Ateu. Comunista. E pintor de mural em catedral?

obra de Eugênio de Proença Sigaud

Um prêmio para quem adivinhar como um  ateu e comunista acabou sendo chamado para  pintar o interior de uma catedral, numa cidadezinha  no interior do Paraná.

Competente e combativo. Eugênio de Proença Sigaud (1899-1979) era o pintor dos operários. Nascido no Rio de Janeiro, também era arquiteto, gravurista, desenhista, ilustrador, vitralista. Tanto currículo, não creio, seria, por si só, suficiente para conseguir esse trabalho na cidade de Jacarezinho, localizada a quase 400 km da capital, Curitiba. O interesse de Sigaud pela classe já estava claro quando foi chamado para pintar a igreja na década de 1950.  Acidente de trabalho (1944), seu quadro, mais famoso, logo aqui abaixo, já havia sido pintado.

obra de Eugênio de Proença Sigaud

Nessa tela de 132 x 95 cm, ele usou a técnica encáustica. A cera serve de aglutinante dos pigmentos e deixa a mistura bem densa. A pintura é aplicada com pincel ou espátula quente. Os gregos e romanos já usavam… Sigaud era daqueles artistas que testavam várias técnicas. Estou apresentando o trabalho do pintor para dar tempo de você quebrar a cabeça e ir tentando entender a filosofia do destino, esse amigo responsável por Jacarezinho ter hoje uma igreja com a abóboda pintada por um pintor tão famoso.

Seria esse um destino pagão? Ou teria se rendido ao catolicismo e decidiu dar uma chance para Sigaud de entrar para história como artista que se aproximou da igreja? Chance que ele não aceitou. Não se converteu. Digamos que artistas, às vezes (muitas vezes), se veem em situações em que o estômago ronca mais alto. E isso, a meu ver, justifica essa biografia embolada, como é, aliás, a de todo ser humano que se deixa ver na essência. Se não há contradição e desajuste, é bom questionar mais. É bom também julgar menos. 

Julgo a essas alturas que você possa estar pensando que a igreja resolveu dar um tapa de luvas em Sigaud, usando o discurso de que todos são filhos de Deus e tal… Já adianto. A razão tem traços menos magnânimos.

obra de Eugênio de Proença Sigaud

Na igreja, Sigaud representou cenas religiosas, mas fez algo que ele estava mais acostumado: pintou figuras anônimas, como costumava fazer nos quadros de operários da construção. Claro que pintou  celebridades e figuras populares. Agradar é preciso, nessa vida profissional. Mas a igreja é uma das obras.

obra "os vergalhões"de Eugênio de Proença Sigaud

A grandeza de Sigaud foi pintar, acreditar e ressaltar uma categoria que se arrisca muito e ganha pouco, entre nuvens e abismos. O pintor foi influenciado pelo muralismo mexicano e o nacionalismo de Portinari. O expressionismo transborda. O dramático é reforçado pelos ângulos que deformam os personagens.

Entre contrastes de cores, Sigaud pintou operários que por certo não imaginavam que seus colegas no futuro levantariam arranha-céus em tempo recorde para construtores que se orgulham em espalhar a notícia de que geram tantos e mais empregos. Implantar mais e mais, muito mais geradores de energia solar também pode gerar empregos. É bom pensar nisso!

Cansativa essa lógica perversa da cidade grande glamourosa e claustrofóbica que continua empilhando seus cidadãos ansiosos por oportunidades. Passos mais rápidos êxodo urbano, por favor! Mais e mais opções: centros menores! Corram todos para Jacarezinho… Rápido. Rápido. Vão lá para saber porque Sigaud conseguiu pintar a igreja. Se conseguir fazer a igreja falar… Brincadeira, brincadeira. Vou contar.  Eu, heim?!… Perder leitores irritados…

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Vamos lá: a pintura mural de Sigaud na Catedral foi feita a convite de seu irmão. Quem? O bispo dom Geraldo de Proença Sigaud. Dom Geraldo era nacionalmente reconhecido por sua postura ultraconservadora e anticomunista, tanto que foi cofundador, ao lado de Plínio Corrêa, da organização católica TFP – Tradição, Família e Propriedade. União familiar respeitável essa…

Mas a alma operária de Sigaud prevalecia. “Acredita-se que quando pintou o “Sermão da Montanha” tenha representado Marx, Lenin e ele próprio, manifestando o espírito ousado e contestador do artista“. Quem diz isso é Luciana de Fátima Marinho Evangelista no artigo O artista e a cidade: Eugênio de Proença Sigaud em Jacarezinho, que ela apresentou no XXVII Simpósio Nacional de História.

E o comentário de Sigaud só confirma a tendência de esquerda: “Sempre exaltei o operário anônimo, sempre denunciei a vida massacrada pelo sistema. Sempre tive consciência da função social da arte. A meu ver, toda arte pode concorrer para ativar o debate político, melhorando assim, por via indireta, a vida do homem”.

O trecho acima faz parte de uma entrevista que o pintor deu, pouco antes de morrer, ao crítico Frederico Morais, que diz o seguinte sobre Sigaud: “Foi sempre expressionista: na deformação ostensiva de suas figuras, na temática pouco charmosa do operariado urbano, na ousadia de suas obras, na largueza do desenho, na energia dos volumes, enfim, no estilo viril, rude e tosco. Não se restringe a mostrar o trabalhador nos andaimes dos edifícios em construção: mostra-os também na rua, em meio ao tráfego, nas usinas, ferrovias, pontes, estaleiros e, depois, passando da cidade para o campo, mostra-o em plantações de café, musculoso e forte, negro, ou no litoral, entre sal e saibros”.

obra de Eugênio de Proença Sigaud VIRTUDES DIVINAS


*A inspiração para esse post foi o trabalho de Luciana de Fátima Marinho Evangelista. Vale a pena ler o artigo dela. Luciana é do interior do Paraná e quer divulgar esse trabalho, entre outras coisas, porque teme o destino desta obra acima, de Sigaud, que está lá, em Jacarezinho.  Chama-se “Virtudes Divinas” e precisa de restauro urgente.

 

Fotos obras: 1. Acidente de trabalho (1944), 2.Teto da Catedral de Jacarezinho (década de 1950), 3. Os Vergalhões (1977), 4. Teto da Catedral de Jacarezinho (década de 1950), 5. Operário (1938), 6. Vontades Divinas (1954)

Se tiver arte, tá tudo bem. E se puder usá-la como gancho para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além de repórter, foi produtora, editora e editora-chefe. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado. Mas, sem dúvida, prefere os simpósios, palestras e cursos livres de arte que vive respirando por aí. Isso quando não está em alguma exposição, espetáculo ou fazendo docinhos indianos para resgatar as origens

Karen Monteiro

Se tiver arte, tá tudo bem. E se puder usá-la como gancho para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além de repórter, foi produtora, editora e editora-chefe. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado. Mas, sem dúvida, prefere os simpósios, palestras e cursos livres de arte que vive respirando por aí. Isso quando não está em alguma exposição, espetáculo ou fazendo docinhos indianos para resgatar as origens

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