Fungo dizima mais de 500 espécies de anfíbios no mundo

fungo dizima 500 espécies de anfíbios

*Por Karina Toledo

Um fungo microscópico de hábitos aquáticos é o responsável pela maior perda de biodiversidade, em toda a história, atribuível a um único patógeno (causa específica de uma doença, como uma bactéria ou um vírus ), afirmaram cientistas na revista Science nesta quinta-feira (28/03).

Causador de uma doença infecciosa conhecida como quitridiomicose, o microrganismo provocou, nos últimos 50 anos, declínio nas populações de pelo menos 501 espécies de anfíbios. Em alguns casos, as espécies ficaram restritas a menos de 10% da sua distribuição original. Acredita-se que 91 delas tenham sido completamente extintas.

“Consideramos essa quantificação conservadora, pois o patógeno provavelmente causou o declínio de muitas outras espécies ainda desconhecidas pela ciência. Esse fenômeno pode ser particularmente relevante na região neotropical (que compreende a América Central, incluindo parte do México e dos Estados Unidos, todas as ilhas do Caribe e a América do Sul), onde há muitas espécies não descritas”, disse Benjamin Scheele, pós-doutorando na Australian National University, na Austrália, e primeiro autor do artigo à Agência FAPESP.

Os pesquisadores estimam que pelo menos 6,5% das espécies conhecidas de anfíbios sofreram declínios causados pelo fungo.

“É um número muito alto. Temos registros de patógenos desde a época dos dinossauros e, com certeza, podemos afirmar que essa é a pior doença a acometer a vida selvagem em todos os tempos”, disse Luís Felipe de Toledo, professor do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coautor do estudo.

Toledo e sua aluna Tamilie Carvalho são os únicos brasileiros a integrar o grupo de 42 pesquisadores de 16 países que conduziu o levantamento. O trabalho contou com apoio da FAPESP.

As conclusões apresentadas no artigo se baseiam em uma extensa revisão da literatura e também em consultas feitas a especialistas de todo o mundo e à Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN, na sigla em inglês).

“No panorama global apresentado no artigo, o Brasil tem destaque negativo: pelo menos 50 espécies ou populações foram afetadas, sendo que 12 foram extintas e 38 sofreram declínio. Algumas populações já dão indício de recuperação, enquanto outras permanecem desaparecidas”, contou Toledo.

A Mata Atlântica, segundo o pesquisador da Unicamp, foi o bioma mais afetado no país. A grande maioria dos registros de extinção vai do Espírito Santo ao Paraná.

“Existem alguns pontos em que sabidamente sumiram muitas espécies, como Boraceia (litoral norte de São Paulo), Serra dos Órgãos (Rio de Janeiro), Itatiaia (na divisa entre Rio de Janeiro e Minas Gerais) e Caparaó (divisa entre Minas Gerais e Espírito Santo). Mas isso não quer dizer que outras regiões não sofreram impacto. Simplesmente não tínhamos uma amostragem tão boa como a da Mata Atlântica”, disse Toledo.

Doença fatal

A quitridiomicose é causada por duas espécies de fungo do gênero Batrachochytrium. O B. salamandrivorans afeta apenas as salamandras e nunca foi registrado no Brasil. Já o B. dendrobatidis é encontrado em todos os continentes e acomete os três grupos de anfíbios: anuros (sapos, rãs e pererecas), salamandras e cobras-cegas, ou cecílias.

O patógeno se aloja nas células da pele dos indivíduos adultos, prejudicando a respiração e levando-os à morte por parada cardíaca. Em girinos, o fungo parasita a região do bico e dos dentículos, dificultando a alimentação e comprometendo o crescimento.

Segundo o levantamento divulgado na Science, o grupo dos anuros – onde estão 89% das espécies anfíbias – foi o que sofreu o maior número de declínios severos (93%) por ser também o mais abundante. As regiões tropicais da Austrália e das Américas Central e do Sul foram as mais afetadas, enquanto Ásia, África, Europa e América do Norte apresentam número “notavelmente baixo” de declínios.

As principais vítimas foram as espécies de distribuição geográfica restrita, com corpo grande, moradoras de regiões úmidas e com hábitos aquáticos perenes – uma vez que os esporos do Batrachochytrium são liberados na água e conseguem nadar até infectar outro hospedeiro.

Segundo Toledo, alguns gêneros de anuros se mostraram particularmente suscetíveis à infecção, como é o caso do Atelopus – com espécies ocorrendo entre a América Central e a América do sul, desde a Costa Rica até a Amazônia brasileira.

“O pico dos declínios aconteceu nos anos 1980, como mostramos em um artigo anterior, e a doença só foi descoberta em 1998. Isso prejudicou os trabalhos de mensuração do impacto, pois quando percebíamos as espécies declinando ou sendo extintas não tínhamos ideia do motivo”, disse Toledo.

A hipótese defendida pela maior parte dos especialistas, divulgada em 2018 também na Science, é que uma linhagem virulenta do fungo originária da Ásia tenha chegado à América Central no último século e se disseminado para o continente sul-americano. Acredita-se que o processo tenha sido favorecido pelo transporte de anfíbios – tanto para consumo humano, quanto para o mercado de bichos de estimação.

“Na Mesoamérica, onde acreditamos que os anfíbios não tinham contato prévio com o fungo, muitas espécies foram totalmente dizimadas. No Brasil, onde a doença existe desde o século 19, pelo menos, alguns animais já haviam desenvolvido resistência e o impacto parece não ter sido tão grande”, disse Toledo.

No artigo mais recente, os cientistas afirmaram que a “letalidade sem precedentes de uma única doença que afeta uma classe inteira de vertebrados destaca a ameaça de disseminação de novos patógenos em um mundo globalizado”.

Para os autores, políticas de biossegurança efetivas e a redução imediata no comércio de vida selvagem são “urgentemente necessárias” para reduzir o risco de disseminação de novos patógenos.

“Como a mitigação da quitridiomicose na natureza permanece incerta, novas pesquisas e monitoramento intensivo com tecnologias emergentes são necessários para identificar mecanismos de recuperação de espécies, bem como desenvolver novas ações de mitigação para espécies em declínio”, disse Scheele.

O artigo Amphibian fungal panzootic causes catastrophic and ongoing loss of biodiversity pode ser lido aqui.

*Texto publicado originalmente em 28/03/2019 no site da Agência Fapesp de Notícias

Foto: espécies do gênero Atelopus/Luis Felipe de Toledo

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