Fantasias lindas com penas e plumas, mas à custa do sofrimento animal?

Fantasias lindas com penas e plumas, mas à custa do sofrimento animal?

O carnaval acabou, pelo menos, oficialmente no calendário. Mas já passou da hora de falarmos sobre algo que vem incomodando muita gente. Até quando penas e plumas naturais serão utilizadas na confecção de fantasias?

Por causa de nosso carnaval, o Brasil é um dos maiores importadores mundiais desses produtos, que vêm, sobretudo, da África do Sul, China e Índia. Nesses lugares, as aves são criadas especificamente para esta finalidade. Gansos, pavões, patos, avestruzes e faisões são os animais que “fornecem” suas plumas e penas para esse mercado.

Crueldade e sofrimento totalmente desnecessários. Já existem alternativas similares – mineral, vegetal ou sintéticas -, que substituem os produtos de origem animal.

Estima-se que 25 toneladas de plumas sejam usadas por ano, para atender a demanda do carnaval do Rio de Janeiro e de São Paulo. Vendidas por quilo, dependendo da qualidade, seu valor pode variar entre R$ 160 e R$1,2 mil.

A atriz Juliana Paes, que desfilou como rainha da bateria da escola carioca Grande Rio, foi envolvida em uma polêmica sobre o assunto. A organização Ampara Silvestre hcriticou, em suas redes sociais, sua fantasia e de outras celebridades:

Na escola de samba Grande Rio tivemos a Juliana Paes, com uma fantasia que deveria homenagear a quase extinta Ave do Paraíso e tinha partes do corpo da ave raríssima importadas da Indonésia em seu adorno de cabeça. A Império da Casa Verde, no destaque, exibiu Magda Moraes na fantasia de Malévola, feita com quatro mil penas de faisão, o que custou o preço de um carro popular. E a nova moda do carnaval, Renatta Teruel, musa da Unidos de Padre Miguel, desfila com look crina de cavalo na Sapucaí. Não bastava explorar as aves, agora estenderam para os cavalos… Falta de empatia, ignorância, uma errada noção de luxo e compaixão com os nossos queridos animais”.

Em resposta à acusação, Juliana afirmou que a fantasia foi feita com material reciclado. “Uma réplica da ave do paraíso com materiais reformados que entrariam em descarte não fosse a recuperação. E todas as penas foram recicladas de acervos de anos anteriores e reutilizadas com nova coloração. Um trabalho de preservação de material já existente não pode ser confundido com exploração animal”.

Ainda segundo a atriz, ela é uma defensora dos animais e do meio ambiente. “Quem me conhece sabe do meu amor pela natureza. Sabe como eu vibro com cada botão de flor em meu jardim, cada bicho… Quem me conhece sabe que eu jamais machucaria um animal ou seria conivente com sua caça!”

Infelizmente, sabe-se que a retirada de penas e plumas de aves envolve muito sofrimento. E quem assiste aos desfiles fica na dúvida com que tipo de material as fantasias foram confeccionadas. Não seria a hora então dos carnavalescos e das escolas de samba deixarem claro para o público se usam ou não penas e plumas naturais ou artificiais?

Foi o que fez, por exemplo, a paulistana Águia de Ouro, em 2017, quando anunciou que se comprometeria a não mais usar penas ou plumas verdadeiras, de origem animal.

Em 2016, um abaixo-assinado no site Change.org conseguiu mais de 300 mil assinaturas, de pessoas que pediam o comprometimento das Ligas das Escolas de Samba a “substitur as penas naturais pelas sintéticas, sem dor e sem exploração, para um carnaval mais ético, mais justo e mais alegre”.

Levar para a avenida questões importantes como a preservação ambiental, mas nos bastidores financiar a tortura de animais é, no mínimo, hipocrisia.

É hora de outras escolas seguirem o exemplo da Águia de Ouro e usarem a sinceridade e a transparência: dessa maneira, o espetáculo do samba será ainda mais bonito!

Plumas e penas: naturais ou artificiais?
Uma dúvida que incomoda muita gente

Foto: reprodução Facebook Juliana Paes

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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