Fotografar e conservar a natureza



Um dia me perguntaram se eu uso câmera trap (ou ‘armadilha fotográfica‘) . Diante da resposta negativa, quiseram saber por qual razão, e a resposta foi simples: eu nunca precisei usar este recurso. Todos os animais que um dia fotografei em circunstâncias difíceis, o fiz utilizando dois dos principais elementos que considero imprescindíveis para uma boa fotografia: tempo e conhecimento.

Conhecimento adquirido com os pesquisadores sobre comportamento e ecologia do animal. Tempo para permanecer imóvel durante muitas horas num lugar estratégico, à espreita.

Foi assim com o pato-mergulhão, o cachorro-vinagre ou, mesmo, o urso preto nos EUA. Foi assim, inclusive, com um dos animais mais raros da Amazônia, o Olingo, um carnívoro arborícola de hábitos noturnos.

Além disso, existe um motivo, o principal de todos, que norteia não só meu trabalho nestes 25 anos de profissão, mas que é o alicerce da minha vida: antes da imagem, eu busco a experiência e mais conhecimento.

Para um fotógrafo, colocar uma câmera trap num dado lugar e esperar que esta parafernália tecnológica fotografe o animal, está relacionado apenas à obtenção da imagem. O que eu busco é algo mais sensorial, como a experiência de me aproximar do bicho, entender o limite da confiança, observar seu comportamento, aspectos de sua sobrevivência.

Foi assim com a raposa-do-campo, um animal noturno, tímido, arisco e com fantásticas estratégias de proteção da prole. Utilizam tocas de tatu como refúgio para seus filhotes e mudam de acordo de lugar a partir de eventuais ameaças que possam pressentir.

Numa das viagens que fiz para documentar a pesquisa com esta espécie, permaneci cerca de 15 dias, ou melhor, noites inteiras até o amanhecer, deitado num pasto de braquiária e carrapatos, coberto por uma pesada lona verde tentando me camuflar na frente da toca, esperando os filhotes saírem. E quando eu já estava me adaptando àquela situação, a fêmea trocou os filhotes de lugar.

Definitivamente, é um jogo de paciência. Mas presenciar, in loco, aqueles indefesos filhotes saindo do pequeno buraco escondido entre o capim, a iniciativa audaciosa das jovens raposas desvendando um mundo desconhecido, me olhando desconfiadas, com curiosidade e ousadia, ou então brincando à minha frente, trouxeram emoções e aprendizados muito além de qualquer imagem captada.

Se, porventura, eu consegui fotografar ou filmar tudo isto, é só o resultado da busca por algo maior: compreender a natureza e fazer de tudo para ajudar a conservar este mundo.

Agora, assista abaixo o vídeo que mostra o momento da observação de filhotes de raposas do campo:

Foto: Adriano Gambarini

Geólogo formado pela USP e especializado em Espeleologia, é fotógrafo e escritor desde 1992 e um dos mais ativos profissionais na documentação de projetos conservacionistas e etnográficos da atualidade. Autor de 13 livros fotográficos, dois de poesia e centenas de reportagens publicadas em revistas nacionais e estrangeiras. Ministra palestras e encontros sobre fotografia, conservação e filosofia de viagem.

Adriano Gambarini

Geólogo formado pela USP e especializado em Espeleologia, é fotógrafo e escritor desde 1992 e um dos mais ativos profissionais na documentação de projetos conservacionistas e etnográficos da atualidade. Autor de 13 livros fotográficos, dois de poesia e centenas de reportagens publicadas em revistas nacionais e estrangeiras. Ministra palestras e encontros sobre fotografia, conservação e filosofia de viagem.

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