Fotos pela vida: o fotógrafo Renato Soares faz campanha pela saúde dos indígenas

Há mais de 30 anos, ele viaja e passa temporadas em aldeias na companhia dos povos indígenas. Já compartilhou muito com eles: alegrias, tristezas, ideias, planos. Se banhou nos rios, caçou, cozinhou, comeu, ajudou a construir ocas, cantou, dançou, participou de rituais… E por causa dessa convivência e intimidade, Renato Soares registrou momentos belíssimos e únicos que não se transformaram apenas em obras de arte cobiçadas por amantes da fotografia, colecionadores e empresas, mas também em uma “bandeira pela vida dos indígenas“.

Seu plano é fotografar todas as etnias – são mais de 300 – para seu projeto Ameríndios do Brasil, que dá nome a este blog. Ainda falta muito, mas ele diz que não importa: vai morrer fotografando os indígenas, que ele tanto ama e que entraram em sua vida de forma intensa e definitiva quando conheceu Orlando Villas-Bôas.

Em contrapartida, criou um jeito de lhes oferecer algo por compartilharem tanto com ele: repassa 1/3 de tudo que ganha com a venda de suas fotos para cada etnia. Sim, dinheiro de branco é necessário nas aldeias. É ele que compra um barco, um motor, um jipe, um celular, roupas e calçados para que possam circular pelas cidades quando necessário…

A gente tem que parar de pensar que os indígenas só andam nus, descalços e permanecem confinados nas aldeias. E que todos os seus problemas de saúde podem ser curados apenas com ervas e com pajés.

Proteger crenças e costumes é imprescindível, mas seu contato constante com os brancos – isso não tem mais volta! – os fragiliza. Na saúde também.

E é por isso que eles estão lutando contra a proposta do governo de municipalizar a saúde indígena. O que isso significa?  Que os indígenas passariam a ser atendidos como cidadãos comuns. E por que isso é ruim? Porque a maioria não fala a nossa língua, principalmente. Como um bom atendimento seria possível, assim? “Por isso que os médicos que trabalham nas aldeias são indigenistas”, explica Renato.

Pois é, parece que não bastava liquidar com a Funai, fragilizando ainda mais todos os seus direitos e tornando suas terras ainda mais vulneráveis. O governo Bolsonaro quer deixa-los muito fragilizados. Me lembra, grosso modo, o que aconteceu na época da Ditadura: mais de 8 mil indígenas foram mortos pelos militares. Esse dado está no relatório da Comissão da Verdade. Alguns indígenas foram escravizados, torturados, assassinados. Outros morreram por doenças com a aproximação dos brancos. Muitos foram os casos de pessoas que levaram vestes contaminadas com sarampo para as aldeias com a intenção ou missão de matar os indígenas com esse contato. Dificilmente eles sobreviveriam.

Voltando ao caso atual, é verdade que o ministro da Saúde voltou atrás sobre essa ideia estapafúrdia de municipalizar a saúde dos indígenas, mas não dá pra confiar. A tática deste governo é sempre de desestruturar para liquidar. E é Renato quem conta:

“Este ano, a situação piorou muito. Além de médicos e enfermeiros não receberem salários, também não recebem remédios e outros itens básicos. Me vieram notícias do Mato Grosso, do Pará, do Amazonas sobre a perda de amigos preciosos, pessoas que conheci nas aldeias que visitei ao longo destes anos. E percebi que a situação está caótica. O que parece é que o governo vai levar essa situação aos extremos”. E ele acrescenta: “A Sesai – Secretaria de Saúde Indígena e a Casai – Casa de Saúde Indígena estão depauperadas. Estão minando a saúde indígena”.

Foi aí que ele começou a pensar de que forma poderia ajudar.

“Qual é minha moeda de troca? Qual a moeda que eu tenho feito valer e tem ajudado muito os povos do Xingu? É a fotografia. Existe o valor que é destinado a cada comunidade com a venda das fotografias pela agência que me representa, mas esse dinheiro não vai pra saúde, vai pra comunidade como um todo”. E, assim, ele teve a ideia de lançar uma pequena e linda campanha com o objetivo de arrecadar dinheiro para apoiar a saúde indígena, comprar remédios e tudo que eles precisam nesse sentido. “Por isso que eu defini um valor bem mais baixo – R$ 650 cada foto (postagem não incluída) – pra que mais pessoas tenham acesso às minhas fotografias, com a mesma qualidade que eu garanto para um museu”, destaca o fotógrafo e indigenista.

São 13 imagens belíssimas de seu acervo em ampliações Fine-Art, formato 30cmx45cm, em papel algodão. A renda obtida com a venda das fotos (tirando o custo de papel e impressão e postagem pelos Correios) será revertida para a compra de remédios e itens básicos para os postos de saúde de inúmeras etnias no Xingu. Também para aldeias do Pará.

E, para garantir que chegue às aldeias exatamente o que é preciso, Renato conta que “o médico e indigenista Dr. Douglas Rodrigues, da Unifesp, foi para o Xingu na semana passada pra ver de perto como estão as coisas por lá. Quando voltar, fará uma lista de todos os remédios e itens mais urgentes para que eu possa providenciar com o dinheiro arrecadado na campanha”.

E então? Quer participar? Além de adquirir uma imagem do lindo trabalho realizado por Renato?

As fotos que ilustram este texto (exceto o flagrante de Renato em conversa numa aldeia do Xingu) fazem parte da campanha. Para conhecer todas ou já fazer a sua encomenda, escreva para renato@imagensdobrasil.art.br

Sempre que fica bravo com situações que colocam os indígenas em risco, ele repete uma frase que eu adoro: “Inimigo de índio é inimigo meu!“. Ah, meu também.

E, se também é seu, ajude a espalhar a notícia desta campanha. Envie para aquele amigo que vive dizendo que quer ajudar e não sabe como. Avise familiares, colegas no trabalho ou na escola, vizinhos no condomínio ou no bairro onde mora. Quem sabe você encontra alguém fã da arte de Renato e que nunca teve uma oportunidade como esta para, inclusive, proteger nossos povos originários. Sempre é tempo.

Foto: Renato Soares (indígenas) e Luciola Zvarick (retrato do Renato)

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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