Documentário sobre as ocupações das escolas em SP ganha prêmios de direitos humanos e da paz em Berlim

Num momento tão conturbado para a democraciae para os direitos humanoscomo este que vivemos, sob o governo de Jair Bolsonaro, estes prêmios são um alento. Mas também por reconhecerem a mobilização corajosade estudantes secundaristaspaulistanos, em 2015, contra decisão arbitrária do governo do Estado, sob a gestão de Geraldo Alckmin, que transferia alunos e fechava unidades sem qualquer consulta à população.

Idealizado e realizado para defender a educação igualitária, o filme Espero tua (re)volta, da diretora Eliza Capai (que também dirigiu O Jabuti e Anta), foi exibido na Berlinale – Festival Internacional de Cinema de Berlim, e duplamente premiado: recebeu o Prêmio da Anistia Internacional(que reconhece a defesa de temas relacionados aos direitos humanos) e o Prêmio da Paz, da Fundação Heinrich Böll. O primeiro, reconhece a melhor abordagem para temas relacionados a direitos humanos. O segundo, a produção cinematográfica que mais se destaca pela mensagem de paz e habilidade em sua execução estética. Bem-vindos, merecidos e necessários.

O longa narra as lutas estudantis a partir do ponto de vista de três jovens – Marcelo Koka, Marcela Jesus e Nayara Souza – que, na época das mobilizações, eram secundaristas e participaram das ocupações, se destacando como líderes em algumas situações. Eles relembram as mobilizações que começaram em 2013, passando pelo processo de impeachment de Dilma Roussef, em 2016, e chegando à vitória de Bolsonaro, em 2018. Assim, revelam experiências e olhares diversos para o mesmo objetivo – a luta por um ensino de qualidade e igualitário e uma cidade mais inclusiva -, destacando conflitos do movimento e sua complexidade.

O filme de Capai revela, também, que o ativismo pelos “direitos de todos” rendeu importantes conquistas individuais. Nas ocupações, a convivência levou-os a debater temas como feminismo – o protagonismo das meninas foi uma das marcas registradas desse movimento estudantil -, LGBTs e antirracismo, e isso os levou a transformar suas relações e suas formas de se ver, viver e se apresentar no mundo.  

Pra contar essa história, além da produção de material inédito, Capai também usou reportagens publicadas nesse período e também imagens de arquivo das marchas e ocupações, que enfatizam não só a coragem dos jovens, mas a truculência policial e de representantes do Estado.

Só pra lembrar: o saldo das ocupações foi lindo. A experiência de se munir de coragem para enfrentar o poder – que se mostrou truculento em diversos momentos -, a prática da colaboração, o apoio das famílias, noites sem dormir e, o mais importante, a desistência do governo em prosseguir com sua decisão. Ótimo exemplo para lembrarmos quando sentirmos medo. Nem sempre o mais fraco perde.

Importância social
“Quando soubemos que fomos selecionados para o Festival de Berlim, já consideramos a participação como o nosso grande prêmio”, contou a diretora. “E saber, em seguida, que ganhamos os prêmios da Anistia Internacional e da Paz, nos honrou e deu um alívio muito grande. Entendemos que um filme local, que se passa em São Paulo, consegue comunicar temas importantes para fora do nosso mundo. Os prêmios são como um selo da importância social  que esse filme tem”.


Agora, assista ao trailer de Espero Tua (Re)volta:

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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