Falta de saneamento e degradação ambiental de mananciais ameaçam qualidade e segurança da água no Rio de Janeiro

Falta de saneamento e degradação ambiental de mananciais ameaça qualidade e segurança da água no Rio de Janeiro

Há duas semanas que quando os moradores de diversos bairros da região metropolitana do Rio de Janeiro abrem suas torneiras se deparam com uma água com cheiro e gosto de terra, quando não turva, de coloração marrom.

Foi apenas após reclamações da população, que a Companhia Estadual de Águas e Esgotos (Cedae) decidiu analisar a qualidade da água do Sistema Guandu, que abaste 9 milhões de pessoas. Segundo a empresa, testes detectaram a presença de uma substância chamada geosmina, que “não faz mal a saúde, mas deixa a água com gosto e cheiro semelhante ao de terra”, e seus técnicos garantiram que ela está própria para o consumo.

Mas quem quer beber água com gosto de terra? Ou fazer a comida para os seus filhos com ela? O resultado é que a população, que já paga mensalmente para ter em sua casa água potável, está gastando dinheiro extra pela mineral, que sumiu das prateleiras do supermercado, e quando é encontrada, tem preços abusivos.

A geosmina é produzida por algas, que se proliferam de maneira sem controle, sobretudo nos meses de verão, como conseqüência da degradação progressiva dos recursos hídricos, seja pelo despejo de esgoto doméstico sem tratamento nos rios, córregos e represas, seja pela ocupação ilegal, que leva ao lançamento clandestino de efluentes e lixo nos mananciais.

Para resolver o problema, a Cedae informou que aplicará carvão ativado pulverizado no início do tratamento da água. A companhia garante que o produto irá conter a geosmina. “Para evitar o problema no futuro, a atual gestão vai implantar de forma permanente a possibilidade de aplicação do carvão ativado”, afirmou a empresa em suas redes sociais.

Depois de duras críticas recebidas pela administração (ou falta de) perante a crise, hoje o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, anunciou o afastamento do cargo do diretor de saneamento e grande operação da Cedae, Marcos Chimelli.

Ameaça real à segurança hídrica

A exoneração de um funcionário não resolverá o problema maior. A Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) divulgou uma nota técnica sobre os problemas com a água.

No documento, um grupo de docentes envolvidos em assuntos relacionados à ecologia aquática, recursos hídricos, saneamento e saúde pública, faz um importante alerta: se não for feita a recuperação dos recursos hídricos no estado – cuidado e despoluição de seus rios, lagos e córregos -, e investimentos em medidas de longo e curto prazos, existe uma eminente ameaça da recorrência de crises semelhantes num futuro próximo.

Abaixo, seguem as constatações e recomendações feitas pelos especialistas:

1. Há uma evidente degradação ambiental nos mananciais que são utilizados para abastecimento público da Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Essa degradação compromete a qualidade da água, dificulta seu tratamento e pode colocar em risco a saúde pública.

2. A companhia de saneamento é responsável pelo controle da qualidade da água tratada, respeitando as resoluções legais. A vigilância da qualidade da água é de responsabilidade do setor da Saúde (Ministério da Saúde, Secretarias Estaduais e Municipais da Saúde), que deve garantir a segurança e qualidade da água a ser distribuída para a população.

3. A população não deve ser responsabilizada para identificar se a água está ou não adequada ao consumo. Além disso, sem que haja identificação e esclarecimento de uma eventual contaminação, a população também não poderá ser induzida a consumir água mineral ou de qualquer outra fonte. Não atender a essas considerações propicia um cenário que piora a segurança da água, além de ser socialmente injusto, pois impõe um gasto extra para o consumidor que deveria ser atendido de forma adequada pela rede de distribuição.

4. A falta de informações claras e precisas também configura um cenário de insegurança. É necessário que haja transparência imediata da real situação da qualidade da água distribuída para consumo pela população do Rio de Janeiro e que os setores responsáveis pelo controle e vigilância da qualidade atuem de forma coordenada, cooperativa e rápida para garantir água segura e de qualidade, conforme determina a legislação.

5. Enquanto a recuperação adequada dos recursos hídricos utilizados para abastecimento público não for realizada, a perspectiva de recorrência de crises semelhantes num futuro próximo é bastante provável. Sendo assim, os investimentos necessários para essa recuperação não podem ser adiados e devem ser considerados prioritários e estratégicos.

Quase 50% da população do Brasil não tem esgoto tratato

Em 2014, o mesmo problema, de proliferação da geosmina, aconteceu no sistema Alto Tietê, que serve 2,7 milhões de moradores da zona leste da capital de São Paulo e de cidades da região metropolitana. Na época, a companhia paulista também começou a usar carvão ativado em pó no tratamento da água.

Ou seja, esse é um problema recorrente nas grande capitais do país e a lição nunca é aprendida.

Conforme dados do Instituto Trata Brasil, estamos em 2020 e quase 100 milhões de brasileiros ainda não têm acesso à coleta de esgoto – isso representa aproximadamente 48% da população do país. Um absurdo completo!

“O Brasil exporta tecnologia agrícola e não consegue ainda entregar esgoto tratado”, afirmou Édison Carlos, presidente executivo do Trata Brasil, a senadores em Brasília, no ano passado.

Ainda de acordo com o instituto, mais de 1,5 milhão de piscinas olímpicas de esgoto foram lançadas ao meio ambiente no Brasil em 2019.

“Falamos de incêndio nas florestas, de agrotóxicos, de vários impactos ambientais. Não há nenhum impacto ambiental hoje maior do que o lançamento de esgoto. E é um assunto que a gente ainda não consegue dar velocidade necessária para solucionar”, critica.

*Com informações do jornal Folha de S. Paulo e do Senado Notícias

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Foto: pixabay/creative commons

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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