Olhos para liberdade

performance no Festival de Curitiba 2018

Apesar do raro e pequeno atraso, a vontade que não passa de ser e estar plateia, na rua, na chuva ou no teatro possibilitou assistir a uma peça-passeio que fiquei sabendo em cima da hora.

Quando cheguei, a Praça de Bolso do Ciclista já era palco de uma pequena aglomeração, saindo em direção a outras paragens. Quis saber se a performance itinerante de Cadu Cinelli era só para ciclista assistir ou caminhante também poderia acompanhar. Um ciclista simpático disse, primeiro, que iriam mais devagar, então. Logo, em seguida, um outro teve uma ideia melhor. Ofereceu a garupa. E depois, desapegadamente, ofereceu a própria bicicleta, dizendo que eu não me preocupasse porque ele poderia conseguir outra ali na frente, na Bicicletaria Cultural. Hesitei. Fazia um bom tempo que não pedalava. Experimentei o banco um tanto alto para mim. E resolvi ir mesmo assim. Atrasei uma parte do pessoal. Um ciclista preocupado se ofereceu para levar minha bolsa num porta-objetos amarrado à bicicleta. Fiquei sem saber o que fazer para agradecer.

Chegamos à Praça Santos Andrade, no centro de Curitiba, e o pessoal já rodava em volta do chafariz. Tive a impressão de que rodaram bastante para dar tempo de todos chegarem. O casal de mãos dadas – ele carregando minha bolsa – atraiu não só a atração do fotógrafo que registrava a encenação ao ar livre…  Rodando, meio tonta ainda com o início da minha experiência, ia pensando o quanto a noite em cima de uma bicicleta pode ser pacificadora de atitudes, de almas.

E, pode ser também, momento de reflexão e crítica. Enquanto passávamos na frente do Teatro Guaíra, ouvíamos a pergunta “Festival para quem?” Com o ingresso das peças da mostra principal do famoso Festival de Curitiba a 70 reais, a reclamação é que o evento não é tão democrático assim.

Os ingressos mais baratos do Fringe, espetáculos gratuitos ou “pague quanto vale”, em geral, acabam atraindo um público mais ligado à área cultural. São as peças da mostra principal que a maioria poderia querer ver. Aliás, falando em mostras paralelas, dentro do Festival, ouvi a opinião de uma amiga, jornalista cultural, que achei interessante. Ela acha que deveriam acontecer em outro período do ano, já que não dá tempo de assistir tudo ao mesmo tempo agora…

Bem queríamos. O meu amigo ciclista, Gilson Pytlowanciv, pensou em aceitar meu convite para ver outra peça no Teatro Guaíra, mas, como nesta cidade é difícil achar estacionamento para bicicleta, foi para casa mesmo.

E  num outro Plá com ele, o nosso artista que espalha poesia pela cidade e se uniu a nós no meio do passeio, nos lembrávamos do dinheiro dos ingressos que fica todo para o festival. Não tem porcentagem para os artistas. Eles recebem um valor fechado. Haja estômago e escudo para engolir as regras de participação.

Durante a Pedal performance iam sendo contadas histórias semificcionais.

Histórias do menino que tinha olhos cor de árvore. Que bom se nossos olhos da cor do mar, do céu, do sol passassem por uma mágica alquímica que os tornassem um pouco natureza, que nos fizesse sentir realmente parte dela, um pouco guardiões dessa que é nossa fonte de vida e de salvação.

Próximos da estação tubo do Passeio Público, famosa pelos roubos e assaltos que acontecem por ali, consegui me sentir segura uma vez na vida. Cercada de bicicletas, ouvi o ator e suas antenas tentando se comunicar com os passageiros dentro da estação.

Blindados, não ouviam. Estavam entubados, imersos. Estavam nesse tubo de ensaio em que se permanece para experimentação, passando calor, frio, esperando ônibus cada vez mais demorados, graças à implantação de um tal de Ligeirão que só beneficia um lado da cidade, já que o prefeito tirou o ônibus de uma linha para colocar em outra. Só que essa outra para na metade.

Dizem que, quando estivermos mais próximos das eleições, o prefeito vai completar o projeto e estender até o bairro Pinheirinho e, aí, a população vai poder viajar bem tranquila, em pé, no ônibus lotado, sem precisar trocar de linha para chegar em casa, tendo que enfrentar estações também cheias a qualquer hora do dia.

É esse o espetáculo oferecido ao passageiro: juntamente com o preço abusivo e a insegurança que também são os protagonistas, enquanto o direito da população permanece no papel secundário, perdido entre os percursos na cidade, no estado, no país.

Este país, aliás, em que boa parte do povo, preciso dizer, esqueceu o que é ditadura ou nem sabe o que é isso. A performance “Fascismo” que o grupo Desvio Coletivo fez em Curitiba fala dessa cegueira perigosa e triste. Fala do ódio que derrama sangue e dor neste país em que desigualdade e fome não são motivos suficientes para unir as pessoas.


FESTIVAL DE CURITIBA 2018

Data: até 08 Abril de 2018
Atrações e programações neste link 


Fotos da performance para os ciclistas “Percursos Afetivos”: Doug Oliveira

Com arte, tá tudo bem. Se as exposições, peças de teatro, shows, filmes, livros servirem de gancho  para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, cronista, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além de repórter, foi produtora, editora e editora-chefe. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado. Seu mais recente projeto é o seu site pessoal

Karen Monteiro

Com arte, tá tudo bem. Se as exposições, peças de teatro, shows, filmes, livros servirem de gancho  para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, cronista, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além de repórter, foi produtora, editora e editora-chefe. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado. Seu mais recente projeto é o seu site pessoal

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