Eu, você e a crise econômica

De repente, mas não tão de repente assim, a crise econômica virou o assunto da vez. Tudo bem que cada um sente e percebe o momento de modo específico, indiscutivelmente. Para alguns, o problema é que as viagens para o exterior e o smartphone importado ficaram mais caros, enquanto que, para outros, o impacto aconteceu na lista do supermercado, que precisou ser reduzida à metade para caber no bolso apertado da família, ou na queda da confiança na manutenção do emprego (que, por sua vez, altera a maneira como as pessoas consomem bens e serviços, em geral, tornando-as mais conservadoras e comedidas). Seja como for, a tal crise parece ter atingido todos nós.

Não é o caso de ficar pregando que ‘crise’ simboliza também ‘oportunidade’ ou chance de mostrar o quanto você e sua empresa estão preparados para o futuro e os novos tempos, como costumam fazer os consultores de RH e de negócios – cá entre nós, imagino que, no fundo, eles adoram esses momentos que têm a qualidade de torná-los mais “importantes”, “necessários”, verdadeiros oráculos da sociedade.

Por trás (ou seria por baixo?) dessa crise há um elemento mais desafiador, mais contundente, embora frequentemente menosprezado: a crise (eureca!) é do capitalismo, desse sistema de consumo que criamos e extrapolamos ao longo de algumas décadas (nem são tantas assim), e que tem dado sinais claros e óbvios de ineficiência, esgotamento e até estupidez diante das evidências de sua insustentabilidade, nos mais diversos níveis.

O problema é que, mesmo capenga, o capitalismo continua firme como pano de fundo da economia de boa parte do planeta, e não temos visto nenhuma liga de super-heróis lutando para substituí-lo por um plano melhor para a humanidade – até porque, ao que parece, esse plano ou solução global não existe nem em pensamento, protótipo popular ou imaginário acadêmico. O que fazer, então? Que caminhos podemos tomar, se o monstro parece grande demais para ser combatido e continuar alimentando-o já deixou de ser opção sensata?

Bom, e se, em vez de lutar contra, pudéssemos simplesmente deixá-lo um pouco de lado, trilhar rumos paralelos, independentes, tirá-lo de cena tal como acontece naturalmente às falsas celebridades, inconsistentes demais para manter a fama e o “sucesso” para além de alguns eventos midiáticos bem explorados? Direto ao ponto: para sair da crise, que tal reduzir nossa dependência desse sistema falido de vivenciar o mundo? A hora, para não perder o bonde, é agora.

Pesquisadores e gente como a gente têm levantado tendências e iniciativas que caminham para o consumo da colaboração, do compartilhamento, enfim, aquela boa e velha história da furadeira guardada no armário: usamos tão pouco que não precisamos tê-la em casa, se pudermos ter acesso a ela, em caso de necessidade – e isso pode acontecer porque o seu prédio resolveu criar uma ferramentaria comunitária ou porque seu vizinho camarada sempre empresta quando você precisa.

Hoje, crise é sinônimo de dinheiro mais curto, e, preste atenção, isso não quer dizer nem precisa significar que você terá, com isso, uma vida de escassez. É hora de juntar os amigos ou a família para criar projetos coletivos, arregaçar as mangas e investigar talentos ‘caseiros’ que foram simplesmente suprimidos anos a fio, por causa da falta de tempo (e, algumas vezes, de ousadia também) para botá-los em prática e em cena. Abundância é o resultado prazeroso de um agir mais comunitário, mais colaborativo. E as possibilidades são infinitas.

As trocas de produtos e serviços são excelentes nessa hora. Que tal criar no seu condomínio um mural com classificados de serviços? “Troco aulas de inglês por consultoria jurídica” ou “ofereço aulas de yoga, compro pão integral”. Quando investigamos os talentos locais (no prédio, na rua, no bairro, na escola etc) ampliamos as possibilidades de experiências não intermediadas pelo dinheiro, ou seja, não sujeitas a sofrer distúrbios quando a economia do país não vai bem. Simples assim.

Feiras de trocas, espaços de trabalho compartilhados (coworking), produção e incentivo à arte e cultura do seu pedaço e até mutirões para melhorar o astral da pracinha do bairro (o Movimento Boa Praça, em São Paulo, é um bom exemplo)  são maneiras menos capitalistas, digamos assim, de levar e desfrutar a vida. Sem falar que, em geral, essas iniciativas tendem a ser mais sustentáveis também.

É esquisito dizer isso, mas quando as coisas fluem, vamos tocando o barco sem muitos dilemas existenciais, curtindo aquela brisa mansa (para não dizer comodismo e inércia) que paira sobre nossa zona de conforto. Mexeram no nosso (meu, seu) queijo? Ótimo! Aproveite para lembrar as tantas coisas que você sabe fazer e nunca pensou com seriedade que pudessem virar estratégias de geração de recursos e moeda de troca para o que você precisa no dia a dia.

Cozinha bem e gosta de receber os amigos em casa? Que tal oferecer experiências gastronômicas para os vizinhos? Entende tudo de ervas medicinais e matinhos nutritivos? Monte cursos para a comunidade! Quer desentulhar o guarda-roupa e experimentar um vestir mais simples? Monte um brechó. Não tem mais espaço em casa para os livros, CDs e outras coleções? Ofereça a guarda dos bens ao dono do café descolado do bairro, que vai atrair mais clientes para seu negócio (e, de quebra, você ainda ganha o direito de tomar um cafezinho com pão de queijo, ou de usar a internet dele, e por aí vai).

Um detalhe que é clichê, mas é verdade: se criatividade é a palavra-chave do momento, sustentabilidade é sua rima mais natural e adequada. Combinadas, essas duas qualidades têm tudo para nos mostrar caminhos iluminados para os próximos tempos. Apostemos nisso!

Foto: Giu Capello

Jornalista ambiental e permacultora, escreve sobre bioconstrução, arquitetura e design sustentáveis, economia solidária, consumo consciente, alimentação orgânica, maternidade e simplicidade voluntária. É autora do livro Meio Ambiente & Ecovilas (Editora Senac São Paulo).

Giuliana Capello

Jornalista ambiental e permacultora, escreve sobre bioconstrução, arquitetura e design sustentáveis, economia solidária, consumo consciente, alimentação orgânica, maternidade e simplicidade voluntária. É autora do livro Meio Ambiente & Ecovilas (Editora Senac São Paulo).

9 comentários em “Eu, você e a crise econômica

  • 14 de agosto de 2015 em 8:25 AM
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    Perfeito Gil, é impressionante como você escreve tudo que eu penso, isso dá muita força.
    Estamos juntos nessa caminhada.

    Parabéns pela casa nova.

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    • 14 de agosto de 2015 em 8:43 AM
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      fiquei tão empolgada que escreví Giu errado.. desculpe.

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      • 20 de agosto de 2015 em 12:39 PM
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        Tudo bem, Eliete, sem problemas! Abraço!

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    • 20 de agosto de 2015 em 12:38 PM
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      Eliete, obrigada.
      É sempre bom sentir que mais e mais pessoas sentem o mundo como a gente.
      Já somos muitos querendo e construindo mudanças! Vamos em frente!
      Um abraço pra você!

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  • 14 de agosto de 2015 em 4:23 PM
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    Gil adorei o site! Estou divulgando para os meus amigos!! Você me inspira muito! Obrigada!
    Beijos

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    • 20 de agosto de 2015 em 12:42 PM
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      Oi, Cintia! Que bom que gostou!
      O site é todo feito por gente que realmente acredita no futuro, que quer inspirar, compartilhar boas novas.
      Aproveite ao máximo!
      Um abraço fraterno pra você.

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    • 20 de agosto de 2015 em 12:43 PM
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      Thais, agradeço a visita e a partilha!
      Abraço pra você!

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  • 11 de novembro de 2015 em 11:36 AM
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    adoro as tuas materias, sempre voltadas para um mundo melhor.

    Abraços carinhosos

    Marcia.W

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