‘Ex-Pajé’, documentário premiado em Berlim, denuncia evangelização dos índios brasileiros

De cara, já posso dizer: Vá! Assista Ex-Pajé! Não perca! Não precisa nem ler meu relato, aqui, pra se convencer disso. Ex-Pajé é um filme visceral, necessário, urgente. É uma denúncia contra o que as igrejas evangélicas estão fazendo com esses povos, evangelizando-os agressivamente e eliminando a figura do pajé ao disseminar mentiras.

Este documentário de Luiz Bolognesi (diretor da animação Uma História de Amor e Fúria e roteirista de Bicho de Sete Cabeças), se soma, com muita competência e engajamento, a outros filmes que admiro, como Corumbiara e Martírio, de Vincent Carelli, e Piripkura, de Mariana Oliva. sobre o qual ainda vou escrever a respeito. Aqui, dou uma palhinha deste último: trata-se de um registro emocionante da história de dois índios quase primitivos, que sobreviveram ao massacre de sua etnia por madeireiros e garimpeiros, fugiram, vivem na floresta, e foram vistos pela última vez em 2016.

Voltemos ao pajé!

Assisti ao filme – premiado no Festival de Berlim – com o coração na mão. Porque vi os efeitos do que é contado ali, na telona, em outra aldeia, em outra etnia, no Tocantins. O que acontece num pedaço da Terra Indígena Sete de Setembro, dos índios Paiter Suruí, acontece também em outras aldeias pelo país. Os índios estão tão vulneráveis, tão facilmente influenciados pelos brancos que, não é preciso muito para duvidarem de sua identidade, de sua espiritualidade, de seus costumes, de suas crenças. Um prato cheio para fanáticos.

Perpera perdeu a confiança do seu povo. Ninguém mais quis saber de suas bençãos, suas rezas, sua ajuda, sua companhia. Tudo porque lá chegou um pastor evangélico gringo, se instalou com sua mulher médica na região, e espalhou a ideia de que todos os saberes indígenas são “coisas do diabo” e que o pajé, portanto, teria vínculos com o diabo ou espíritos do mal. E, assim, os índios passaram a ignorá-lo e a frequentar o templo construído (certamente por eles) na aldeia e a aprender – a seguir e a temer – as palavras de Deus escritas na Bíblia, no evangelho.

A tristeza do pajé é tanta, que, para não se sentir tão sozinho, ele adere ao Cristianismo também. É chocante vê-lo se vestir para o culto, para abrir o templo para os fiéis. Sim, ele não só acompanha as rezas – é verdade que sem se envolver muito; fica observando -, como é o responsável por manter o templo limpo. Hoje, ele se diz evangélico, mas tá na cara que não é feliz, perdeu seu brilho. E tem medo de dormir no escuro porque teme os espíritos da floresta. Diz que, sem luz, eles o atormentam porque estão bravos com ele por causa da igreja.

Num dado momento, um acidente envolvendo uma índia, desestabiliza a aldeia. E o pajé tem sua grande chance de resgatar a confiança de seu povo, atuando como tal. O restante da história não conto.

Digo apenas que a história, a direção, o ritmo e a fotografia de Ex-Pajé mexeram muito comigo. O filme é carregado de simbolismos. A fotografia é linda. Tudo no filme é precioso e me levou pra dentro da tela rapidamente.

Boas e más lembranças

Tive uma experiência muito particular, que me trouxe recordações de vivências recentes em duas aldeias. Fiz conexões muito fortes, mas também porque os índios me tocam, sempre. Foi assim quando pisei a primeira vez numa tribo, em 2016.

O olhar e a resignação do ex-pajé, as conversas entre os índios Paiter Suruí, os rituais evangélicos, a vulnerabilidade de algumas índias quando se entregam aos cuidados da mulher do pastor, a índia mais velha entre a vida e a morte… tudo me ajudou a resgatar boas e más lembranças.

A convite do amigo Renato Soares, fotógrafo e documentarista que retrata os índios brasileiros há quase 30 anos (ele tem um blog aqui no Conexão Planeta), visitei os índios Krahô, no Tocantins, e os Yawalapitti, no Xingu (escrevi a respeito, aqui). Por intermédio dele também, tive a oportunidade de conhecer e conversar com o cacique Almir Suruí (da mesma etnia de Perpera), durante uma de suas visitas à São Paulo. E todos me fizeram companhia durante a projeção de Ex-Pajé.

Ao ver o templo evangélico construído na terra Suruí e seus “fiéis”, lembrei dos escapulários usados por algumas índias Krahô – que destoam de suas feições indígenas – e de seus relatos sobre o pastor que por lá aparecia de vez em quando. Quando perguntei o que fizeram com suas crenças e os ensinamentos da floresta, uma jovem respondeu que pouco conhecia disso, e que suas lembranças de menina já eram relacionadas ao pastor.

Me dava um aperto no coração, parecido com o que senti ao ver Perpera, na telona, trajando camisa branca de manga comprida, calça preta, cintos e sapatos de couro para abrir o tal templo para o culto. O que queria, naquele momento, era vê-lo entoando mantras indígenas de purificação, cantando alto, fumando um ‘charuto’ pra espalhar a fumaça purificadora ou tocando uma flauta indígena (me lembrei dos Yawalapitti) para espantar os espíritos do mau.

A constatação de que os índios estão hipnotizados pelas palavras do evangelho, me causou náusea e revolta. Talvez a mesma que consuma Perpera por dentro, sem que ele demonstre claramente.

Será que ele precisava, mesmo, se converter, negando seu passado de pajé?

Identidade ameaçada, identidade preservada

É difícil aceitar que parte dos índios Paiter Suruí se entregaram aos ensinamentos daquele estrangeiro e do Cristianismo fanático, mesmo com a sabedoria espiritual e da floresta, além de seus rituais intensos e mágicos.

À medida que essa resignação se tornava mais evidente no filme, a imagem de Almir Suruí se fortalecia na minha mente. Ele me contou sobre seu povo e a ameaça eterna de morte pela qual passa há anos (desde os governos de Lula e Dilma, que garantiam sua proteção com seguranças pagos pelo estado), desde que denunciou a invasão de madeireiros e garimpeiros nas terras Paiter Suruí, e também da conivência de alguns índios de sua tribo, que a estes se aliam.

Isso aparece claramente no filme de Bolognesi. Lá estão os índios – armados e vestidos como os brancos – esperando a volta desses exploradores para “acertar” contas e lhes dizer que aquelas terras são deles. Ingenuidade? Ou apenas coragem?

Mas o mal estar gerado pela enorme influência de nossos hábitos e crenças na vida desses índios, também me fez lembrar de coisas boas, me fez sentir muitas saudades da companhia e dos belíssimos rituais dos índios Yawalapitti – liderados pelo sábio cacique Aritana, no Xingu. Apesar do contato frequente e da influência inevitável dos brancos, preservam sua cultura, sua língua, seus costumes, sua espiritualidade. E têm orgulho disso. Estudam e aprendem os conhecimentos dos brancos,  sim, mas principalmente para lidar com eles nas questões mais nevrálgicas, como a disputa de terras. Inclusive no Congresso.

Aritana me contou que Orlando Villas Boas lhe falava, desde que era menino, da importância de preservar seus costumes e sua cultura e não cair na tentação e na ladainha dos brancos. Por isso, é evidente que sua cultura permanece fortalecida, preservada e assim a querem manter. Eles têm moto, carro, barcos, internet (que só pode ser acessada na área da escola), placas de energia solar…, mas isso não os descarateriza.

Faltou um Orlando Villas Boas para orientar os Paiter Suruí, talvez… Falta alguém com sua visão ou a de Darcy Ribeiro para inspirar a sociedade a lutar com os índios pela preservação de suas vidas, de suas terras, de sua identidade. Sem eles, perderemos o rumo.

Por tudo isso, trabalhos como o de Bolognesi e de todos que citei no início deste texto, são imprescindíveis neste desafio.

Novas Cruzadas da intolerância

No Festival de Berlim, onde o filme foi lançado e premiado, o diretor de Ex-Pajé leu manifesto escrito pelos índios, clamando por sua proteção. Ele estava acompanhado por dois membros da tribo Paiter Suruí, que aparecem no filme. Perpera não foi.

A agência EFE registrou a leitura de alguns trechos na íntegra:

“Os espíritos da floresta estão zangados, chorando por ajuda, como se, para cada árvore derrubada, cada rio poluído, eles se aproximassem da extinção. Um sábio xamã disse uma vez, a floresta é um portal cristalino, e todos nós, os humanos, precisamos disso. Se a floresta partir, nosso espírito partirá também. Os pajés devem existir e, para existir, devem ser respeitados. Antes que seja tarde demais, o mundo seja esvaziado de sua espiritualidade e o Céu pode cair sobre nossas cabeças! Chega de etnocídio! Mais pajés! Menos intolerância”.

No livro A Queda do Céu, que escreveu com o antropólogo Bruce Albert, o cacique Davi Kopenawa, da etnia Yanomami, explica a queda desse céu sobre nossas cabeças, quando o homem branco tiver destruído as florestas e os povos originários. Eles sabem tudo.

O manifesto lembrou que “em nome de Deus, homens missionários atacaram muitas formas de vida, nos últimos séculos” e destacou que vivemos “o emergir de novas cruzadas de intolerância, especialmente de missões evangélicas”. Parte deles está sendo convencida de que a floresta não´tem magia, nem deve ser preservada, e que é melhor derrubar tudo por dinheiro. É o que já acontece na tribo dos Paiter, como Almir contou pra mim e eu contei acima. Como se não bastasse, os evangélicos ainda se aliam a mineradores e madeireiros, os principais inimigos dos índios. E tudo fica dominado.

Um pajé por todos

Bolognesi, a princípio, queria fazer um filme sobre pajés. Ele explicou, em entrevista para o site Vertentes do Cinema: “Queria ouvir diversos pajés, mas não de uma maneira exótica, como curandeiros, e, sim, como depositários que são de um conhecimento de 4 mil anos de cultura, de povos que não têm língua escrita e, portanto, a narrativa oral é o lugar do conhecimento. Eles são sacerdotes, mas também cientistas. São os doutores da Sorbonne da floresta”.

Quando conheceu Perpera e ouviu sua história, mudou os rumos do seu projeto. “Fiquei em estado de choque ao ver aquele índio vestido com aquelas roupas fora do seu tamanho – camisa, paletó, calça… – e o ouvir dizer que não era mais pajé porque fora constrangido pelas pessoas que se tornaram evangélicas. Elas só acreditam no pastor que dizia que tudo que ele fazia era ‘coisa do diabo'”.

Bolognesi percebeu que o que estava sendo vivido por Perpera é o resumo da história da colonização nas Américas, do massacre da cultura indígena. O que se faz hoje, contra os pajés, para aliciar os índios, é cruel! E, por isso, o ex-pajé virou protagonista. Uma inspiração para a continuidade do projeto inicial de Bolognesi, a meu ver. Tomara.

Nos cinemas

Ex-Pajé está sendo exibido, gratuitamente, no Festival É Tudo Verdade, em São Paulo e Rio de Janeiro e no dia 26, entra em circuito comercial.

Vá assistir para se indignar e aderir a esta causa, com Bolognesi, os Paiter Suruí e todos os índios do Brasil.

Veja a programação abaixo e, em seguida, o trailler.


Foto: Divulgação

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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