Estar fora para estar dentro

Falamos tanto sobre a importância das crianças estarem do lado de fora, que imaginamos que todos compreendem o âmbito do significado que queremos dar à essa expressão. Por isso, é comum surgir a pergunta: o que é mesmo o lado de fora? Mas, na verdade, a adotamos no mais puro senso comum: queremos dizer o lado de fora das casas, da sala de aula, dos espaços construídos.

Nos últimos 50 anos, a vida das crianças foi acontecendo cada vez mais do lado de dentro das edificações, pois o crescimento da quantidade de carros, a priorização das vias para estes em detrimento dos pedestres, o perigo que eles representam em termos de possíveis acidentes graves ou fatais têm justificado a proteção das crianças mantendo-as em ambientes protegidos e controlados.

Além disso, a vida nas cidades foi se tornando tão hostil que as pessoas não confiam mais umas nas outras e evitam interações espontâneas, que podem eventualmente representar algum perigo. Assim, o desenvolvimento infantil foi ficando prejudicado e a riqueza de possibilidades de aprendizagem que o brincar ao ar livre, em ambientes naturais, oferecia para os que nasceram até a década de 50-60, ficaram reduzidas a brincadeiras supervisionadas e em ambientes controlados.

E, nesse contexto, ao propormos estar do lado de fora em muitos períodos, grande parte do tempo e até mesmo o tempo todo, é compreensível que provoquemos estranhamento. Afinal, as crianças precisam do lado de dentro também, não é?!

O convite de hoje, então, é para que reflitamos sobre o que é dentro e o que é fora

O ambiente natural nos convida para entrar no nosso mundo interior. Observe quando as crianças buscam cantinhos aconchegantes entre as árvores para inventar uma brincadeira, ou árvores ou arbustos para se esconder, não precisando de construções e edificações. É possível encontrar esse acolhimento ao ar livre.

Em outros momentos, uma criança pode querer ficar só, brincando ali, em intensa contemplação interior. E, assim, o lado de fora fica dentro, e é nos espaços naturais que isso acontece espontaneamente, em que a diversidade de estímulos das plantas e dos animais, das águas e dos ventos, das luzes e das sombras, estimulam e despertam percepções e sentimentos os mais variados, constituindo as etapas para o rico crescimento da vida interior.

Em contraste, o ambiente construído, repleto de artificialidades, não conduz a essa introspecção, a essa possibilidade de entrar em contato com a própria percepção, com os próprios sentimentos.

Quanto mais próximos estamos da natureza, mais próximos estamos da nossa essência.

Todos nós temos necessidade de nos aconchegarmos em ambientes protegidos, de nos sentirmos tranquilos, sem precisar estar se prevenindo contra as ameaças do mundo. Devemos, então, observar quando é que as crianças estão se sentindo verdadeira e profundamente protegidas: quando estão nos ambientes construídos cheios de artifícios e telas? Ou quando estão brincando livres, dando asas à imaginação, voando com as plumas, com os pássaros, navegando com as folhas, transformando e criando mundos?

Quando nos perguntamos que tipo de seres humanos queremos para o mundo, essa observação é fundamental. Que tipo de ambiente fortalece o senso ético e estético? Que tipo de ambiente estimula relações espontâneas e sinceras? Que tipo de ambiente fortalece a auto-confiança e a confiança nos outros? Que tipo de ambiente permite vivenciar a conexão com a Terra, nossa casa comum?

Estar do lado de fora é estar dentro de nossa casa maior, onde todos somos parceiros da jornada da vida em suas mais variadas e ricas expressões. Talvez até possamos pensar que estar dentro de ambientes fechados é se apartar, se distanciar do contato com todos os demais seres e elementos que compõem a nossa casa comum, nosso Planeta Terra.

Estar do lado de fora é entrar profundamente dentro dela!

Foto: Ana Carol Thomé

Ana Carolina Thomé e Rita Mendonça

Ana Carolina é pedagoga, especialista em psicomotricidade e educação lúdica, e trabalha com primeira infância. Rita é bióloga e socióloga, ministra cursos, vivências e palestras para aproximar crianças e adultos da natureza. Quando se conheceram, em 2014, criaram o projeto "Ser Criança é Natural" para desenvolver atividades com o público. Neste blog, mostram como transformar a convivência com os pequenos em momentos inesquecíveis.

Deixe uma resposta