Escolha de atriz negra para interpretar ‘A Pequena Sereia’, da Disney, provoca manifestações racistas

A primeira imagem que vem à mente quando se pensa na protagonista da animação A Pequena Sereia, da Disney, de 1989, é a Ariel ruiva, de pele muito alva. Mas, na semana passada, os Estúdios Disney anunciaram a escolha de Halle Bailey, jovem atriz afro-americana, para viver a personagem no remake em live-action da história, ou seja: dar voz e personificar a sereia criada pelo escritor dinamarquês Hans Christian Andersen, no século XIX.

A garota é linda e tem um currículo bacana para assumir tal papel: atuou na série cômica Grown-ish, além de formar o duo Chloe x Halle, com sua irmã, com contrato na mesma gravadora da cantora Beyoncé, a Columbia Records. Mas isso não foi suficiente para evitar manifestações preconceituosas e racistas.

Não é a primeira vez que isso acontece e não será a última, mas esta é uma decisão interessante neste momento de tanta intolerância no mundo contra as diferenças. Uma decisão que ajuda a promover mais um debate sobre diversidade e a lembrar que o mundo não é feito nem dominado por pessoas brancas. Além disso, trata-se de um personagem místico, meio humano, que pode ser da cor que o leitor ou o espectador imaginar. Li no Instagram que gente revoltada com a escolha da Disney disse que não existe sereia negra. Oras, mas sereia existe?

Quem garante que Andersen concebeu sua Ariel branquinha e loira ou ruiva? E, se observarmos bem, veremos que a versão da Disney para esse conto revela que a locação não era a Europa, mas poderia ser o Caribe, na America Latina. Quer ver? No desenho, o caranguejo Sebastião (amigo inseparável de Ariel juntamente com Linguado) é jamaicano e ainda canta uma música no ritmo calypso. Pois então… uma pequena sereia negra é mais que perfeita nesta ambiência. Em qualquer uma, na verdade.

Para defender sua escolha, a Disney divulgou comunicado que chamou de carta aberta para as pobres e infelizes almas. Eis o texto:

“Sim. O autor original de ‘A Pequena Sereia’ era dinamarquês. Ariel… é uma sereia. Ela vive em um reino subaquático em águas internacionais e pode nadar onde quer que ela queira, mesmo que isso muitas vezes perturbe o Rei Tritão. Mas digamos que Ariel também seja dinamarquesa. As sereias dinamarquesas podem ser negras porque os dinamarqueses podem ser negros.

Os negros dinamarqueses – os mer-folk (raça de humanóides que podem viver debaixo d’água), também podem geneticamente (!!!) ter cabelos ruivos. Mas – atenção para o spoiler!! – o personagem de Ariel é uma obra de ficção.

Então, depois de tudo isso dito e feito, se você ainda não consegue superar a ideia de que escolher a incrível, sensacional, talentosa e linda Halle Bailey é uma inspiração para o elenco, e ainda pensa que ela ‘não se parece com a sereia do desenho animado, o problema é você”.

Em defesa de Bailey e da pequena sereia negra

Claro que nem todos concordaram com os racistas de plantão que detonaram Bailey. Seus fãs amaram, e não foram poucos os ilustradores que espalharam suas versões da nova pequena sereia pelo Twitter. Selecionei três entre os que mais gostei:

A atriz americana Halle Barry se declarou muito feliz com a escolha de Bailey para o papel e compartilhou uma foto da atriz no Twitter, dizendo: “No caso de você precisar de um lembrete… Halles, faça-o! Parabéns @chloexhalle por essa incrível oportunidade, não vemos a hora de ver o que você faz! #APequenaSereia #HalleBailey”.

A dubladora de Ariel na animação original, Jodi Benson, também aprovou a escolha de Bailey. O mais importante é contar uma bela história. Você deve olhar para aquilo que está dentro da pessoa. O espírito da personagem é o que deve ser levado em consideração. Não importa sua etnia, sua raça, seu país, sua cor de cabelo, se é mais alta, ou mais baixa.. Tudo o que precisamos é que os roteiristas e os diretores entendam a personagem, do fundo do coração”.

E, no Brasil, a Turma da Mônica se manifestou de forma positiva e rapidamente transformou sua personagem negra, Milena, em sereia, divulgando no Twitter:

Um 007 negro?

Recentemente, o ator negro Idris Elba passou por situação parecida com a de Halle Bailey. Logo que surgiram os primeiros rumores de que o ator Daniel Kraig faria seu último filme como o agente secreto James Bond, Elba (que trabalhou em filmes de ação e aventura como Thor, Velozes e Furiosos e Os Vingadores) foi apontado como o próximo ator britânico a assumir a saga de espionagem, geralmente vivida por atores ingleses brancos: Sean Conery, James Moore, Timoty Dalton….

Antes que ele se pronunciasse, as reações foram diversas e o racismo novamente deu as caras. Teve quem dissesse abertamente que ele não poderia assumir o papel por ser negro.

Elba ficou bastante decepcionado com a repercussão negativa, mas chegou a dizer que isso não influenciou sua decisão de não aceitar o papel. Para ele, seria marcante demais para sua carreira e o ator ainda quer assumir outros projetos.

Seja lá como for, não faz sentido que, em pleno século XXI, o tom da pele ainda defina a competência de alguém, ou por onde ela deve ou pode circular. Por isso, a visibilidade e o debate de temas como este no cinema, na TV, na literatura ou na publicidade – que influenciam tanta gente – são tão essenciais para que seja possível uma “virada” de comportamento, mais que urgente.

Fotos: Divulgação

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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