Fundo Amazônia em risco: Ricardo Salles mente no Twitter, se reúne com Alemanha sem Noruega, pede auditoria de projetos…

Tribunal de Contas da União irá investigar gestão ambiental do novo governo

Esta semana, em 9 de julho, o ministro do meio ambiente se reuniu com ministro da Cooperação Econômica e do Desenvolvimento da Alemanha, Gerd Müller, para dar prosseguimento às negociações sobre o Fundo Amazônia, criado no governo Lula, que opera há onze anos e apoia mais de cem projetos. Apesar de ter retido doação de 150 milhões de reais, assim que vislumbrou incertezas por parte do governo Bolsonaro, o representante alemão ainda parece interessado em conversar.

De acordo com o site G1, Müller se mostrou favorável a continuar apoiando o fundo e até se comprometeu a buscar o engajamento de outros países da União Europeia para seu financiamento. Em sua passagem pelo Brasil, incluiu viagem à Manaus para conhecer de perto projetos apoiados pelo Fundo Amazônia, além de se informar melhor sobre as questões indígenas, constantemente atacados por este governo.

Mas de que adianta a boa vontade de Müller se o país parceiro nesse programa, a Noruega, é o maior investidor – responsável por 90% do total aplicado para ajudar a conter o desmatamento na região – e não esteve presente?

Como noticiamos aqui, no Conexão Planeta, na reunião da semana anterior, os dois financiadores europeus se mostraram bastante preocupados com a intenção do governo Bolsonaro de utilizar o dinheiro do fundo para outros fins, como indenizar proprietários rurais pela desapropriação de terras em áreas de conservação. Não só: eles não gostaram nada das mudanças no conselho gestor do Fundo que o ministério do meio ambiente empreendeu, a mando de Salles, garantindo maior poder de decisão ao governo.

E, mesmo com a confirmação dos dois países – por meio de carta divulgada em junho passado – de que as auditorias financeiras realizadas até agora não identificaram quaisquer atos ilícitos por parte de seus administradores, o governo anunciou que a Comissão de Transparência, Governança, Fiscalização e Controle e Defesa do Consumidor do Senado Federal aprovou requerimento que solicita ao Tribunal de Contas da União (TCU) uma nova auditoria nos contratos do Fundo. O Ministério Público Federal (MPF) do Amazonas abriu inquérito civil público para apurar essa “supostas irregularidades” denunciadas por Salles, que continua com sua missão incansável de desqualificar tudo que tem sido feito com o fundo, visivelmente porque este foi criado no governo Lula, que Bolsonaro e seus aliados atacam cegamente.

Foi assim que ele agiu no ICMBio e no Ibama, para desestruturar os dois órgãos de fiscalização do ministério do meio ambiente. Nos dois, demitiu funcionários especializados e contratou militares de sua confiança, para ajuda-lo no desmonte e na devastação dos biomas.

Voltando ao Fundo Amazônia….

A questão é que tanto a Alemanha como a Noruega estão satisfeitos com a gestão dos recursos nestes onze anos, e não aceitam as mudanças impostas, como revelaram após reunião com Salles no primeiro encontro. Também cobraram posição sobre os índices de desmatamento na região, que só aumentam. O ministro do Clima e Meio Ambiente da Noruega, Ola Elvestuen, deixou tudo isso bem claro. Talvez esse tenha sido o motivo pelo qual não compareceu ao encontro desta semana.

Salles mente no Twitter: ataca gestão do Fundo Amazônia com notícia de 2014

Logo após a primeira reunião com os representantes da Alemanha e da Noruega, no início de julho, Ricardo Salles voltou a atacar o Fundo Amazônia. E com mentiras.

Em seu Twitter, divulgou notícia do jornal O Valor Econômico, de 2014, que dizia que, em parceria com a FAO (órgão da ONU para agricultura e alimentação), o BNDES estava elaborando projeto para colaborar com países da bacia do Congo, na África, com o objetivo de monitorar desmatamento na região. Para acompanhar o post, escreveu apenas: “Sem comentários”. Reproduzo abaixo.

Claro que, rapidamente, seguidores e admiradores do ministro o apoiaram e comentaram contra o fundo. Mas, assim que leu o post de Salles, Arthur Koblitz, um dos associados da entidade de funcionários do banco, compreendeu a indireta e respondeu: “Sr. Ministro, essa notícia é falsa. Não há qualquer projeto apoiado pelo Fundo Amazônia na África. (…) Sua posição deveria obrigá-lo a esclarecer a opinião pública, não propagar desinformação”.

Salles não desmentiu seu tweet, nem explicou o engano.

O projeto para ajudar a bacia do Congo realmente existiu – tanto que foi noticiado -, mas nunca foi aprovado. Ele não consta da carteira de projetos ativos do Fundo Amazônia, nem entre as parcerias canceladas.

No entanto, de acordo com o site de O Globo, há mais um agravante para a denúncia falsa de Salles: mesmo que o projeto tivesse sido aprovado e realizado, não poderia ser considerado como irregularidade. O regulamento do fundo prevê o uso de até 20% dos recursos para apoiar o “desenvolvimento de sistemas de monitoramento e controle do desmatamento em outros biomas brasileiros e em outros países tropicais”, como indica o site do Ministério do Meio Ambiente. Numa pesquisa mais aprofundada, é possível encontrar a pasta de projetos internacionais, que indica projeto que beneficia países da América do Sul como Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela.

Portanto, o tweet de Salles é fake news. Que vergonha!

O empenho deste homem (e deste governo) em arrasar projetos que protegem a biodiversidade para que possa cumprir sua missão – devastar os recursos do Brasil, entregando-os a quem quiser explorar -, só reforça sua desonestidade para gerir essa pasta, o que ele já provou quando foi secretário do meio ambiente no governo de Geraldo Alckmin. Em São Paulo, adulterou mapas de uma área de preservação ambiental para favorecer mineradoras e, por isso, foi condenado pela Justiça paulista. Recorreu, sim. No entanto, dizem que a Justiça tarda, mas não falha. Estou contando com isso.

Pra quem quer saber mais sobre as mentiras que Salles conta à frente do ministério, indicamos a leitura do texto em que o Observatório do Clima destrincha a carta que ele escreveu para rebater as acusações dos ex-ministros do meio ambiente, que se uniram para denuncia-lo. Vale a leitura.

Fontes: site Ministério do Meio Ambiente, O Globo, G1, ClimaInfo

Foto: arquivo pessoal Ricardo Salles/reprodução internet

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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