F.O.D.A.


Os passos procuram caber em cada pedaço de secura rachada. E no próximo. Assim se vai. A vida vai. E dá muita volta debaixo de tanto calor. O calcanhar endurecido já nem dói. O que se constrói é quase sem palavras: amor, favor, dor, sem sabor. A carne salgada e seca do bezerro tem gosto de comida acabando. A cuia já não traz nem água salobra. Escova? Acho que nem de dente, nem de cabelo. Outras rotinas são mais prementes. Cavar poço, espantar arribação. Ô ave.

Não basta só o sol chupar os poços, aquelas aves excomungadas levam o resto da água, querem matar o gado, como bem diz Sinhá Vitória, do cortante Vidas Secas, em que Graciliano Ramos narra a sina da família que precisa cortar o sertão para buscar sobrevivência com anuência desse destino infame que tira um enxame de vidas.

Foto: Tamyris Zago

Decidi resgatar esse clássico da nossa literatura por dois motivos. O primeiro é a peça da companhia ítalo-brasileira Caravan Maschera que apresentou uma surpreendente – o adjetivo usado na divulgação do trabalho faz todo sentido – adaptação do livro de Graciliano Ramos.

O trabalho de pesquisa com os bonecos deu origem a um trabalho sério, delicado e emocionante. Pés que vestem pés de bonecos maiores que os atores.

Não é vida, não é ação que atriz Giorgia Goldoni e o ator brasileiro Leonardo Garcia Gonçalves dão aos bonecos. É metamorfose mimética. Às vezes um é outro e outro é um. E, às vezes, nada disso. Ator e boneco interagem, conversam, brigam, maquiam sentimentos, concentram dores, fogem da chuva que não vem. Banham-se de poeira. De tanta falta, afogam-se em gotas rotas nas retas sem setas.

Transcrevo aqui um trecho do material de divulgação que resume bem o espetáculo: “A peça imagética transforma os signos, os significados e os sentidos do contexto atual e histórico da seca, da angústia e da esperança do sertanejo”.

O sertanejo Fabiano, protagonista do romance é um homem seco, rude, de pouca habilidade na fala. É essa aridez de recursos de comunicação que é transposta para a montagem da Caravan Maschera. Ao espetáculo, ainda somam-se referências à obra de Cândido Portinari (em particular Os retirantes) e às fotografias de Sebastião Salgado no trabalho Gênesis.

Eu tinha dito que dois motivos me levaram a resgatar Vidas Secas. O segundo é a exposição Ai Weiwei-Raiz que abre no Brasil no próximo dia 20 de outubro. A exposição não fala só de seca. Vou citar aqui apenas três obras que me chamaram a atenção de pronto. Mas são vinte e cinco, isso só contando as feitas no país. Couros de boi foram marcados a ferro com o alfabeto armorial de Ariano Suassuna.

“A Arte Armorial Brasileira é aquela que tem como traço comum principal a ligação com o espírito mágico dos ‘folhetos’ do Romanceiro Popular do Nordeste (Literatura de Cordel), com a Música de viola, rabeca ou pífano que acompanha seus “cantares”, e com a Xilogravura que ilustra suas capas, assim como com o espírito e a forma das Artes e espetáculos populares com esse mesmo Romanceiro relacionados”. 

Esse trecho escrito por Ariano Suassuna foi tirado do Jornal da Semana, do Recife,  em 20 maio de 1975.

As citações que Ai Weiwei fez usando o alfabeto tem forte carga política. Uma delas é “a carne mais barata do mercado é a carne negra“.

As crianças que foram soterradas depois que um terremoto destruiu uma escola na China em razão da má qualidade da construção também foram alvo do trabalho do artista chinês.

Divulgação

A obra Straight remonta lado a lado os ferros que sobraram da destruição. São 270 toneladas que se estendem por 70 metros de comprimento. A intenção do de Weiwei foi mostrar que é possível deixá-los retos – reconstruídos – novamente. Para mim me lembra de um tapete que parece poder deslizar a qualquer momento. Como se tudo pudesse acontecer novamente. Essa obra tem 270 toneladas estendidas por 70 metros de comprimento. São números que correspondem a um Boeing 747. Ele nasceu para ficar fora chão. Esse mundo de famílias, que ficou sem chão com o acidente, não.

Divulgação

Um caminho sem volta esse das crianças. Uma viagem repetitiva e sem volta também a da família de Fabiano e Sinhá Vitória, de Vidas Secas.

“A viagem parecia-lhe sem jeito, nem acreditava nela. Preparara-a lentamente, adiara-a, tornara a prepará-la, e só se resolvera a partir quando estava definitivamente perdido. Podia continuar a viver num cemitério? Nada o prendia àquela terra dura, acharia um lugar menos seco para enterrar-se”.

(Trecho em que Fabiano pensa na viagem pelo sertão)

“Não voltariam nunca mais, resistiriam à saudade que ataca os sertanejos na mata. Então eles eram bois para morrer tristes por falta de espinhos?” 

(Sinhá Vitória desejando outro futuro para os filhos)

A obra de Ai Weiwei resume bem o que dá vontade de dizer quando a gente vê o que continua acontecendo nesse Brasil. Ele usou elementos, na obra que abre este post, que se encontram com facilidade na nossa terra para, sei lá, desabafar, quem sabe.

Eu fui no triste embalo e fiz meu desabafo em alfabeto armorial. Para resumir o que sinto toda vez que encontro algum maluco defendendo o indefensável, o inominável…

Acervo pessoal

Exposição Ai Weiwei Raiz

Data: 20 de outubro de 2018 a 20 de janeiro de 2019
Horários: terça a sábado das 11h às 20h (entrada até às 19h), domingos e feriados das 11h às 19h (entrada até às 18h)
Local: Oca – Parque Ibirapuera
Endereço: Avenida Pedro Álvares Cabral, sem n° – São Paulo – SP
Portões 1 e 2: exclusivo para pedestre
Portão 3: pedestre e veículos
Linhas de ônibus que passam no Parque do Ibirapuera
Ingressos (vendidos com horário marcado): inteira R$ 20,00, meia R$ 10,00 (válida somente para estudantes e pessoas de acima de 60 anos)

Com arte, tá tudo bem. Se as exposições, peças de teatro, shows, filmes, livros servirem de gancho  para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, cronista, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além de repórter, foi produtora, editora e editora-chefe. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado. Seu mais recente projeto é o seu site pessoal

Karen Monteiro

Com arte, tá tudo bem. Se as exposições, peças de teatro, shows, filmes, livros servirem de gancho  para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, cronista, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além de repórter, foi produtora, editora e editora-chefe. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado. Seu mais recente projeto é o seu site pessoal

2 comentários em “F.O.D.A.

  • 16 de outubro de 2018 em 1:49 PM
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    O chinês Ai Wei Wei bem que podia pegar mais leve usando a mesma criatividade mas virando o foco para as estrelas, ao invés da lama se usasse as tres letras iniciais de Amora, Melancia e Embaúba para indicar o caminho para brasileiros não fundirem a cuca, já que eles não podem governar o Brasil como desejam: AME, para não odiar. AME para não perder a esperança. AME para não transformar sua vida num M só. AME se não for amado porque já chega de tanta baixaria, corrupção, alienação e baixo astral. AME para não se sentir um zero à esquerda porque o amor é só lucro, não importa onde nem quando, nem partindo de quem.

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  • 17 de outubro de 2018 em 4:00 PM
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    Muito bem! Sandra, ótima colocação,AME sempre em qualquer condição.

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