Esculturas que entram de sola

escultura feita de pneus

E você acha mesmo que são só os feiosos mutantes a carregar esse não sei quê de esquisitice, anormalidade e dor? Olha bem para esses pneus esculpidos pelo coreano Yong Ho Ji. Eles já nem são mais tão pneus assim, na acepção da palavra. Quero dizer esses pneus, inventados em 1845 pelo Charles – e aí vai a publicidade gratuita – Goodyear, depois que ele descobriu casualmente o processo de vulcanização da borracha, quando deixou cair o material mais enxofre no fogão. Acho que fedeu bem e fez muita fumaça.

Mas, Goodyear não deve ter achado que sua oportuna invenção se transformaria num problema ambiental. A justificativa era boa: os bumbuns dos nossos antepassados estavam em frangalhos. Será que ele não percebeu que estava colocando os nossos na reta? Passamos, olha só que ótimo, a ter solavancos menos doídos com rodas não mais de madeira e ferro das carroças e carruagens.

Bor-ra-cha! Resistente e durável. Trans-por-te! Corfortável e funcional. Deslizamos enfurecidos pela comodidade nossa de cada dia.  Corremos atrás de menos passos, temos preguiça de andar duas quadras para chegar até a padaria. E viramos transformers de academias, corredores que não saem do lugar, ciclistas que imaginam montanhas nos gritinhos irritantes de “uhu galera, vamos lá”

Subida pesada essa nossa rumo ao fim anômalo, ao cume empilhado de um pesadelo sufocante: pneus! Algo como o que Yong Ho encontrou num terreno baldio perto de casa. “Um monstro, foi a minha primeira impressão. Na época, não hesitei. Decidi usar os pneus para minhas obras mutantes”, lembra o artista. O artista é ele, claro. Mas, temos os nossos méritos… Ele só esculpe os monstros que nós mesmos gestamos.

Quando criança Yong Ho teve chance de ver muito animal selvagem porque vivia fora da cidade. Yong Ho gosta de animais, embora não tenha um, digamos, confortável e bem apessoado pet em casa. O que o atrai mesmo são os tubarões, leões, búfalos, rinocerontes. São seus preferidos. Ele costuma dizer que esses bichos têm características fortes, mas trazem embutida uma tristeza. Como, nós, os “normais” seres humanos. Tenho para mim que ele não conseguiu ter um em casa e, de acordo com a lei da compensação, agora fica aí criando essas coisas pneumaticamente modificadas… E assustando a gente.

Portanto, cuide-se. Siga as recomendações abaixo senão o bicho-papão vai te pegar, a dengue vai te consumir, o Zika vai te infernizar. O bichinho que está aterrorizando por aí tem muito pneu para se proliferar. Hoje são descartados no país cerca de 17 milhões de pneus por ano. Um estudo feito pela Universidade de Vrije, na Holanda, descobriu que todos os dias são fabricados cerca de dois milhões de novos pneus no mundo. É muita coisa. Não dá para gastar um pouco mais de sola de sapato? Com sola de borracha reciclada, por favor!

E antes de terminar, algumas dicas para o descarte e uso correto de pneus:

– Mantenha os pneus em lugar abrigado ou cubra-os para evitar que a água entre e se acumule;
– Antes de jogar pneus num aterro, fure as carcaças para deixar escorrer a água ou corte-as em muitos pedaços, para diminuir o volume;
RECICLE porque: economiza energia – para cada meio quilo de borracha feita de materiais reciclados, são economizados entre 75% e 80% da energia necessária para produzir a mesma quantidade de borracha virgem (nova); economiza petróleo (uma das fontes de matéria-prima); reduz o custo final da borracha em mais de 50%;
REDUZA o consumo dos pneus, mantendo-os adequadamente cheios e alinhados, fazendo rodízio e balanceamento a cada dez mil quilômetros e procurar usar pneus com tiras de aço, que têm uma durabilidade 90% maior do que o normal.

Fonte: Recicloteca – Centro de Informações sobre Reciclagem e Meio Ambiente

 

Obras Mutantes feitas com pneus de Yong Ho Ji

escultura feita de pneus

Só no Brasil são descartados cerca de 17 milhões de pneus por ano

 

escultura feita de pneus

O artista coreano esculpe os monstros que nós mesmos gestamos com nosso descarte irresponsável

escultura-pneu-yong-ho-jiO impressionante dorso de touro feito por Yong Ho Ji


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Fotos: Divulgação Yong Ho Ji

Com arte, tá tudo bem. Se as exposições, peças de teatro, shows, filmes, livros servirem de gancho  para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, cronista, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além de repórter, foi produtora, editora e editora-chefe. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado. Seu mais recente projeto é o seu site pessoal

Karen Monteiro

Com arte, tá tudo bem. Se as exposições, peças de teatro, shows, filmes, livros servirem de gancho  para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, cronista, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além de repórter, foi produtora, editora e editora-chefe. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado. Seu mais recente projeto é o seu site pessoal

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