Ensinamentos festeiros


Como é gostoso bolo de avó! Muitas vezes, fazer bolo com a avó significa prolongar-se numa jornada de várias horas. A criançada se junta na cozinha, observa cada passo da receita e lambuza mãos e bocas com os ingredientes. Depois, centramos a atenção no forno, acompanhando o tempo do transformar. Finalmente, saída a obra do forno, coroamos a jornada com aquela espera ingrata para o bolo esfriar.

Bolo, assim, tem sabor de vida vivida. Alimenta-nos com o saber ancestral das receitas de família. Não se trata somente de comer o bolo, mas de viver a experiência de todo o processo de fazê-lo. São momentos de saber que a gente pertence.

As culturas populares são como famílias estendidas: tudo ali também tem sabor de vida vivida. Varrer um espaço, preparar instrumentos, fazer figurinos, ensaiar… são tantos os papéis a cumprir. Vivenciar o mesmo processo de diferentes perspectivas faz com que participar de uma festa de capoeira, jongo, bumba-meu-boi, seja um ato de pertencimento: reforça o quanto essa pessoa que cuida pertence a uma comunidade, e o quanto essa comunidade é feita também por ela. As crianças, assim como com o bolo de vó, experimentam livremente os sabores e saberes, da sua relação com o mundo.

O documentário Terreiros do Brincar  (assista ao trailler no final deste post), lançado este ano pelo programa que leva o mesmo nome – com direção de Renata Meirelles e David Reeks -, ilumina o fazer e o viver das festas populares brasileiras, e a essencial participação das crianças nelas. Ele está disponível para exibições gratuitas na plataforma VideoCamp.

O filme traz uma maneira bem brasileira de viver. Atenta para a necessidade de (re)aprendermos a educação com base nos saberes dessas comunidades tradicionais, que resistem às sucessivas tentativas de invisibilização. O aprendizado centrado na liberdade e pertencimento é uma grande contribuição para transformar o modelo atual de ensino que ocorre em nossas escolas.

Os grupos de cultura popular têm pessoas de todas as idades, em diferentes tempos de envolvimento com a arte, onde processos de ensino-aprendizagem estão onipresentes. Assim como nos ciclos da natureza, quando vou a uma festa, encontro um ritual igual ao do ano passado. Mas eu sou outro em meu devir e, portanto, tenho uma experiência totalmente diferente. Viver a mesma festa pelos olhos de quem se transformou é estruturante e formativo, sobretudo para as crianças, em sua condição particular de desenvolvimento.

Acompanhando o lançamento do filme na Ciranda de Filmes, mostra de cinema com foco em infância e educação (a última edição aconteceu em maio), notei comentários de várias pessoas que saíam da sessão, surpresas por descobrirem que essas festas “ainda acontecem no Brasil”. A sociedade em que vivemos nos convida, diariamente, para afastarmo-nos dos processos das coisas para experimentá-las prontas.

Às crianças, particularmente, tiramos a oportunidade de vivenciar os processos das coisas, os ciclos, as demoras, as paciências. O brinquedo feito pelas próprias mãos, fruto de várias tentativas, erros e acertos, é substituído por um pronto, cuja origem e história ela desconhece.

Em muitas das festas populares brasileiras, as relações também deixam de ser de pertencimento e passam a ser de consumo. Os desafios e os aprendizados que se tecem nos meses de preparo e de organização de uma festa (ou de um simples bolo) são reduzidos a uma relação comercial e os vários papéis a serem ocupados simplificam-se em dois: quem paga e quem é pago. E, aos poucos, nossa alma alegre e festeira, que aprende brincando, vai ficando séria, mais preocupada com a performance do que com os caminhos e sabores.

Existem muitos exemplos desse sequestro das festas populares pelo consumismo. O Carnaval, que apesar de ainda ser meio de difusão cultural do samba e de convergência das comunidades, saiu das ruas e passou a ocupar o Sambódromo, espaço conhecidamente elitizado. Foi um prelúdio do que ocorreu com o Boi de Parintins, com o Forró de João Pessoa e tantos outros – onde é mais bem-vindo quem tem ingresso. Nas festas juninas, o afastamento das origens nos permite substituir o tradicional forró pé-de-serra – historicamente tocado para celebrar Santo Antônio, São João e São Pedro – por músicas country, funk ou sertanejas.

O documentário Terreiros do Brincar nos oferece uma lembrança de que, sim, as festas tradicionais ainda fazem ressoar muitos batuques no Brasil. Vamos refletir sobre como oferecer às nossas crianças mais processos do que resultados? Mais pertencimentos do que posses? Sinta agora a mensagem, pelo trailler:

Foto: Divulgação/Terreiros do Brincar

Filósofo e mestre em educação e ética, é especialista em gestão das diferenças. Viveu por mais de dez anos em Moçambique, onde trabalhou como educador e gestor de projetos educacionais. Atualmente integra a equipe de ‘Educação e Cultura da Infância’ no Instituto Alana. É também pai do Cauã e do Ipê, brincante, viageiro e quase careca

Gabriel Limaverde

Filósofo e mestre em educação e ética, é especialista em gestão das diferenças. Viveu por mais de dez anos em Moçambique, onde trabalhou como educador e gestor de projetos educacionais. Atualmente integra a equipe de ‘Educação e Cultura da Infância’ no Instituto Alana. É também pai do Cauã e do Ipê, brincante, viageiro e quase careca

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