Enfim, vendo a onça beber água

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O desejo de observar uma onça em vida selvagem é um dos maiores entre fotógrafos de natureza no Brasil. Um dos símbolos máximos da fauna latino-americana, esse elusivo felino é quase um fantasma. Em 32 anos passados aqui no planeta Terra, já tinha ouvido todo tipo de causo, lenda, história de pescador e, claro, muita mentira sobre esse bicho. Com mais de dez anos de carreira trançando por tudo que é mato Brasil afora, tive poucos encontros e todos eles furtivos – fosse cruzando estradas, aparecendo como vultos em beira de rios, ou mesmo esturrando próximo a algum acampamento.

E foi nas margens do rio Cuiabá que o grande encontro aconteceu. Já se passavam poucos anos desde que o turismo de observação de onças no Parque Estadual do Encontro das Águas tinha começado a se estabelecer. Me planejei por dois anos para fazer essa viagem, mas, em função de outros projetos, tive que adiá-la. Em 2011, finalmente, consegui conciliar uma viagem com uma esticada pela Transpantaneira até o Porto Jofre, ponto final dessa maravilhosa estrada, onde ela encontra o caudaloso rio Cuiabá.

Chegamos já era noite na pousada. A ansiedade tomava conta e o despertador já estava programado para às 4h. Às 5h já estávamos embarcados. Partida no motor, vento frio castigando o rosto. Em poucos minutos, todo o desconforto inicial da saída era recompensado por um amanhecer com nuvens vermelhas no céu do Pantanal. Os olhos funcionavam como um radar, examinando cada canto dos barrancos em busca da textura amarela com rosetas pretas.

E assim transcorreu o dia, milhares de jacarés, capivaras, aves aquáticas e algumas famílias de ariranhas e macacos. Onça que era bom mesmo, nada! A preocupação começava a tomar conta: teria apenas mais dois dias ali na beira do rio e aquela certeza de que ia ver o bicho se esvaia em pensamentos negativos que tomavam conta da cabeça por conta do cansaço.

Voltávamos com a potência total no motor, já na boca da noite, quando avistamos um barco parado às margens do rio com um farol aceso iluminando algo. Assim que entramos na linha paralela à da tal luz, os dois olhos imensos brilharam e pudemos ver o amarelo do seu pelo. Sim, era ela. A onça-pintada!

O coração saltou à boca e tive me conter para conseguir pensar em uma solução técnica rápida para resolver aquele que poderia ser meu primeiro registro do bicho. Assim que consegui regular os ajustes da câmera, ela me deu esse presente: chegou à beira do rio e começou a beber água.

Formado em jornalismo, o fotógrafo João Marcos Rosa se especializou em registrar temas ligados à vida selvagem e à conservação, trabalhos que o levaram a correr o mundo atrás de boas e fascinantes histórias. Colabora com as revistas National Geographic Brasil, BBC Wildlife, GEO e Terra Mater. Autor dos livros “Harpia” e “Fauna de Carajás”, vive em Nova Lima (MG) e é um dos sócios da agência Nitro Imagens.

João Marcos Rosa

Formado em jornalismo, o fotógrafo João Marcos Rosa se especializou em registrar temas ligados à vida selvagem e à conservação, trabalhos que o levaram a correr o mundo atrás de boas e fascinantes histórias. Colabora com as revistas National Geographic Brasil, BBC Wildlife, GEO e Terra Mater. Autor dos livros “Harpia” e “Fauna de Carajás”, vive em Nova Lima (MG) e é um dos sócios da agência Nitro Imagens.

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