Esconderijos, cabanas e refúgios: os espaços privados das crianças grandes

Durante muitos anos meu refúgio predileto foi o telhado da minha casa. Eu subia na janela do meu quarto, pulava para a antena de metal que parecia um escada e escalava uns dez degraus até chegar à altura das telhas. Lá em cima eu procurava um bom ponto, onde nenhum adulto ou irmão pudesse me ver do quintal, e passava um longo tempo observando o mundo de cima. Não me lembro exatamente o que eu fazia por lá, mas sei que tinha entre 7 e 11 anos e precisava muito ficar sozinha ao ar livre.

O criador da teoria da biofilia, E. O. Wilson, considera que essa busca na qual as crianças se engajam com o objetivo de construir ou achar um lugar secreto e privado é uma característica fundamental da natureza humana, embora esse instinto tão primitivo ainda seja pouco compreendido e valorizado.

Há um pequeno livro escrito em 1993 por um dos maiores especialistas na relação entre a criança e a natureza que trata exatamente desse tema: Children’s Special Places – exploring the role of forts, dens, and bushes houses in middle childhood (David Sobel). Nele encontramos uma profunda investigação e suas consequentes interpretações sobre o papel que as cabanas, casas na árvore, esconderijos e tocas desempenham para crianças entre 7 e 12 anos. Os territórios de sua pesquisa são tão diversos quanto o interior da Nova Inglaterra nos EUA, Devon na Inglaterra e Carriacou no Caribe, e seus achados nos contam que, assim como foi para mim, o processo de descobrir ou construir um lugar especial ao ar livre é uma experiência ancestral que parece percorrer gerações de meninos e meninas mundo afora.

Uma das inferências mais bonitas que David Sobel faz é sobre porque essa busca por moldar o mundo e construir pequenos espaços para si é tão forte na fase que vai dos 7 aos 12 anos. Ele discute, sob a luz do modelo de desenvolvimento proposto por Joseph Chilton em A Criança Mágica, o movimento de expansão que a criança de 7 anos faz do território doméstico e familiar, simbolizado pela mãe, para então diferenciar-se de sua família e explorar a Matriz da Terra, frequentemente construindo uma casa para si no mundo natural.

O que me levou a perguntar “que oportunidades as crianças grandes de hoje têm para exercer essa pulsão tão instintiva e poderosa?”, “onde estão as cabanas, as tocas e os esconderijos das crianças atuais?”. Porque, apesar do cenário tão desfavorável, das tantas barreiras já descritas por aqui no Conexão Planeta para o livre brincar na natureza, minha percepção é que as crianças pequenas, de um jeito ou de outro, têm mais formas de saciar seu desejo pelo ambiente natural do que as crianças entre 7 e 12 anos.

Nós já contamos o exemplo das escolas de educação infantil que se propuseram a desemparedar as crianças em Novo Hamburgo/RS e a Rita Mendonça e a Ana Carol Thomé a descreveram recentemente, aqui no Conexão Planeta, no blog Ser Criança é Natural, o caso da escola Stagium, em Diadema/SP, que recebeu as crianças com água e terra no primeiro dia de aula. Mas e as crianças maiores?

Quando falamos de ensino fundamental, os exemplos diminuem drasticamente porque é esperado que, ao entrarem no primeiro ano, as crianças passem a se dedicar apenas a aprender os conteúdos dispostos no currículo e a  brincar exclusivamente nos 15 minutos de intervalo. O espaço que essas crianças encontram na escola muitas vezes se resume a uma quadra poliesportiva e o brincar fica limitado ao que pode ser feito nesse lugar.

Eu acredito que as crianças devem ir à escola para estudar e aprender. Mas também acho que as escolas devem se propor a oferecer o que falta na infância. Nos dias atuais, isso significa tempo e espaço para brincarem com meninos e meninas de diferentes idades entregando-se à aventura de fazer a si mesmo.

Em um dos últimos capítulos de seu livro-referência, David Sobel discute diversas formas através das quais a escola pode oferecer oportunidades para o exercício que ele chama de “place making”, algo como “fazer seu espaço”. Ele apresenta vários exemplos inspiradores, como o caso do professor da escola do Harlem, em Nova York, que levava alunos de 11 e 12 anos para explorar o Central Park, e com o tempo descobriu que  em vez das áreas mais “nobres” os alunos preferiam brincar nas áreas de descarte de podas, onde a diversidade de materiais era maior. Em poucas visitas eles estavam construindo suas cabanas e nenhum funcionário se incomodava se eles usassem paus ou galhos quebrados.

Aqui, no Brasil, eu conheço um exemplo notável, as cabanas da Escola Ágora em Cotia/SP. Há trinta e dois anos, crianças e jovens do primeiro ao nono ano “vêm construindo cabanas, numa articulação exclusiva entre pares, sem interferência ou ingerência de adultos”.

Segundo a fundadora da escola descreve em um artigo, os ingredientes principais para esse lindo exercício são “a quantidade de tempo dedicada à “hora livre”, tempo pós-lanche ou pós-almoço, em que os alunos podem circular livremente por um determinado espaço, sem a tutela de professores, ou de bedéis. A proibição de brinquedos vindos de casa, bem como de jogos eletrônicos e celulares, favorece e promove, de forma significativa, o espírito criativo das crianças, que encontram espaço e dispõem de tempo suficiente para ocupá-lo”.

E assim, a partir de uma farta oferta de materiais naturais, as crianças constroem cabanas, casas longe de seus lares, em jornadas de descobertas que são uma importante etapa no processo de conexão com o mundo natural ao seu redor. Nas palavras de uma ex-aluna que relembra seus anos na escola:

‘’Que saudade de construir cabanas no meio da floresta, de trabalhar com obras e sonhos, construir nossas próprias casas concretas por serem reais, de matéria bruta natural e poderosa, e encantadas por representarem um mundo inteiro, da cor, tamanho e cheiro que quiséssemos que fosse. …”

“Construir cabanas é lúdico e didático ao mesmo tempo, no melhor sentido de ambas as palavras. É experimentar matemática, física, arquitetura, engenharia, educação física, ciências sociais, biologia e tudo mais; é ser rei, rainha, índio, lenhador, astronauta, desbravador, cientista e sonhador. É ser criança.”

Exemplos como esse nos mostram caminhos para o estado da arte da educação, onde competências acadêmicas andam lado a lado com processos pessoais profundos e valiosos, a serviço de indivíduos comprometidos com sua trajetória no mundo nas esferas existencial, integral, pessoal e comunitária. Que possamos reconhecer e respeitar a necessidade das crianças grandes em achar um lugar só seu, lá fora, como um passo fundamental para tornarem-se as pessoas que desejam ser.

Foto: Banco de Imagens da Escola Ágora

Mãe da Raquel e do Beni, Engenharia Florestal e Mestre em Conservação de Ecossistemas, sempre trabalhou com educação e conservação da natureza. Desde 2015 é pesquisadora do programa Criança e Natureza do Alana.

Maria Isabel Amando de Barros

Mãe da Raquel e do Beni, Engenharia Florestal e Mestre em Conservação de Ecossistemas, sempre trabalhou com educação e conservação da natureza. Desde 2015 é pesquisadora do programa Criança e Natureza do Alana.

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