Escolas da Floresta: a construção do ser humano a partir de suas raízes naturais

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A maioria das correntes pedagógicas que inspiram muitas das melhores escolas de educação infantil está baseada em teorias que orientam o olhar e que podem ser profundamente inovadoras e transformadoras. Nas Escolas da Floresta, que atualmente têm nos atraído muito a atenção, parece não ser o caso.

Ao que tudo indica, elas se baseiam na exposição a ambientes naturais bem preservados e no olhar do educador que, bem treinado, consegue observar os fluxos que estão vivos nos movimentos e, a partir daí, tirar as conclusões necessárias para o desenvolvimento do seu trabalho.

Não encontramos referência (até o momento) de uma corrente pedagógica específica que as norteie, tal como elas vêm se desenvolvendo na Escandinávia, na Inglaterra e em alguns outros países inspirados nestas. Talvez isso se deva ao fato de ser um movimento muito novo, ainda sendo experimentado.

Tudo indica que essa opção, conhecida como fenomenológica, é a que está por trás da prática nestas escolas. Quando a Ana Carol – pedagoga que divide o projeto Ser Criança É Natural (Instituto Romã) e este blog comigo – perguntou à diretora de uma das escolas que visitou na Inglaterra sobre os marcos teóricos de sua prática, recebeu uma resposta muito clara: “Um botão de rosa tem tudo de que precisa para desabrochar em uma flor magnífica. Acelerar o seu processo vai danificá-lo para sempre. Mas se você lhe dá as condições corretas e o tempo necessário para o seu desenvolvimento, ela florescerá em sua única e própria magnificência”.

Minha interpretação desta explicação é que há uma percepção de que a criança vai desabrochar naturalmente (eu e Ana Carol também acreditamos nisso!) e que há algumas condições necessárias para isso, tais como:
– deixar que a criança seja a guia;
– ter profissionais treinados para dar suporte para as iniciativas das crianças, ajudando-as a aprender com a experiência;
– criar um ambiente de aprendizagem colaborativa;
– fomentar relações positivas, seja entre as crianças ou com os adultos e também com a natureza de forma que percebam que elas próprias e tudo ao seu redor são especiais e únicos.

Por trás disso, está também a percepção de que essa abordagem focada na natureza proporciona o desenvolvimento de um profundo e duradouro amor pela aprendizagem e pelo cuidado com os outros seres vivos.

Seguir os ritmos da natureza, adotar a lentidão própria de cada fase do desenvolvimento da criança e tomar decisões significativas para cada uma delas, além de criar um ambiente para que cada educador se torne um pesquisador reflexivo, para que tenha uma profunda compreensão de cada criança, são aspectos do dia a dia nessas escolas.

Segundo Julie White, diretora da Escola da Floresta Nature to Nurture, por meio de um ambiente amoroso, apreciativo e usando linguagem impregnada de elementos da floresta, a criança se sente segura para brincar e desenvolver habilidades fundamentais para a vida tais como a persistência, resiliência, curiosidade, criatividade e desenvoltura.

A postura do menos é mais permite que a imaginação e a criatividade da criança floresçam. Elas se tornam potentes aprendizes exploradores, com um nível muito alto de inteligência emocional. Os encontros são conduzidos pelas crianças, que se sentem livres para escolher o que fazer naquele dia. Os educadores são preparados para facilitar as questões de cada criança e lhe dar apoio, continuidade à brincadeira e aprendizado. Além disso, essa abordagem também desenvolve o senso de comunidade onde a aprendizagem colaborativa acontece diariamente.

Qual a visão de ser humano embutida nessa proposta? Correndo o risco de me projetar nessa resposta, penso que o ser humano, aqui, é entendido como sendo parte da natureza, como um aspecto dela, como uma oportunidade que a natureza tem de evoluir com consciência.

Deixar a criança ser quem ela é, promover o equilíbrio entre sua relação espontânea com o mundo e as conquistas de nossa cultura (tal como a tecnologia) é uma proposta arrojada, diria até revolucionária, pois desenvolve a autonomia no pensar, reduzindo em muito a vulnerabilidade a manipulações externas, tão intensas no mundo midiático atual. É uma visão que acredita que o ser humano pode expandir suas possibilidades indo além do que é possível controlar, seja no âmbito das famílias, da mídia e da política. É uma experiência de construção do ser humano que ainda estamos nos tornando, fundado em nossas raízes naturais. Ainda há muito a ser discutido a esse respeito. Aguarde os próximos posts!

Foto: Renata Stort

Bióloga e socióloga, é autora dos livros “Como Cuidar da Natureza” e “Conservar e Criar”, sócia-diretora do Instituto Romã e consultora do projeto Criança e Natureza do Instituto Alana. Ministra cursos, vivências e palestras para aproximar as pessoas do ambiente natural. Acredita que a criança é a natureza se tornando humana e, por isso, precisa conviver com ela para seu desenvolvimento sadio e integral.

Rita Mendonça

Bióloga e socióloga, é autora dos livros “Como Cuidar da Natureza” e “Conservar e Criar”, sócia-diretora do Instituto Romã e consultora do projeto Criança e Natureza do Instituto Alana. Ministra cursos, vivências e palestras para aproximar as pessoas do ambiente natural. Acredita que a criança é a natureza se tornando humana e, por isso, precisa conviver com ela para seu desenvolvimento sadio e integral.

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