Festival de Cabanas: aprendizados de um encontro entre famílias na praça, num domingo chuvoso

O domingo amanheceu chuvoso e cinzento. Por um momento, pensamos em cancelar o evento que o programa Criança e Natureza havia programado para o segundo semestre de 2017, numa parceria entre os Grupos Natureza em Família e o Movimento Boa Praça. Mas decidimos mantê-lo, afinal a chuva não era torrencial e muita gente tinha manifestado interesse pelas redes sociais.

Esse foi nosso primeiro aprendizado: a não ser que a chuva esteja realmente forte, mantenha o combinado. Afinal, as crianças precisam passar algumas horas ao ar livre todo dia e, em boa companhia, mesmo uma chuvinha pode ser divertida. Além disso, a chuva traz novas possibilidades de brincadeira e a gente sempre pode vestir bota e capa de chuva!

Nosso segundo aprendizado foi o de que sugerir um tema que norteasse o encontro poderia ser muito convidativo e empolgante. Foi muito legal acompanhar o interesse das pessoas pelo evento, em comparação com outro encontro que realizamos no primeiro semestre, onde a proposta era apenas um piquenique. Muito mais gente se envolveu, convidou amigos, divulgou, compartilhou. E muito mais gente foi brincar também.

Pudemos confirmar uma hipótese: sempre acreditamos que devemos manter o encontro no clima mais espontâneo e simples possível, porque nossa intenção é mostrar que não é necessário ter mil oficinas, brinquedos superatraentes e muito “entretenimento” para que as crianças se divirtam num programa de domingo.

Nós levamos um pouco de bambu cortado, diversos materiais para amarração e alguns tecidos e folhas de bananeira. Ponto. Até planejamos uma oficina de nós, mas ela não foi realizada porque sentimos que não fazia sentido quebrar a espontaneidade de cada pessoa ou família presente. O que tornou o encontro rico e bonito, além de divertido, foram outros aspectos. Aqui comentamos alguns deles:

  • Algumas crianças já conheciam muito bem aquela praça. Para essas crianças, aquele espaço, que muitos à primeira vista considerariam feio e mal cuidado, é seu território afetivo. Elas o frequentam há anos, conhecem cada detalhe, cada árvore, cada cantinho. De alguma forma, essa territorialidade contagia as outras crianças que também se sentem motivadas a entrar nas brincadeiras e na exploração ativa do espaço.
  • Houve encontros entre amigos. Amigos que não se veem sempre, amigos que se encontram na escola, amigos que se conheceram ali, amigos de diferentes idades. De uma forma ou de outra, o fato de encontrar um par, um companheiro de alegria, ou vários, é muito engajador. Brincar com crianças de idades diferentes é uma oportunidade rara e enriquece muito o repertório das relações.
  • Os adultos brincaram junto. Um pouquinho aqui, um montão ali. Ajudaram as crianças a selecionar os melhores bambus, quebraram a cabeça para pensar em como amarrá-los, como fechar o lado de uma cabana, como deixá-la mais estável. Atentos, deixaram as crianças elegerem e dirigirem seu próprio percurso, ao mesmo tempo em que eles mesmos se envolveram nas atividades de seu interesse, contribuindo para a naturalidade do fluxo do encontro.
  • A escolha do tema foi muito feliz. Vale a pena pensar com cuidado ao propor um tema, ou uma atividade, para que combine com o que as crianças realmente gostam de fazer: explorar, trabalhar com as mãos, construir, subir, escalar, pendurar-se, investigar, relacionar-se com o mundo natural. Para nós, o tema das cabanas era muito especial e achávamos que fazia sentido propor que as crianças pudessem dar vazão a essa vontade tão intensa de construir espaços privados, especialmente ao ar livre. Já escrevemos mais sobre o papel dos refúgios e esconderijos na infância aqui, no Conexão Planeta. Esse foi o espírito do Festival: trazer um pouco da aventura da floresta para a cidade.

O tempo estava fechado e ventava bastante. Poderíamos ter ficado em casa o dia todo administrando a pulsão expansiva inerente às crianças, mas escolhemos ir para a praça encontrar amigos e construir cabanas. Brincamos, nos relacionamos e assistimos de camarote uma das expressões mais genuínas da infância: as mãos como instrumentos de invenção e as crianças entrando em contato com materiais diversos para realizar suas ideias.

Pode parecer difícil ou complicado organizar um encontro como o Festival de Cabanas, mas não é! Esperamos que o relato acima o instigue a organizar seus próprios festivais, piqueniques e Grupos Natureza em Família na praça ou parque que você e as crianças de sua vida mais gostam.

Para mais dicas e sugestões acesse o passo a passo para montar um Grupo Natureza em Família e o Manual Como Ser Um Boa Praça. Se não souber onde ir, acesse o GPS da Natureza. E lembre-se de compartilhar sua experiência com a gente: escreva nos comentários. Vamos fazer este movimento crescer!

Foto: Alessandra Liberman

Mãe da Raquel e do Beni, Engenharia Florestal e Mestre em Conservação de Ecossistemas, sempre trabalhou com educação e conservação da natureza. Desde 2015 é pesquisadora do programa Criança e Natureza do Alana.

Maria Isabel Amando de Barros

Mãe da Raquel e do Beni, Engenharia Florestal e Mestre em Conservação de Ecossistemas, sempre trabalhou com educação e conservação da natureza. Desde 2015 é pesquisadora do programa Criança e Natureza do Alana.

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