Entidades da conservação protestam contra novo presidente do ICMBio, aliado dos ruralistas

“Como você reagiria se, para a presidência do Banco Central, fosse nomeado um politico sem NENHUMA experiência em economia? Ou se, para técnico da seleção brasileira de futebol, fosse indicado um jovem politico que nada entende sobre o assunto?”. Esse é o início da carta que os servidores ambientais escreveram – e as entidades divulgaram maciçamente em suas redes – para mostrar à sociedade seu desagravo com a nomeação de Cairo Tavares, do Partido Republicano pela Ordem Social (PROS), para a presidência do ICMBio – Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade. Para sua divulgação nas redes sociais, usam a hashtag #NãoAoRetrocessoAmbiental.

Como se não bastasse sua falta de experiência em gestão socioambiental, Cairo é sócio de uma distribuidora de bebidas em Goiás e Secretário de Formação Política do PROs, partido que defende a agenda do agronegócio.

As duas indicações recentes feitas para a presidência do ICMBio – sim, o vice-presidente do PROS já havia sido indicado para o mesmo cargo – foram apoiadas pela bancada ruralista, oficialmente conhecida como a Frente Parlamentar da Agricultura na Câmara. Tentaram emplacar Moacir Botelho, mas ele foi denunciado na Operação Lava Jato. Por conta disso (e da amizade com os ruralistas), os servidores do ICMBio fizeram diversos protestos para evitar sua nomeação. Mas a indicação de Cairo vingou, por enquanto.

Com a carta – que você pode ler no final deste post, na íntegra – as instituições que fazem a gestão de Unidades de Conservação (UCs) pelo país querem sensibilizar os cidadãos brasileiros para a vulnerabilidade, cada vez maior, dessas áreas, mais ainda tendo à frente desse órgão pessoa tão incapacitada.

Pra quem não sabe, o ICMBio foi criado em 2007 para preservar o patrimônio natural do Brasil e está vinculado ao Ministério do Meio Ambiente. Sua missão é implantar, gerir, proteger, fiscalizar e monitorar as Unidades de Conservação (UCs) da União. Também é de sua responsabilidade “executar programas de pesquisa, proteção, preservação e conservação da biodiversidade“, como relata seu site. Mas não é só! O ICMBio tem poder de polícia ambiental na proteção das UCs federais.

Sendo assim, dá pra imaginar alguém – comprometido com deputados corruptos e que têm interesses excusos nas UCs -, responsável pela gestão dessas terras?

Por isso que, além da carta, hoje, os Parques Nacionais da Tijuca, IguaçuSerra dos Órgãos, Brasília, Itatiaia e Fernando de Noronha permaneceram fechados por uma hora, das 11h às 12h, como forma de expressar o descontentamento de todos que neles trabalham com a nomeação de Cairo e chamar a atenção da sociedade. Os servidores do ICMBio também prometeram realizar ato de protesto durante a posse do nomeado. Abaixo, alguns registros da mobilização nos parques.

Agora, leia a íntegra da CARTA ABERTA À SOCIEDADE, divulgada pela Rede Nacional Pro-Unidades de Conservação:

“Como você reagiria se para a presidência do Banco Central fosse nomeado um indicado político sem NENHUMA experiência em economia? Ou se para técnico da seleção brasileira de futebol, fosse indicado um jovem político que nada entende sobre o assunto?

Pois foi assim, com total assombro, surpresa e revolta que fomos supreendidos hoje com a indicação de um nome meramente político, sem NENHUMA formação profissional ou qualquer experiência sobre meio ambiente para a presidência do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade – ICMBio.

Após a entrega política de algumas Coordenações Regionais e chefias de Unidades de Conservação do Instituto Chico Mendes, desta vez o Governo Federal pretende  nomear para a presidência do ICMBio um apadrinhado político, o senhor Cairo Tavares de Souza, pertencente ao PROS, para a presidência do ICMBio.

O  indicado a presidente do Instituto  é diretor da Fundação Ordem Social, ligada ao PROS e sócio de uma empresa de comércio varejista de bebidas em Valparaíso de Goiás. Inacreditavelmente não consta que tenha QUALQUER experiência em gestão socioambiental.

O ICMBio é responsável pela gestão de 333 Unidades de Conservação que correspondem  a 9 % do território continental e 24% do território marinho, bem como a coordenação e implementação de estratégias para as espécies ameaçadas de extinção. Uma missão como esta não pode ser entregue a dirigentes sem experiência na área socioambiental, por mera conveniência política.

O Instituto Chico Mendes tem em seus quadros profissionais concursados, capacitados, qualificados, que vem atuando de forma comprometida, sempre dentro da legalidade, garantindo uma gestão transparente, ética, e voltada à execução da política ambiental pública e aos direitos garantidos na Constituição, de manutenção do equilíbrio ecológico do meio ambiente, bem de uso comum do povo, dentro de suas atribuições.

Desde sua criação, sempre foi presidido por profissionais com experiência na área socioambiental, imbuídos da missão institucional do órgão que trouxeram grandes conquistas na sua capacidade de atuação , como poder executivo, na implementação da legislação ambiental vigente.. Em um contexto de imensa fragilidade das políticas públicas, a possibilidade da nomeação do Sr. Cairo Tavares coloca em risco o bom desempenho da missão institucional do ICMBio.

Diante do exposto, os servidores do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade repudiam veementemente a possibilidade de nomeação do Sr. Cairo Tavares como Presidente deste Instituto,  ou de qualquer outra nomeação baseada em interesses políticos contraditórios ao interesse público e à missão do ICMBio.

Chamamos a sociedade civil a se unir a esta luta, em prol da proteção do patrimônio natural e promoção do desenvolvimento socioambiental. Não passarão! #Nãoaoretrocessoambiental!”.

Foto: Arquivo Pessoal (selfie de Cairo Tavares divulgada nas redes sociais) e Divulgação do movimento (funcionários do Parque Nacional do Iguaçu)

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na Claudia e Boa Forma, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, considerado o maior portal no tema pela UNF. Integra a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade.

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na Claudia e Boa Forma, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, considerado o maior portal no tema pela UNF. Integra a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade.

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