Escamas de lagarto inspiram biocultivador para apartamentos


Todo pingo d’água que cai sobre certos lagartos é imediatamente direcionado para a boca. As gotas de sereno eventualmente formadas ao amanhecer, também. Ou qualquer outro tipo de névoa, neblina e vapor ao alcance da pele do animal, incluindo umidade do solo. Essa é a maneira peculiar de garantir o próprio suprimento de água de espécies adaptadas a regiões áridas: suas escamas têm um design exclusivo, com uma rede de micro canais direcionados para a boca, hiper eficientes no transporte de água, mesmo em quantidades mínimas.

O tal sistema de coleta de umidade foi cuidadosamente observado nas escamas do lagarto-espinhoso-do-texas (Phrynosoma cornutum) pelo pesquisador especialista em nanoestruturas Philip Comanns, da Universidade de Aachen, na Alemanha. Comanns reproduziu a estrutura das escamas em diversos materiais e publicou um artigo científico no Beilstein Journal of Nanotechnology, destacando o bom potencial para o desenvolvimento de equipamentos médicos e outras máquinas de transportar umidade.

Com base nos estudos de Colmanns, uma equipe de ecodesigners e engenheiros da Universidade Técnica de Zvolen (TUZVO), na Eslováquia, criou um novo conceito de biocultivador para sacadas de apartamentos, capaz de coletar chuva e umidade do ar, dispensando regas diárias. O usuário pode manter verduras orgânicas ou temperos no biocultivador, sem perder as plantas quando viajar ou caso esqueça de regar. O equipamento tem uma cúpula dotada da mesma estrutura das escamas do lagarto, que conduz a água coletada no ar para o substrato onde crescem as plantas.

O projeto ganhou o prêmio escolhido pelo público no Desafio de Design Biomimético de 2015. Motivada, a equipe se reestruturou para dar início a uma empresa e passar à produção de um protótipo. Cinco profissionais se envolveram no desenvolvimento: Zuzana Toncíková, professora de design de interiores na TUZVO, coordena o projeto e cuida do ecodesign; Dávid Lopusek é engenheiro e designer de produto; Miroslav Chovan cuida do design e comunicação visual; Frantisek Tóth é responsável pelo protótipo e Dávid Jurík faz o design em 3D. Recentemente Jaroslav Vido passou a integrar a equipe, como especialista em microclima.

“Uma ferramenta muito importante e útil durante o processo de design foi o AskNature (banco de dados do Biomimicry Institute, sediado nos Estados Unidos)”, ressalta Zuzana, em entrevista via internet. “Nossa equipe não tem biólogo, então encontramos no AskNature as informações técnicas sobre os possíveis usos de padrões da natureza relativos a funções predeterminadas, no nosso caso, relativas a captação, transporte e armazenagem de água ou umidade”.

Em um ano e meio, os pesquisadores eslovacos desenharam e redesenharam o biocultivador diversas vezes, até resolver os problemas conceituais. “Esperamos ter o primeiro protótipo funcional no verão de 2017 (dezembro, verão no Hemisfério Norte). A questão não é só de design e manufatura, mas também de engenharia, ciência, ergonomia, tecnologia e assim por diante”, reforça a pesquisadora. A TUZVO garantiu parte dos recursos e instalações necessários ao desenvolvimento e a equipe contou com apoio da Fundação Ray C. Anderson para o protótipo. A expectativa agora é chamar a atenção de investidores e oferecer o biocultivador inclusive para o mercado internacional.

A start-up dos pesquisadores foi considerada uma das três melhores na Eslováquia na categoria Arte e Design. Seu grande diferencial é apostar na natureza como fonte de inspiração, o que é a essência da Biomimética. “Eu e meus colegas somos viciados em Biomimética. Eu tento integrar a Biomimética em tudo o que eu estou trabalhando com meus alunos”.

Fotos: Ben Goowyn/CCWikimedia (lagarto-espinhoso-do-texas), Philip Comanns (escamas vistas ao microscópio) e divulgação (biocultivador)

Jornalista ambiental há mais de 30 anos, escreve sobre clima, ecossistemas, fauna e flora, recursos naturais e sustentabilidade para os principais jornais e revistas do país. Já recebeu diversos prêmios, entre eles, o Embrapa de Reportagem 2015 e o Reportagem sobre a Mata Atlântica 2013, ambos por matérias publicadas na National Geographic Brasil.

Liana John

Jornalista ambiental há mais de 30 anos, escreve sobre clima, ecossistemas, fauna e flora, recursos naturais e sustentabilidade para os principais jornais e revistas do país. Já recebeu diversos prêmios, entre eles, o Embrapa de Reportagem 2015 e o Reportagem sobre a Mata Atlântica 2013, ambos por matérias publicadas na National Geographic Brasil.

Deixe uma resposta