigas com outros gatos, ataques por cães, atropelamento, envenenamento e desorientação, os gatos ficam sujeitos à transmissão de doenças incuráveis. Uma das mais comuns, transmitida entre gatos, é a rinotraqueite, causada pelo herpes vírus, mas existem inúmeras outras doenças consideradas letais para os felinos como as viroses PIF, FIV e FeLV. A PIF (peritonite infecciosa felina) e a FeLV (leucemia felina) são transmitidas por contato e saliva, enquanto que a FIV (imunodeficiência viral felina) é transmitida durante brigas, por meio de machucados.

É também fundamental que políticas públicas direcionadas à retirada de animais domésticos de áreas e unidades de conservação, assim como também de praças e parques sejam cuidadosamente pensadas e implementadas levando-se em conta, sempre, os cuidados com a conservação da biodiversidade, mas também o bem estar e os direitos dos animais.

Ações e programas direcionados a retirada de gatos de áreas públicas devem, obrigatoriamente, estar acompanhados de campanhas para adoção e castração gratuita, além de projetos visando a conscientização dos futuros donos e de quem já tem gatos.

Lembre-se sempre: lugar de gato feliz, saudável e tranquilo, longe dos perigos da vida, em harmonia com o meio ambiente e a conservação das espécies de aves brasileiras é dentro de casa, ou passeando na coleira.

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Fotos: Sandro Von Matter

Pesquisador em ecologia e conservação, se dedica a investigar questões sobre o topo das florestas tropicais e as fascinantes interações entre animais e plantas. Hoje, à frente do Instituto Passarinhar, é um dos pioneiros em ciência cidadã no Brasil, e desenvolve projetos em conservação da biodiversidade e restauração ecológica, criando soluções para tornar os centros urbanos mais verdes.

Sandro Von Matter

Pesquisador em ecologia e conservação, se dedica a investigar questões sobre o topo das florestas tropicais e as fascinantes interações entre animais e plantas. Hoje, à frente do Instituto Passarinhar, é um dos pioneiros em ciência cidadã no Brasil, e desenvolve projetos em conservação da biodiversidade e restauração ecológica, criando soluções para tornar os centros urbanos mais verdes.

4 comentários em “Gatos e aves, uma combinação desastrosa

  • 24 de fevereiro de 2016 em 8:29 AM
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    Olá Sandro, muito esclarecedora matéria, eu mesma pensava que caçar aves era da natureza do gato e pronto, como todo predador e sua presa, natural, porém não tinha informação de como se deu a migração desses animais… o desiquilibrio causado pela ação do bicho homem.

    Um abraço.

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  • Pingback:BirdNews | Fevereiro 2016 - A Passarinhóloga

  • 30 de março de 2018 em 11:47 PM
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    Nos EUA eles vivem fazendo estudos pra colocar a culpa no gato no sumiço de aves,mas nunca apontam pra si mesmos, afinal, poluição da água, desmatamento, agrotóxicos e caça tb aniquilam as aves. Faltou dizer na matéria que gato alimentado não caça. É muito raro gato doméstico caçar e mesmo os que moram em parques, cuidados pela comunidade, não se dão ao trabalho de subir numa árvore para caçar. Os estudos não levam em conta que em ambientes urbanos os pássaros sofrem adaptações de sobrevivencia e há outros predadores como gaviões e macaquinhos soltos nos parques. Numa floresta os passaros contam com um numero muito maior de predadores, de todos os tipos, mas os biólogos não vão até a floresta dizer que tudo quanto é bicho é praga. O gato não é invasor porque se ele for, o cachorro tb é. São animais urbanos, trazidos pras cidades pelo homem e com tanto direito de aqui viver quanto as aves.Dizer que é natural o gato caçar passaro é coisa de quem nada entende de gato urbano. Gato da cidade não anda caçando nem barata, que dirá subir em arvore pra pegar ovos. Hei… não estamos falando de gatos selvagens que dependem de passaros para sobreviver, ok? E aliás, ninguém vai falar do sumiço dos gatos selvagens? Da extinção de inumeros pequenos felinos selvagens? Dizimados por estudos como esses que colocam o gato como o inimigo da fauna e não como integrantre dela.

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    • 12 de setembro de 2018 em 7:17 PM
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      Eu tô com vc Fátima Chuecco. E os agrotóxicos não matam as árvores e as aves e insetos? E passarinho é muito esperto, eles não se deixam matar assim…

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