Espaços públicos para a economia solidária se ampliam em São Paulo

Tendal da Lapa. Este é o mais novo espaço para quem quer encontrar produtos da economia solidária na cidade de São Paulo. Desde o último sábado, 16 de setembro – experimentalmente em princípio, mas com potencial e grandes chances de se tornar mais um espaço permanente de comercialização desse tipo de produção -, o Tendal abriga a Feira de Artesanato e Alimentação da Economia Solidária.

O espaço municipal de cultura é lugar de muitas atrações culturais e um ponto de encontro na região, oferecendo oficinas, cursos, apresentações de teatro, música, circo, entre várias atividades. Agora, os frequentadores passam a ter a oportunidade de ter contato também com essa outra cultura, produzida pelas mãos de trabalhadores e trabalhadoras que se associam numa nova economia.

A iniciativa é uma promoção da Unisol (Central de Cooperativas e Empreendimentos Solidários) e do Centro Cultural Tendal da Lapa, com as Secretarias Municipais de Cultura e de Trabalho e Empreendedorismo (SDTE), e apoio da cooperativa de alimentação União dos Sabores Solidários.

“Já tínhamos experiência com o Tendal da Lapa, as redes solidárias de artesanato e alimentação tinham participado de um evento lá, no ano passado, e gostaram. Começamos a negociar com eles a possibilidade de ter uma feira fixa da economia solidária naquele espaço. Em princípio, será aos sábados, das 9h às 18h. Já há uma programação extensa no espaço cultural, e a feira se soma muito bem. Será um mês em caráter experimental, e se tudo correr bem teremos um termo de uso de espaço assinado, para que a atividade se torne permanente”, diz Natália Toledo, educadora da Unisol que trabalha no projeto ‘Ecosol SP Como Estratégia de Desenvolvimento’, realizado em parceria com a SDTE.

Os empreendimentos que participaram da feira gostaram da experiência. É o caso de Juliana Valente, empreendedora que trabalha com produtos de cuidado, higiene e beleza naturais da Oyá Cuidados Naturais e avalia a atividade como importante para refletir sobre seu próprio empreendimento, produtos e público. “Havia um público grande, as vendas foram boas, e a troca com as pessoas me revelou coisas importantes. Eu trabalho com produtos muito específicos, nem todo mundo conhece e está preparado para consumir. O que mais vendi foram desodorantes e protetores labiais. Esses eu vendi praticamente todos que levei. Foi bom conversar com o público, popularizar o produto e mostrar uma forma diferente de consumir, sustentável. Mas outros tipos de produtos eu não vendi, então isso vai me ajudar a avaliar na prática a questão comercial, que é uma coisa que estou aprendendo com os cursos com a Unisol. Temos um grande caminho aqui e um baita potencial para construir um movimento interessante de economia solidária no Tendal da Lapa”.

Yeda Maria Amaral, do Nega Antônia, produz roupas e acessórios afro e já tinha participado de outras feiras de economia solidária no Tendal. “O público foi bom, o pessoal do Tendal foi muito atencioso, sempre atento às nossas necessidades. Não levei muitos produtos porque queria ver como funcionava, que tipo de público frequenta aquele espaço hoje, para então fazer uma avaliação para as próximas feiras. Foi muito interessante e minha expectativa para as próximas é excelente”, diz ela, que já pensa em promover oficinas para atrair ainda mais o interesse do público.

Christovam Cardoso, do empreendimento Chef Christovam, de alimentação, avalia que o piloto realizado no último sábado demonstrou ter um potencial muito bom para o futuro. Mas aponta a necessidade de “formar público, divulgar, mostrar o que é a feira, o artesanato e a alimentação solidários. Foi melhor do que imaginávamos. Fizemos um cálculo com o Tendal e no dia passaram por lá aproximadamente mil pessoas. Isso é muito bom”.

Todos esses empreendimentos passaram por formações no Projeto Ecosol SP como estratégia de desenvolvimento. “Esse evento no Tendal da Lapa acabou sendo um fechamento de ciclo, de poder colocar em prática o conteúdo dos módulos de capacitação em economia solidária. Isso mostra que o que propomos é viável, que é possível ter uma relação diferente com as pessoas, com o consumo, com a economia. Eles no início acham difícil, mas quando começam a surgir as oportunidades eles se organizam e dão conta. Digo que eles já estão com o avião ligado na pista, só falta subir”, diz a educadora Natália.

Ela aponta ainda que as oportunidades de comercialização para esses empreendimentos são fundamentais porque a geração de trabalho e renda dá base para terem tranquilidade para integrar as redes e participar de aprimoramento técnico oferecido pelos cursos do projeto. Nas próximas edições da feira no Tendal da Lapa, empreendimentos de outras áreas, como alimentação, poderão ser agregados.

A multiplicação de espaços públicos que proporcionem o contato com os produtos e as pessoas que fazem a economia solidária é importante para viabilizar a comercialização, para a troca de experiências e para a disseminação dessa cultura econômica.

Já falei, aqui no blog, de alguns desses espaços em São Paulo, como feiras da Rede de Saúde Mental Ecosol, que acontecem em parques municipais, e dos dois pontos de Ecosol, o Benedito, que fica na Praça Benedito Calixto, em Pinheiros, e o Butantã – que já completaram um ano em funcionamento. São espaços que oferecem, além de produtos e serviços da economia solidária, oficinas, cursos e programação cultural. No Ponto Butantã é possível também saborear um almoço saudável na Comedoria Quirim.

E tem mais uma coisa: a rede União dos Sabores Solidários, da qual falei também aqui, bem no início do blog, hoje já é uma cooperativa, um passo importante para a formalização. É muito bom ver a evolução e a persistência dos empreendimentos, o que mostra que a economia solidária é um caminho viável e fundamental para uma nova forma de produzir, consumir e estar no mundo, mais inclusiva e coletiva. São laboratórios que aos poucos se transformam em espaços permanentes de novas possibilidades.

Deixo aqui os endereços para quem quiser conhecer de perto as experiências em São Paulo:
– Ponto Benedito: Praça Benedito Calixto 112 – Pinheiros
– Ponto Butantã: Av. Corifeu de Azevedo Marques 250 – Butantã
– Centro Cultural Tendal da Lapa: Rua Guaicurus 1.100 | Rua Constança 72 – Lapa
– Feiras da Rede Saúde Mental Ecosol em parques municipais: acontecem em vários parques. Clique aqui e fique de olho no facebook da rede!

Foto: Nathalia Marangoni | Divulgação Projeto Ecosol SP

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colaborou com a revista Página 22, da FGV-SP, e com a Unisol Brasil. Hoje é conectora – trabalha linkando projetos e pessoas de todas as áreas na comunicação para um mundo melhor

Mônica Ribeiro

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colaborou com a revista Página 22, da FGV-SP, e com a Unisol Brasil. Hoje é conectora – trabalha linkando projetos e pessoas de todas as áreas na comunicação para um mundo melhor

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