Frans Krajcberg: árvores queimadas e esculpidas

obra de Frans Krajcberg

*Atualizado em 15/11/2017

Quando o artista tira tanta beleza da destruição e chega aos 94 anos fazendo da obra caminho incondicional para uma luta incansável em favor da natureza, prepare-se para a emoção. A fumaça de tronco calcinado da obra de Frans Krajcberg mistura-se ao nosso olfato anestesiado… E aí não há como disfarçar, passar incólume. Pelo menos, não nós que nos preocupamos com isso. Há que dizer que tem muita gente de nariz entupido.  Por mais que a queimada criminosa cheire longe, difícil destrancar essas vias congestionadas pelo lucro cego e benefícios escusos.

Frans Krajcberg

O que já foi árvore chega ao atelier de Krajcberg com a seiva extinta e ramos retorcidos pela dor do fogo. Lá renascem, ganham nova vida. Para o artista, que nasceu na Polônia e perdeu a família num campo de concentração, recriar  é necessidade, é sobrevivência e proteção.  Manter a lembrança viva é garantia para continuar. Ele tem trânsito livre entre inspiração e indignação.  Vive dando pontadas na inércia.

obra de Frans Krajcberg

Carvão e carbono coagulam no vermelho agudo do grito. Estão ali para que não esqueçamos que secaram no fogo sem sol e que não darão frutos depois chuva.  Viraram um véu escuro que pode se desintegrar ao sabor do vento a qualquer momento. Ainda que sumam, permanecem, pelo menos, na memória. É uma busca incessante pela permanência. Busca que é imanente à natureza, à humanidade, e a ele, Krajcberg.

Na procura pelo ficar, o artista encontrou Nova Viçosa, no sul da Bahia, onde vive até hoje. No sítio, uma área de 1,2 km², o artista plantou mais de dez mil mudas de espécies nativas. Vive numa casa-árvore.

casa de Frans Krajcberg

Com as obras inspiradas nas nossas tristezas ambientais Krajcberg consagrou-se como melhor escultor do mundo com o Grande Prêmio de Enku.

O combate aos crimes como queimadas, desmatamentos, crimes contra povos indígenas e exploração de minérios são razão de uma vida obstinada.  O artista, naturalizado  brasileiro em 1954, tem um museu dedicado a ele em Paris. Krajcberg quer preservar o que temos de mais primordial, mais fundamental: a natureza e o nosso contato com ela.


Quem somos nós que permanecemos atrás de um teclado, de um telefone, de uma mesa de escritório, sempre ocupados, sempre afastados do que nos conecta com o princípio de vida? Quantos de nós já não se esqueceu do cheiro de mata molhada, do barulho de rio, do canto de pássaro?  Quem sabe esse permanecer afastado da natureza, imposto pelo grau civilizatório, seja também um dos responsáveis por esse grande número de pessoas que se eximem do discurso de proteção.

Prefere-se lutar por algo mais próximo, gastar energia com alguma coisa mais “prática”. Ah essa praticidade!  Vai acabar nos levando à paralisia total. Fico aqui pensando se não seremos atingidos pela preguiça em massa na hora de mexer o dedo para mudar o canal do controle remoto… Quando o barulho da televisão que permanece ligada por vício é companhia e precisa estar sempre ali de modo a não pairar o silêncio, é bom rever a atitude. Quando permanecer sentado, ouvindo os barulhos e silêncios da mata parece impensável, sem graça ou chato, vai ver que está na hora de mudar o  canal que você parou, o chip que você se deixou colocar, a escolha que fizeram por você.

Tenta, vai,  quebrar esse ritmo de acessos compulsivos às redes sociais. Sai por aí, sei lá, contando as árvores do bairro… Vai que você descobre pés de abacate,  laranja, mexerica… Digo que eles existem! Encontrei na frente de algumas casas, no espaço público, em plena cidade grande. Moradores generosos! Frutas disponíveis para passantes atentos e sedentos de menos contaminação lenta, líquida e certa por agrotóxicos. Pedestres famintos por natureza… Que bom se essas ideias se alastrassem mais do que fogo em floresta…

*Franz Krajcberg faleceu em 15 de novembro de 2017, aos 96 anos de idade. 

Foto de Frans Krajcberg, por artEXPLORER

obra de Frans Krajcberg

Obra de Krajcberg na Oca, em São Paulo

 

Fotos: Amanda Ernane (abertura), artEXPLORA (Frans Krajcberg), Felipe Miguel (exposição), Flickr/Creative Commons (casa árvore e seguinte) e Gabriela Allegro (Oca)

Karen Monteiro

Com arte, tá tudo bem. Se as exposições, peças de teatro, shows, filmes, livros servirem de gancho  para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, cronista, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além de repórter, foi produtora, editora e editora-chefe. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado. Seu mais recente projeto é o seu site pessoal

Um comentário em “Frans Krajcberg: árvores queimadas e esculpidas

  • 17 de novembro de 2017 em 10:45 AM
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    Magnífico trabalho. Merece o nosso respeito! Parabéns ao artista.

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