Estradas feitas de café

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Boa parte dos apreciadores de café não faz ideia das questões ambientais e sociais que podem envolver sua produção – que, no sentido positivo, vão de boas práticas agrícolas para preservação da biodiversidade e dos direitos dos trabalhadores do campo, ao comércio justo e dos interesses das comunidades. Nestes quesitos já há grandes avanços no mundo e no Brasil, mas, ainda é preciso levar em conta o descarte dos grãos e da borra, depois do consumo. E, neste ponto, ainda há muito a fazer. Sem falar na invenção “moderna” das cápsulas de café, que se espalharam pelo mundo e que já encontraram oposição inteligente como a do prefeito de Hamburgo que proibiu seu uso em prédios públicos.

Composteiras ou minhocários são saídas inteligentes para esse resíduo. E olha só que bacana! A borra de café ajuda a combater o aparecimento de formigas e, também, é um ótimo complemento nutricional para as minhocas. Mas são poucas as pessoas que já aderiram a esta prática mais ‘natural’. Por isso, na maioria das vezes, os grãos e restos de café vão parar nos aterros sanitários ou, se jogada na pia, a borra ainda vai parar nos mares e oceanos.

Em uma cidade como Sidney, capital da Austrália, por exemplo, são consumidas 3 mi toneladas de café por ano. E foi pensando nisso que engenheiros do grupo de Geotécnica do Centro de Infraestrutura Sustentável da Universidade de Swinburne estudaram suas propriedades e descobriram que grãos torrados e os resíduos dessa bebida tão popular podem ser usados na pavimentação de estradas.

Liderados pelo pesquisador Arul Arulrajah e na companhia de Teck-Ang Kua e de pesquisadores da China e da Tailândia, analisaram materiais recicláveis como tijolo esmagado, vidro e concreto. Estes materiais já são reutilizados na construção de estradas, mas, muitas vezes, não dão conta de atender a demanda ininterruptamente. “Um dia, observei os baristas jogando fora a borra do café aos montes e pensei que poderíamos transformar aquele resíduo em material de engenharia”, disse Arulrajah, ávido consumidor de café, ao Science Alert.

Os pesquisadores coletaram resíduos do café no campus Hawthorn de Swinburne, um pouco a leste de Melbourne, e os secaram em um forno por cinco dias a 50°C. Em seguida, peneiraram o material para filtrar possíveis protuberâncias. Misturaram o que restou com resíduos da fabricação de aço, mais precisamente escórias de alumínio. A mistura – 70% de café e 30% de escória – foi diluída em uma solução alcalina e depois comprimida em blocos cilíndricos muito fortes e resistentes, perfeitos para forrar a parte que fica sob a superfície das estradas.

Levando em conta o consumo de café em estabelecimentos de Melbourne – em média, 150 kg de pó de café por semana -, Arulrajah garante que a borra produzida poderia ser utilizada para construir cinco quilômetros de estrada por ano.

Do jeito que brasileiro – e grande parte da humanidade – ama café, o aperfeiçoamento dessa técnica e sua disseminação e aplicação pelo mundo podem contribuir muito com a busca pelo desenvolvimento sustentável das cidades e também. Além de gerar economia, esse reaproveitamento reduziria os resíduos nos aterros, as emissões de carbono e o impacto em pedreiras virgens.

Já pensou se essa técnica fosse adotada em todo o mundo? Que tal espalhar essa ‘receita’ por aí?

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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