Fandango no carpete. Não faltava mais nada

Que gente teimosa, heim? Ganharam uma mostra de Arte Popular e ainda assim estão reclamando. Dança aí o fandango no carpete e não faz muito barulho com esses tamancos para não acordar os representantes oficiais da entorpecência desastrosa que neglicencia a cultura.

Ops. Desculpa. Desculpa a falta de cuidado, de interesse, de conhecimento. Nem sei se o pessoal do fandango que participou da Mostra de Arte Popular, em Curitiba, ouviu algo desse tipo por parte do governo do estado. Mas, seria o mínimo.

Mais fácil ouvir algo do tipo: “Para de bater esses pés. Não se cansa de pedir as mesmas coisas há 40 anos, Dona Mide? Casa do Fandango, eu heim?  A senhora acha que tem dinheiro para isso?

“Acho. Ué… Não pensaram numa possível casa para homenagear o meu irmão Lápis? Então, dinheiro tem”.

Quanta generosidade, dona Mide. Abrir mão da casa de um só, em prol dos muitos fandangueiros. E só casa não adianta, né ô seus caiçaras da Mandicuera, Aorélio Domigues, ou do Fandanguará, Leandro Diéguiz? Tem que ter é estrutura, não é mesmo?

Estrutura para os mestres do fandango que usam suas casas na hora de ensinar os toques para a nova geração, para o pessoal que corre atrás de tablado de madeira para poder dançar. O pessoal dessas comunidades tradicionais litorâneas precisa de madeira para produzir seus instrumentos e tocar no baile. Precisa sair para pescar e não se debater com leis ambientais que não diferenciam grandes extratores e pesqueiros dos que usam a natureza para subsistência.

Essas comunidades que sabem tratar mar e floresta com cuidado e se organizam para ser sustentáveis, ainda assim, são mais penalizadas do que os que realmente produzem insustentalidade.

Têm razão, as comunidades, de se indignar com isso e com muito mais… Precisam e muito reclamar de contratação milionária de cantor pop. Estão cansados de ouvir o argumento de que para eles, ah, aí falta dinheiro. Esse ano o pessoal da Congada Ferreira da Lapa se apresentou somente uma vez. Foi  agora na Mostra de Arte Popular.

Dizem que o atual prefeito da Lapa não quer saber muito deles. Uma manifestação popular que vai completar 200 anos daqui a dois anos, sendo simplesmente escanteada. Ficaram 17 anos desmobilizados, sem se apresentar. Em 2004, tiveram incentivo e conseguiram se organizar. Como continuar se quase nunca são ouvidos?

A Congada é mantida pelo embaixador Ney Manoel Ferreira e por seu irmão, o Rei Miguel Ferreira. Realizada em homenagem a São Benedito, a apresentação tem verso, música, dança e teatro. Conta a história de um mal entendido entre o Rei do Congo e o embaixador que representa a Rainha da Ginga, de Angola.

Como eles, Congadas em todo Brasil tentam se manter a duras penas.

Assim também os grupos de Folias de Reis, como os Mensageiros da Paz. Só sobraram dois no Norte do Paraná. Eles precisam mais do que um evento para falar das suas necessidades.

Os grupos precisam de visibilidade, como diz a Dona Mide. Precisam que mais gente os conheça. Precisam ser valorizados e tratados, sim, como artista pop. Precisam de palco, luz, camarim dignos.

Acho muito triste que os órgãos oficiais deem mais valor a Luans Santanas porque acreditam que a população só queira mesmo ver Luans Santanas. Se isso acontece é porque o público não tem a oportunidade de conhecer manifestações populares. Porque não receberam na escola nenhuma indicação da importância dessa cultura.

O evento de Mostra de Arte Popular, que aconteceu em Curitiba nos últimos dias 1 e 2, teve um mínimo de gente. Uma amiga diz que viu um cartaz no ponto de ônibus e achou que fosse um concurso para grupos de arte popular e não apresentações, palestras abertas e gratuitas.  Comunicação que não surtiu efeito. Parece coisa feita só para constar.

No primeiro dia do evento, vieram alunos. A abertura oficial atrasou meia hora. Um blá-blá-blá chato do secretário estadual de cultura que em nada interessou aos adolescentes e que poderia muito bem ter sido substituído pela apresentação do grupo Fandanguará, o que daria mais tempo para a plateia apreciar a música e a dança.

Os alunos tiveram que sair no meio da apresentação, já que o ônibus esperava para levá-los de volta para escola. A pesquisadora e cineasta Lia Marchi, uma defensora das manifestações tradicionais populares, cedeu seu lugar de fala e praticamente empurrou o Fandanguará para o palco. Se não fosse isso, os alunos, provavelmente, nem teriam acompanhado a apresentação.

E sabe quantos dos, sei lá, quarenta, cinquenta alunos que estavam no auditório já tinham visto fandango na vida? Dois. Só dois. Como é que se gosta do que não se conhece? E porque só se conhece as mesmas coisas? Bombardeio da mídia, bombardeio da tradição e das organizações populares. Em silêncio. Sem batida de tamanco, reverberando no tablado de madeira.

E uma festa da tradição pode ser tão linda… Para lembrar do Encontro de Tradições, em Antonina, litoral do Paraná, em abril do ano passado, as belas fotos do Daniel Castellano.

Cortejo final

Tiixipás


Rei Mago da Folia de Reis Mensageiros da Paz

Congada Ferreira da Lapa

Índios Fulni-ô

Cortejo Final

 

*Links legais de cultura popular no Paraná. Quem for lembrando de mais links legais por aí e quiser me enviar para incluir aqui…

ENCONTRO DE TRADIÇÕES
OLARIA CULTURAL 
CAMPANHA COLABORATIVA
LILIANA PORTO
MANDICUERA

Se tiver arte, tá tudo bem. E se puder usá-la como gancho para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além de repórter, foi produtora, editora e editora-chefe. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado. Mas, sem dúvida, prefere os simpósios, palestras e cursos livres de arte que vive respirando por aí. Isso quando não está em alguma exposição, espetáculo ou fazendo docinhos indianos para resgatar as origens

Karen Monteiro

Se tiver arte, tá tudo bem. E se puder usá-la como gancho para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além de repórter, foi produtora, editora e editora-chefe. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado. Mas, sem dúvida, prefere os simpósios, palestras e cursos livres de arte que vive respirando por aí. Isso quando não está em alguma exposição, espetáculo ou fazendo docinhos indianos para resgatar as origens

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