Erva-mate remove contaminantes da água e do ar

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Para os adeptos do chimarrão ou do tererê nem é preciso falar de outras propriedades interessantes da erva-mate (Ilex paraguaiensis). Eles já são fãs do sabor amargo e das atividades antioxidante e estimulante de sua bebida favorita. Mas as vitaminas e os minerais contidos nas folhas desse arbusto nativo da região Sul não são os únicos componentes para se prestar atenção. Polifenóis, xantinas e saponinas também colocam a espécie na mira dos pesquisadores, por seu potencial na produção de corantes, detergentes e na remoção de contaminantes da água e do ar.

A erva-mate é uma árvore de copa densa, folhas alongadas, flores pequenas e brancas e frutos vermelhos. Chega a 12 metros de altura, na região onde é nativa, ou seja, nos estados do Sul do Brasil e nos países vizinhos – Argentina, Paraguai e Uruguai. Nas áreas onde é cultivada, costuma ser mantida a uma altura máxima de 4 metros, por meio das podas constantes para facilitar a colheita. Apenas as folhas são utilizadas, para consumo em infusões quentes (chimarrão) ou frias (tererê).

Porém, com os ramos e os gravetos que sobram após a poda para retirada das folhas, é possível fazer o tipo de carvão usado em filtros antipoluição. Uma equipe da Universidade Federal de Lavras (UFLA) testou o carvão de erva-mate em escala laboratorial, para medir o potencial na remoção dos contaminantes, comparando os resultados com o carvão ativado disponível no mercado.

“Os testes mostraram um nível de adsorção semelhante à do carvão ativado comercial para contaminantes como o corante têxtil vermelho reativo, o corante azul de metileno e o herbicida atrazina”, resume Maraísa Gonçalves, agrônoma com mestrado e doutorado em Agroquímica e Agrobioquímica. Adsorção é a retenção de moléculas na superfície de sólidos (no caso, o carvão) por meio de interação química ou física. Os dois corantes foram escolhidos por serem os contaminantes mais comuns da indústria têxtil. E a atrazina causa a contaminação mais frequente em áreas agrícolas.

Maraísa fez os testes em seu trabalho de mestrado, com orientação de Mário César Guerreiro e Luiz Carlos Alves de Oliveira, ambos professores do Departamento de Química da UFLA. A pesquisa contou com recursos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig).

Por ter trabalhado também com materiais alternativos para filtros de máscaras individuais antipoluição e para uso em caso de ataque terrorista, Maraísa acredita que o carvão de erva-mate também funcionaria na remoção de contaminantes gasosos.

Segundo ela, esse ainda seria um material mais acessível e mais fácil de produzir do que o carvão ativado comercial, abrindo uma perspectiva de complementação de renda para os produtores de erva-mate. Em lugar de queimar ou jogar fora os ramos e gravetos, eles poderiam vender como matéria prima para fábricas de carvão, que dependem de processos relativamente simples e poderiam ser instaladas nas regiões produtoras.

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Fotos: CC US Botanic Garden (folhas de erva-mate); CC San Diego Botanic Garden (flores e frutos de erva-mate)

Liana John

Jornalista ambiental há mais de 30 anos, escreve sobre clima, ecossistemas, fauna e flora, recursos naturais e sustentabilidade para os principais jornais e revistas do país. Já recebeu diversos prêmios, entre eles, o Embrapa de Reportagem 2015 e o Reportagem sobre a Mata Atlântica 2013, ambos por matérias publicadas na National Geographic Brasil.

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