Farmacopeia Popular do Cerrado e farmacinhas comunitárias

Um sistema de registro de conhecimentos tradicionais associados à biodiversidade, adotado por comunidades locais e povos indígenas. Esse é o conteúdo da Farmacopeia Popular do Cerrado, obra consolidada com a intenção de dar visibilidade, proteger e promover o uso de plantas medicinais por raizeiras e raizeiros.

A partir de uma pesquisa de campo que durou de 2001 a 2005, realizada nos estados de Minas Gerais, Goiás, Tocantins e Maranhão, surgiu esse livro – publicado em 2009 e disponível em PDF -, com a autoria de 262 raizeiras, raizeiros e representantes das chamadas farmacinhas comunitárias. A Farmacopeia é uma referência teórica para a indicação segura de remédios caseiros no dia a dia das comunidades locais e indígenas, dentro de um projeto político de auto regulação da medicina tradicional.

O livro traz nove monografias populares sobre plantas medicinais, que incluem elementos de identificação, descrição dos ambientes de ocorrência e relações ecológicas, características da parte usada da planta, técnicas de manejo sustentável para coleta, indicação popular de seu uso medicinal, formas de uso e toxidade.

medicina popular é um sistema de cura usado para tratamento de diversos males. Sua prática é baseada no conhecimento tradicional, transmitido de geração em geração, e no uso de recursos como remédios caseiros, dietas alimentares, banhos, aplicações de argila, benzimentos, orações, aconselhamentos, entre outros. É exercida no cuidado com a família, principalmente por mulheres, e em forma de atendimentos de saúde nas comunidades. Esse atendimento, feito por organizações comunitárias, é realizado em espaços próprios, onde são preparados remédios caseiros – preparações que utilizam plantas medicinais ou substâncias derivadas de animais, além de insumos como cachaça, óleo, vinho e rapadura.

Esses locais de preparação de remédios caseiros são denominados pelos grupos comunitários da Articulação Pacari da qual falei no último post, aqui no blog – como farmácia, ou farmacinha comunitária. Possuem endereço próprio, são abertos ao público e têm estrutura básica de funcionamento. Produzem remédios em forma de garrafada, tintura, xarope, vinagre medicinal, pomada, creme, sabonete, pílula, bala medicinal ou pastilha, doce ou geleia medicinal, óleo, pó, chá e multimistura. São dezenas de remédios diferentes, com o uso de cerca de 70 espécies de plantas medicinais.  E o trabalho dos grupos comunitários é conhecido pela eficácia do tratamento e pelo exercício de uma prática de saúde confiável e solidária. Os remédios são vendidos a baixo custo ou doados a quem não pode pagar por eles.

Apesar de toda a importância do trabalho, os grupos sempre expressam preocupação em prestar um serviço informal de saúde, sem o reconhecimento por políticas públicas e sem atender a exigências da vigilância sanitária. Nesse sentido, a Articulação Pacari vem buscando fortalecer a ação desses grupos por meio de qualificações em cursos de boas práticas populares de uso e manejo de plantas medicinais do Cerrado. Os resultados incluem a elaboração de critérios de controle de qualidade para a preparação dos remédios nas farmacinhas comunitárias.

A medicina popular do Cerrado e toda sua riqueza têm origem numa realidade social de pobreza, e se destaca pelos serviços básicos de saúde oferecidos às comunidades. As pessoas envolvidas nesse tipo de trabalho guardam e transmitem a cultura popular do uso sustentável dos recursos naturais. E o trabalho desses grupos comunitários é pouco visível no país.

É preciso um reconhecimento da medicina popular por meio de uma política pública específica. Questões relacionadas ao tema estão dispersas em várias políticas públicas e programas de governo, que não se articulam e demandam grandes esforço dessas comunidades para conhecerem seus conteúdos.  É preciso avançar nisso, e a Articulação Pacari vem trabalhando nesse sentido, como já comentei no post anterior.

Afinal, já dizem os raizeiros e raizeiras mineiros na Farmacopeia: “O Cerrado tem nossa medicina completa”.

Fotos: Divulgação/Articulação Pacari

Mônica Ribeiro

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colabora com a revista Página 22, da FGV-SP e com a Plataforma Parceiros Pela Amazônia, e atua nas áreas de meio ambiente, investimento social privado, economia solidária e negócios de impacto, linkando projetos e pessoas na comunicação para um mundo melhor

2 comentários em “Farmacopeia Popular do Cerrado e farmacinhas comunitárias

  • 5 de abril de 2017 em 12:02 PM
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    Querida Mônica Ribeiro, sua postagem é simplesmente maravilhosa! Muitíssimo obrigado! Que seja bem lida e divulgada, material de primeira que deve ser replicado Brasil afora. Abração!

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    • 5 de abril de 2017 em 3:39 PM
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      Obrigada pela leitura. Eu sou muito fã desse trabalho da Articulação Pacari. Vida longa ao conhecimento tradicional!

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