Estica e puxa

Tanto faz se você estica querendo arrebentar ou afrouxa querendo sumir. Você pode arrebentar de orgulho. De raiva. Ou sumir de vergonha, desilusão ou merecida introspecção. Contração. Expansão. Universo em ritmo de batida do coração. Peito em percussão com mão. Tum. Tum. Um. Um.

Quem não precisa, de vez em quando, sair batendo no peito, afirmando: eu? Eu sou esse um. Esse indivíduo com vontades próprias, limites incertos, diferenças sutis ou marcantes que quem sabe um dia desapareçam num sumidouro de regras e jogos definidos. Joguem-se os dados.

Venha que combinação vier. Faces sem pontos. Lados sem números. Somem-se ao léu. Desabe-se esse véu. Descortinem-se os contornos. Derrube-se. Pouco se arrume. Prepare-se para caminhar sobre os dados. Um chão assim jogado ali na hora. Um caminho que se abre sem muita pretensão. Ou definição. O passo seguinte um tanto às escuras. Estrada aberta no compasso do passo. Sem muito controle. Vai. Volta. Puxa. Puxa mais. Puxa a vida. Puxa vida. Estica a sina. Lida com a falta de saída.

O espetáculo “Convite ao Olhar”, idealizado pela Companhia Lápis de Seda, de Florianópolis, arranca poesia por onde passa. É um grupo de dança contemporânea com foco inclusivo. Os integrantes são pessoas com ou sem deficiência intelectual e/ou motora.  Eles estão rodando o Brasil fazendo apresentações em teatros e nas ruas.

Vestem um figurino que é continuação dos corpos. Pernas, braços, pescoços que não precisam ser sempre elásticos. Figurino continuação da caixa de elásticos. E a caixa de elásticos é continuação de um jogo… Aquela brincadeira de mãos – agigantada – que forma desenhos com barbantes. As mãos poderiam continuar a tecer com essas teias de elásticos-barbantes as paredes dos dados. Um pano de fundo. Ou um tecidinho para cobrir a frente. Um cobertor para o inverno. Um caminho de volta do inferno. Bate e volta.

Um tônus a mais na maleabilidade que parecia perdida, no corpo que parecia enrijecido pelas mesmas histórias de mágoa contadas ao longo de anos. Corpos que estancam num canto por medo de ir para frente. Por não saber como expressar sentimentos.  Estratégias congelantes para abafar a raiva das frustrações cotidianas…

E as tentativas de liberação social possível para essa quase ira? Soquem-se almofadas e mesas. Corram-se quilômetros. Nadem-se rios. Chore-se caudalosamente.  Jogue-se tinta na tela em branco. Molde-se a argila com mais pressão. Entre soluços das vísceras, que nasça força para mudar. Arranje-se. A raiva é de quem tem. Não se deposita em ninguém. Que haja responsabilidade por ela.  Com menos violência.  É possível coreografar algo que cause menos estrago. Rio não contido em seu leito, correndo livre para renovação.

Fotos: divulgação/Cristiano Prim

Jornalista cultural apaixonada por temas ambientais. Colaborou para várias revistas como Bravo!, Isto É, Nova e jornal Gazeta do Povo. Em TV, foi editora-chefe do programa Gente.com. Trabalhou como produtora e editora nos programas QI na TV, Com a Palavra, Aqui entre Nós, É Cultura. Foi repórter de TV por 12 anos e jornalista responsável pelo Guia Cultural Curitiba Apresenta. Mantém o blog de crônicas Nunca precisou de chão firme.

Karen Monteiro

Jornalista cultural apaixonada por temas ambientais. Colaborou para várias revistas como Bravo!, Isto É, Nova e jornal Gazeta do Povo. Em TV, foi editora-chefe do programa Gente.com. Trabalhou como produtora e editora nos programas QI na TV, Com a Palavra, Aqui entre Nós, É Cultura. Foi repórter de TV por 12 anos e jornalista responsável pelo Guia Cultural Curitiba Apresenta. Mantém o blog de crônicas Nunca precisou de chão firme.

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