Fogo na bexiga


O vento passa sobre a nuvem disforme e vai formando imagens da vida dissipada em bondades e maldades. Vai condensando aspectos. Vai diluindo espectros. Vai chovendo atitude. Ácida. Ou, assim, de um jeito mais básico. Básico como sentar ao sabor do nada, com chapéu para aquecer as ideias e não deixar que fujam pelas madeixas.

Se você não vê isso, me deixa! Vê isso ou não no meio do monte de riscos horizontais, chegando lateralmente como…  Tá bom, se não é o vento é uma chuva paralela ao chão, atingindo, assim, de soslaio direto o pescoço do homem. Viu, agora? Tenta de novo. Ou me deixa mesmo aqui, feliz de ter pirado com as obras do coletivo australiano Si ma va (Simon Massey di Vallazza).

Me deixa explodir em reza para qualquer santo não catalogado. Estou em busca de loucura nesse mundo são, tão sem sensação, tão sem solidariedade, tão em busca de matéria consolidada e estanque. Sem maleabilidade, fluidez e naturalidade. Me deixa adorar a bexiga. Essa que aceita o chamado da chama da vela e se rende ao estouro primordial, que me faz sentir assim tão banal.

Me deixa adorar qualquer bexiga que precise de alívio. Essa que realiza o milagre da transformação do nutriente líquido em substância digna de ser excretada. Essa que não saberá o que fazer se receber água de chuva poluída e ácida, digna de não ser tomada, que pena, num raro banho de chuva…

Quero adorar a cesta que recebe bola, bexiga, frutas, pães. Quero declarar minha vitória, ainda que a comemoração seja rápida e quase imperceptível. Ainda que só seja considerada vitória por mim. Que só eu veja valor. Sem precisar provar nada para a arquibancada parada e dormente. Quero comemorar a laranja tirada direto do pé da árvore e não da gôndola do supermercado. Aquelas que antes de chegar a mim foram arrancadas verdadeiramente verdes e permaneceram tempos nas imensas geladeiras.

Que se desliguem todas elas! Que não haja mais buraco em interruptor nenhum! Deixa-me na penumbra, à luz das minhas velhas velas. Não ilumine meu caminho rumo ao meu mar de possibilidades com a tela do celular.  E quando a vela apagar, me deixa ao sabor da luz da lua cheia. E se não houver lua cheia, me deixa aqui esperando o raiar do dia. E se não houver sol, me deixa, esperando o verão.

Ou me dá um dragão com poderes mágicos e hálito de fogo que desintegre o pior.  Um ser que sustente o mundo. Controle os fenômenos climáticos. Que queime o estático e apático mundo das prioridades antinaturais que provocam esses desastres tão cabeludos.

 

Fotos: divulgação Si ma va

Se tiver arte, tá tudo bem. E se puder usá-la como gancho para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além de repórter, foi produtora, editora e editora-chefe. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado. Mas, sem dúvida, prefere os simpósios, palestras e cursos livres de arte que vive respirando por aí. Isso quando não está em alguma exposição, espetáculo ou fazendo docinhos indianos para resgatar as origens

Karen Monteiro

Se tiver arte, tá tudo bem. E se puder usá-la como gancho para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além de repórter, foi produtora, editora e editora-chefe. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado. Mas, sem dúvida, prefere os simpósios, palestras e cursos livres de arte que vive respirando por aí. Isso quando não está em alguma exposição, espetáculo ou fazendo docinhos indianos para resgatar as origens

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