Fungos produzem nanopartículas de prata antimicrobianas

Fusariumoxysporum_wikimedia

Uma pesquisa com fungos demonstra como eventuais pragas agrícolas e domésticas podem se transformar em produtoras de benefícios, quando bem aproveitadas. A pesquisa envolve fungos do gênero Phoma (sobretudo Phoma glomerata) e Fusarium oxysporum e sua capacidade de produzir nanopartículas de prata, com propriedades antimicrobianas e potencial para se transformarem em medicamentos contra dermatites e infecções hospitalares. O trabalho está em andamento no Instituto de Química da Universidade Estadual de Campinas (IQ/Unicamp), liderado pelo doutor em Química, Nelson Eduardo Duran Caballero.

Phoma glomerata é conhecido por destruir fibras de lã e estragar diversos materiais usados no interior de edifícios, como madeira, papel e couro. Também é o fungo responsável por doenças de kiwis, mangas e outras frutas, além de afetar grãos de trigo e triticale. Fusarium oxysporum atinge principalmente o feijão e a batata, causando quebras de safras em anos muito úmidos.

Mas nos laboratórios do IQ, nas mãos de Nelson Duran e sua equipe, os dois fungos se provaram capazes de produzir nanopartículas de prata, por meio de um sistema biológico de síntese que substitui os métodos físicos e químicos, dependentes do uso de substâncias tóxicas, muitas vezes prejudiciais ao meio ambiente. Ou seja, aproveitar a mão de obra microbiológica é mais limpo e também mais barato.

O cultivo dos fungos é fácil e eles demonstraram capacidade de reduzir cátions (íons positivos) de metal, produzindo nanopartículas de tamanhos e propriedades diversas. O uso medicinal das nanopartículas de prata, produzidas por Nelson Duran, foi testado in vitro pela bióloga e doutora em Ciências Biológicas, Marta Cristina Teixeira Duarte, do Centro Pluridisciplinar de Pesquisas Químicas, Biológicas e Agrícolas (CPQBA/Unicamp).

“Verificamos a atividade antimicrobiana das nanopartículas de prata contra dermatites causadas por fungos e contra algumas bactérias”, conta Marta. “Ainda não temos segurança para testes de medicamentos de uso interno, porque não sabemos como se comportam as nanopartículas de prata em organismos vivos. Os resultados que temos são bem preliminares, porém demonstraram atividade contra diversos microrganismos patogênicos”.

Marta Duarte enumera os microrganismos contra os quais as nanopartículas de prata parecem ter bom potencial: Propioniobacterium acnes, bactéria causadora da acne e rosácea; Malassezia furfur, levedura causadora de dermatite seborreia e caspa; Candida albicans, fungo causador de infecções orais e estomatites; Candida krusei, C. dubliniensis e C. glabrata, todas leveduras causadoras de infecções bucais; Trichophyton rubro e T. mentagrophytes, ambos fungos filamentosos causadores de dermatomicoses; Pseudomonas aeruginosa, bactéria associada a infecções hospitalares, resistente a antibióticos; Escherichia coli, bactéria causadora de intoxicações alimentares; Staphylococcus aureus, bactéria oportunista em queimados; Bukorolderia cepaceae, bactéria oportunista no sistema respiratório, e Salmonella choleraesuis, bactéria causadora de gastroenterites, com possibilidade de evoluir para septicemia.

Phomaglomerata_trigo
O desempenho dos dois gêneros de fungos – Phoma e Fusarium – foram comparados entre si quanto à eficiência na produção das nanopartículas e apresentaram desempenho semelhante, inclusive econômico, de acordo com Nelson Duran. Ele conta que o trabalho iniciou em 2013, com o pesquisador indiano convidado, Mahendra Rai, da Universidade de Amravati, que veio ao Brasil e o recebeu na Índia, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

A pesquisa com as nanopartículas de prata produzidas pelo Fusarium oxysporum começaram antes e com elas já foi desenvolvido um protótipo de gel e esmalte antifúngico contra infecções das unhas. O novo medicamento está em análise na empresa Donaire, de Americana, no interior paulista. Produtos contra os outros microrganismos, testados in vitro ainda demoram, mas essa, com certeza, é uma boa promessa de inovação no combate às doenças por eles causadas.
Fotos: Wikimedia CC (Fusarium oxysporum, ao alto) e Zillinsky F J/Centro Internacional de Mejoramiento de Maiz y Trigo (Phoma glomerata no trigo, acima)

Liana John

Jornalista ambiental há mais de 30 anos, escreve sobre clima, ecossistemas, fauna e flora, recursos naturais e sustentabilidade para os principais jornais e revistas do país. Já recebeu diversos prêmios, entre eles, o Embrapa de Reportagem 2015 e o Reportagem sobre a Mata Atlântica 2013, ambos por matérias publicadas na National Geographic Brasil.

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