A era do carvão chegou ao fim

A era do carvão chegou ao fim

Por Délcio Rodrigues*

Nos últimos anos, 49 empresas carboníferas pediram falência em todo o mundo. Agora em abril foi a vez da líder global deste mercado, a Peabody Energy, seguir o mesmo caminho. Não se tratam apenas de falências empresariais ou de um solavanco econômico: estes são os sinais mais claros de que estamos vivendo o fim de uma era. A era do carvão chegou ao fim.

O fim do carvão está se dando de forma tão rápida que não conseguiu ser previsto por boa parte dos analistas econômicos. A combinação de mudanças no ritmo econômico de grandes consumidores, a competição com outras fontes e políticas ambientais cada vez mais restritivas, nascidas da necessidade de descarbonizar a economia até o fim do século, colocou uma pá de cal naquele que já foi o combustível mais barato da história da humanidade.

Invertendo uma longa série histórica, o comércio internacional de carvão tem caído nos dois últimos anos. O ponto de inflexão ocorreu em 2014, quando se observou a primeira queda absoluta dos volumes comercializados. Informações preliminares mostram que o mesmo deve ter se repetido em 2015.

O maior fundo soberano do mundo, o da Noruega, que acumula US$ 860 bilhões, anunciou em meados deste abril a primeira lista de empresas de mineração de carvão e de geração de energia com base nesse combustível que serão excluídas do seu portfólio de investimentos, seguindo um banimento do investimento em carvão determinado em fevereiro pelo governo daquele país. Entre as 52 empresas excluídas estão gigantes do carvão como a American Electric Power, a China Shenhua Energy, a indiana Tata Power e a Peabody Energy Corp. A exclusão é baseada no critério de não manutenção de investimentos em empresas que obtêm pelo menos 30% de seu faturamento em ativos carboníferos.

As importações de carvão da Índia diminuíram 15% em 2015 e, nas duas maiores economias do mundo, EUA e China, o quadro do setor é o mesmo: declínio de atividades, fechamento de minas e demissão de funcionários.

O declínio da indústria carbonífera nos EUA é resultado da competição com o gás natural e as fontes de energias eólica e solar, além das novas regras ambientais que buscam cortar as emissões de gases de efeito estufa daquele país. De acordo com a Agência Internacional de Energia, em apenas cinco meses, de novembro de 2013 a março de 2014, seis Estados – Michigan, Massachusetts, Kentucky, Alabama, Geórgia e Carolina do Sul – aposentaram termelétricas que, somadas, geravam 5,4 GW, eletricidade suficiente para abastecer mais de 3,5 milhões de casas.

Na China, as termelétricas a carvão estão operando com apenas 50% da capacidade instalada por conta da redução da demanda por energia elétrica e das políticas de limitação do uso de carvão em regiões próximas às grandes concentrações populacionais do leste do país. Há menos de um mês o governo central comunicou a 15 províncias que deveriam parar a construção de novas termelétricas a carvão. Agora, busca reduzir maciçamente a aprovação destas: de acordo com relatos da imprensa chinesa, a Agência Nacional de Energia vai introduzir um novo mecanismo que deve impedir sua construção em 28 das 31 províncias da China continental. A China também tem promovido fortemente fontes alternativas de energia como a solar, a eólica e a hídrica e é recordista global em investimentos em solar e eólica.

Carvão no Brasil

Na contramão do cenário internacional, o Brasil tem incompreensivelmente se aproximado do carvão. Enquanto o governo chinês limita a expansão das termelétricas a carvão em seu território, empresas chinesas investem nesta tecnologia suja em terras brasileiras: a Power China é sócia no projeto de construção de uma termelétrica a carvão de 600 MW orçada em US$ 1 bilhão em Pedras Altas, no sul do Rio Grande do Sul. Além dos chineses, os franco-belgas da Engie, que controla no Brasil a Tractebel Energia, constroem neste momento em Candiota, também no Rio Grande do Sul, a Usina Pampa Sul, de 680 MW e investimentos previstos de R$ 1,8 bilhão.

Os projetos de Pedras Altas e de Candiota vão na contramão das tendências mundiais do setor de energia e são questionáveis para os investidores no longo prazo, como inúmeros investidores e alguns líderes da indústria internacional de energia já perceberam. Ian Dunlop, ex-executivo de uma série de empresas de petróleo, gás e carvão, ao concorrer em 2014 à presidência do Conselho da BHP Bilington, uma das maiores mineradoras mundiais, afirmava que sua plataforma era a necessidade da BHPB tomar a liderança no enfrentamento dos riscos e oportunidades que as mudanças climáticas apresentam para os acionistas da empresa.

Sobre o desaparecimento da Peabody Energy, Dunlop disse que o episódio destaca uma mudança estrutural fundamental, que é a rápida remodelagem dos mercados energéticos mundiais em resposta às mudanças climáticas induzidas pelo homem. Segundo Dunlop, essa mudança só vai se acelerar dado o alarmante aumento médio da temperatura global. Em todo mundo, o movimento de desinvestimento no carvão já superou a marca dos US$ 3,5 bilhões e continua avançando.

Os investimentos em carvão em solo brasileiro surpreendem tanto por irem na contramão do mundo – e das metas assumidas no acordo climático que ajudamos a construir em Paris no final do ano passado – como pelo fato de não fazerem o menor sentido do ponto de vista econômico. O País tem uma das matrizes energéticas mais limpas do planeta, tem recursos naturais em praticamente todo o seu território e também tecnologia para aumentar a oferta de eletricidade a partir de fontes mais limpas e modernas como a energia dos ventos e a energia solar.

Assim como em outros setores, temos que planejar nossa matriz energética olhando para a frente e não para o passado. A era do carvão, símbolo da revolução industrial iniciada em meados do século XVIII, chegou ao fim. Nossa geração está tendo o privilégio de testemunhar a aurora de uma nova era na história da humanidade: a era das energias limpas e renováveis. Com tamanho potencial, o Brasil não pode se furtar a ser um dos protagonistas desse movimento. Não podemos mais admitir que ainda se cogite o uso de carvão para produzir energia em nosso país.

*Délcio Rodrigues é físico, consultor da área de clima e membro do Conselho do Instituto Vitae Civilis. Este artigo foi publicado em 02/05/2016 no site do Observatório do Clima.

Foto: stevepb/Pixabay

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