Garimpeiros matam índios isolados no Vale do Javari, na Amazônia. MPF confirma massacre


Até sexta feira passada, 8/9, oficialmente, a maior tragédia envolvendo indígenas no Brasil era o massacre de 16 Yanomami, da aldeia Haximu, em Roraima, também por garimpeiros, em 1993, que teve repercussão internacional. Mas, nesse dia, o Ministério Público Federal do Amazonas confirmou as mortes de, pelo menos, 20 índios “flecheiros”, em agosto, na Terra Indígena (TI) Vale do Javari, às margens do rio Jandiatuba (foto acima), no extremo oeste do Amazonas, na fronteira com Peru e Colômbia.

A denúncia foi feita pela Coordenação Regional da Funai, em Tabatinga. Mas a presidência do órgão ainda não confirmou e o Ministério da Justiça também não se pronunciou. A ONG Survival International relatou que garimpeiros haviam sido vistos no município de São Paulo de Olivença exibindo objetos dos índios mortos, como flechas e um remo. De acordo com a mesma ONG, entre as vítimas, há mulheres e crianças.

Este, na verdade, é o segundo massacre investigado pelo MPF e pela Polícia Federal este ano. O primeiro aconteceu na mesma TI, entre os rios Jutaí e Jutaizinho, em maio, e vitimou também índios de outra tribo isolada, os Warikama Djapar. A denúncia partiu do líder da etnia Kanamari, Adelson Kora Kanamari, mas o caso ainda está sendo investigado.

“Todas estas tribos deveriam ter tido suas terras devidamente reconhecidas e protegidas há anos”, disse Adelson à Agência Amazônia Real. “O apoio do governo àqueles que querem violar territórios indígenas é extremamente vergonhoso”, acrescenta.

O governo Temer tem recebido, tanto no Brasil como no exterior, duras críticas por ‘retroceder’ tanto na proteção ambiental como dos direitos indígenas, tendo sido denunciado por organizações da sociedade civil ao Alto Comissariado da ONU e à Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA.

Para não atrapalhar as investigações do massacre dos índios “flecheiros”, foram poucas as informações reveladas até agora, mas o que se sabe é que foram apreendidos objetos indígenas com garimpeiros – os mesmos relatados pela ONG Survival International -, além de um vídeo, gravado com celular, no qual eles comentam os assassinatos, que podem ser classificados como genocídio contra uma etnia indígena.

Logo após a notícia, o MPF, a Polícia Federal, o Exército e o Ibama se uniram para uma ação de desmonte de garimpos ilegais de ouro no rio Jandiatuba, entre 28/8 e 1º/9 (foto de destaque, neste post). Depois da ‘casa roubada’, pois … E, pela magnitude das instalações e dos equipamentos, ficou evidente que está havendo uma ‘corrida’ na região para a exploração de minérios e que ela tem o apoio de políticos e empresários.

Justamente por estarem isolados do convívio com não-índios, indígenas como os “flecheiros” e os Warikama Djapar estão mais vulneráveis a esses ataques.

O indigenista Armando Soares – que trabalhou como coordenador da Frente de Proteção Etnoambiental do Vale do Javari, entre 2002 e 2005, e durante dez anos na Coordenação Geral de Índios Isolados e Recém-Contatados (CGIIR) – conversou com a Amazônia Real e confirmou que pouco se sabe sobre os índios “flecheiros”, que muito poucos os conhecem. Não é possível nem classifica-los em uma etnia. E, assim, sem informações é muito mais difícil investigar e criar uma proposta de proteção já que, agora, com estas mortes, eles estão ainda mais vulneráveis.

Foi Soares quem criou a Frente de Proteção Etnoambiental Madeira-Purus, que monitora os territórios de outros índios isolados: Hi-Merimã e Suruwahá. Mas a grande questão agora é que, com o corte drástico de recursos, consequentemente, há redução de investimentos em vigilância e monitoramento e a situação deles pode piorar. E ele também destaca a atuação dos novos gestores da Funai: “Ainda tem a falta de sensibilidade dessas pessoas que estão chegando. Eles não têm sensibilidade com os índios com quem falam de frente, imagine com os isolados, que eles nem veem e até acham que nem existem. É insensibilidade, covardia, omissão e ignorância. Não têm o menor conhecimento de uma situação tão complexa”.

Tribos isoladas, muitas e cada vez mais vulneráveis


São classificados pela Funai como isolados os grupos indígenas que não têm contato direto e permanente com não-índios, com ‘os brancos’. Na foto acima, do Ibama, malocas de tribo isolada.

Pra ser ter ideia da situação no Vale do Javari, basta dizer que a Terra Indígena nessa região foi homologada em 2001 e tem 8,5 milhões de hectares e que, nela, existem, pelo menos, 14 grupos isolados, entre eles os Korubo e os Warikama Djapar, que já citei. Com estes, não há qualquer contato, apenas monitoramento das malocas, dos roçados e dos objetos pessoais que eles costumam deixar pelo caminho em suas andanças.

Também há um grupo com o qual foi feito contato recente – Tyohom Djapar -, que vive em uma aldeia dos índios Kanamari (que denunciaram a matança dos ‘flecheiros’). Entre as etnias já conhecidas e com as quais pesquisadores e funcionários da Funai mantêm contato estão, além dos Kanamari, os Marubo, Mayoruna, Matís e Kulina. Mas, de acordo com a Funai, na Amazônia existem 107 registros de grupos de índios isolados.

Em conversa com a agência Amazônia Real, Paulo Marubo, presidente da União dos Povos Indígenas do Vale do Javarí (Univaja), salientou que cada vez mais estão sendo descobertos índios isolados, que têm se aproximado de aldeias de índios já contatados, como os da sua etnia. “Aqui no Vale do Javari é onde se concentra a maior quantidade de índios isolados do Brasil. Eles aparecem a todo momento, estão chegando mais próximo por curiosidade, porque querem conhecer outros índios, mas não fazem contato. Vivem sem preocupação com as consequências para a vida deles”. Marubo também alertou para a vulnerabilidade crescente desses grupos, principalmente por falta de recursos.

Foto/destaque: Operação no rio Jandiatuba, no Vale do Javari, contra garimpo em terra indígena (Ibama/Divulgação)

Fonte: Agência Amazônia Real e jornal Folha de São Paulo

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na Claudia e Boa Forma, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, considerado o maior portal no tema pela UNF. Integra a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade.

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na Claudia e Boa Forma, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, considerado o maior portal no tema pela UNF. Integra a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade.

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