Fora garimpo! Povos Yanomami e Ye’kwana se unem e redigem carta para denunciar risco de massacre e exigir proteção do governo

No último sábado, 23/11, indígenas se reuniram na comunidade Watoriki, na região do Demini, na Terra Indígena Yanomami (TIY), em Roraima, para realizar o Fórum de Lideranças Yanomami e Ye’kwana. Nele, debateram a proposta do governo que prevê permissão da mineração por terceiros em terras indigenas e definiram estratégias para impedir as invasões de garimpeiros em suas terras. Hoje, são cerca de 20 mil invasores.

De acordo com o Instituto Socioambiental (ISA), o Fórum foi criado durante o processo de construção do Plano de Gestão Territorial Ambiental da Terra Indígena Yanomami e, hoje, é “a principal instância de tomada de decisão do território de mais de 9 milhões de hectares — a mais extensa terra indígena do Brasil”.

O encontro reuniu 116 lideranças de 26 regiões, que representam 53 comunidades de todo esse vasto território. Também participaram sete associações da TIY: Hutukara Associação Yanomami (HAY), Associação Yanomami do Rio Cauaburis e Afluentes (AYRCA), Associação das Mulheres Yanomami – Kumirayoma (AMYK), Associação Wanasseduume Ye´kwana (SEDUUME), Associação Yanomami do Rio Marauiá e do Rio Preto (KURIKAMA), Texoli Associação Ninam do Estado de Roraima (TANER) e Hwenama Associação dos Povos Yanomami de Roraima (HAPYR).

Vale lembrar que, no inicio de novembro, garimpeiros fecharam a rodovia XXXXX por quatro dias contra operação que desmontou focos de mineração na área. E isso é consequência, certamente, das declarações irresponsáveis do presidente.

Não é de hoje a cobiça de Bolsonaro pelas terras dos Yanomami. Na exposição de Claudia Andujar (que fotografou muito os integrantes dessa etnia) montada pelo Instituto Moreira Sales – em São Paulo e no Rio de Janeiro – foi exibido um vídeo no qual, ainda deputado, ele declarava intenção de explora-las por causa do nióbio. Já eleito presidente, Bolsonaro fez inúmeras declarações de que os indigenas querem desenvolvimento – “ser como nós” – e, mais recentemente, que vai liberar as terras indígenas para a mineração com o tal projeto estapafúrdio. Um projeto de lei injusto, violento, elaborado pelo Ministério de Minas e Energia sem consultar os indigenas, como é comum em seu governo. Ao jornal Folha de São Paulo, a assessoria do ministério disse “que a proposta é ouvir os índios sobre projetos de mineração em suas terras, mas eles não terão o poder de vetar o empreendimento”. Cínicos!!! Então, pra que ouvi-los, se, na prática, o que disserem não será considerado?

Ao final do encontro, as lideranças – que representaram sete associações – redigiram uma carta abertaque pode ser lida na íntegra, neste link -, endereçada às principais autoridades do Executivo e do Judiciário brasileiro, na qual relatam os impactos do garimpo ilegal na reserva onde moram, que tem cerca de 27 mil indígenas, e rechaçam o projeto do governo, que deverá ser encaminhado em breve ao Congresso Nacional, para votação. Também posaram no centro da aldeia para o fotógrafo Victor Moriyama (que usou drone), formando, com seus corpos, o grito Fora Garimpo! (assista ao vídeo no final deste post).

Como um pedido desesperado por ajuda para combater o garimpo ilegal em suas terras,  o Fórum divulgou a carta, que já havia sido lida, em 26/11, no Congresso Nacional, por iniciativa da deputada Joênia Wapichana (Rede-RR), coordenadora da Frente Parlamentar Indígena.

“Nós não queremos garimpo em nossa terra. Nós queremos que o governo cumpra seu dever de proteger a nossa terra. Queremos que o governo tire os garimpeiros que estão na nossa terra e impeça a entrada de mais garimpeiros. Nós conhecemos nossos direitos e sabemos que o garimpo na Terra Indígena Yanomami é ilegal”.​

A carta também denuncia as consequências do garimpo ilegal: “Os garimpeiros estão envenenando as pessoas e contaminando nossos rios, nossos peixes, nossos alimentos e espantando nossa caça. Sabemos que o mercúrio usado no garimpo está contaminando nosso povo. No rio Uraricoera, mais de 90% das pessoas que foram analisadas pela Fiocruz apresentaram alto índice de contaminação. Recentemente, soubemos que mais da metade dos Yanomami de Maturacá também estão contaminados. O governo tem o dever de acabar com isso e trabalhar para cuidar da saúde dos povos Yanomami e Ye’kwana e proteger a terra-floresta“.

Violência: bebida, drogas e armas

Além desse cenário de destruição, a carta ressalta que os garimpeiros “trazem todo tipo de bebidas, drogas e doenças”, que têm “muitas armas” e são “violentos também entre eles”.

O texto também destaca que a natureza sagrada é desrespeitada pelos invasores. “Eles matam uns aos outros e enterram os corpos na beira dos rios ou os jogam nos rios. Quando os garimpeiros mexem na terra e destroem a natureza, eles estão ofendendo os seres que vivem na floresta. Esses lugares foram destruídos e ninguém mais pode usar. A natureza está se zangando, e todos nós vamos sofrer, indígenas e não-indígenas. Os garimpeiros são invasores que roubam o ouro, que tem que ficar embaixo da terra”.

Os indígenas ainda escreveram que as suas verdadeiras riquezas “são os conhecimentos tradicionais, a nossa saúde, nossos rios limpos e nossas crianças crescendo felizes. Os garimpeiros estão destruindo as nossas riquezas. O nosso trabalho não é o garimpo, o nosso trabalho é a roça, é o artesanato, temos nossas formas próprias de gerar renda a partir de nossos conhecimentos sobre a floresta. Nossos conhecimentos têm mais valor que o ouro”.

História de massacre

Na década de 80, pelo menos 20% da população Yanomami foi dizimada por doenças levadas pelos garimpeiros. Na década seguinte, a pressão internacional e ações de fiscalização realizadas por órgãos do governo e pelo Exército, acompanhadas da Funai, conseguiram conter as invasões. Mas, no final dos anos 2000, o aumento do preço do ouro, a redução da fiscalização e da proteção da Funai na TIY levou o garimpo de volta.

Com a entrada do atual governo, o cenário, que já era negativo, se agravou. Vieram as declarações irresponsáveis do presidente, que defendeu a aberturas das TI para a mineração e a regularização do garimpo dentro de áreas protegidas, legitimando as invasões. Ao mesmo tempo, as instituições que poderiam proteger os indígenas – principalmente a Funai – foram desestruturadas e dominadas pelo obscurantismo e pelo projeto desenvolvimentista de Bolsonaro.

“Nós já fizemos muitas denúncias e estamos revoltados porque ainda existe garimpo dentro das nossas comunidades. Queremos ação! Nossos avós e tios morreram por causa dos garimpeiros. Nós não queremos repetir essa história de massacre“, afirma o manifesto das lideranças Yanomami.

O vídeo abaixo é um lindo manifesto oral pela vida no território Yanomami. Ouça e compartilhe!

Fonte: Instituto Socioambiental

Fotos: Victor Moriyama

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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