Enegreça-se

Recomendação para ler esse post:

Entre escurecimento – finalmente – da foto do nosso grande escritor Machado de Assis e embranquecimentos que continuam sendo abusivos demais na sociedade atual, vou lendo contos que têm personagens negros e escravos.

Machado nem escreveu tantos contos com esse tema, mas os que escreveu foram marcantes. Minha leitura e meu post são entremeados e ilustrados por paradas para lembrar o show da cantora, compositora e poeta Brinsan Ferreira N’tchala, que vi na Sociedade 13 de maio, em Curitiba.

Não me saiu da cabeça. Fui assistir com o André Mathias, videomaker e fotógrafo, que aceitou registrar o espetáculo para que eu pudesse compor o post. 

Enquanto vou falando dos contos que li do Machado de Assis, tamvou me lembrando das máscaras africanas que vi numa exposição meio que jogada no canto do Museu Oscar Niemeyer (MON), também em Curitiba. 

“Jogada” por várias razões. Não que não se deva aproveitar cada cantinho do Museu. Mas, convenhamos: colocar máscaras realmente marcantes, tão próximas umas das outras, numa pequena parede, é no mínimo desvalorizar a força de cada uma delas.

As imagino numa das grandes salas do museu encimando totens, revisitando desordens, trançando novas ordens. Sob a minha curadoria, a exposição teria uma sala escura para que os interessados pudessem assistir ao vídeo de uns 50 minutos ou mais sentados e não em pé, no corredor de passagem para a rampa de acesso a outro andar. Ou a telona só estava lá para fazer bonito?

Vou reproduzir algumas máscaras aqui, mais abaixo, juntamente com sinopses dos contos do Machado e com poemas e letras de música da Brinsan. É um post longo para você refletir, degustar, ir lendo aos pouquinhos, sem a pressão de ter que acabar.

Olha cada história triste trazida pelos contos… Pedi para a Brinsan me enviar um poema ou música dela que, de alguma forma, remetesse a cada conto. 

Você pode aproveitar para procurar o livro do Machado que tem os contos. Aí lê um por dia, vem no post, lê a arte da Brinsan e depois fica sabendo um pouquinho das máscaras africanas. É a proposta de um início de mergulho no grito para tentar assolar a desigualdade e preconceito. Que tal?

Conto PAI CONTRA MÃE
A escrava grávida que havia fugido perde o filho depois de ter sido entregue ao dono.

Brinsan no show na Sociedade 13 de maio, em Curitiba, ao lado da dançarina Tamysa Corrêa, Laremi Paixão, os músicos e percussionistas Tony Blake, Hyago Reis e Tike. Ambos do Grupo Canjão e antigos integrantes do Grupo Afro Cultural KA-NAOMBO.

Poema É MUITA TRETA, PRETA
Brinsan : do Balanta, Verdade Arquivada

Se liga que a preta atravessou o atlântico pra criar várias tretas
Treta: ato de incomodar algo ou alguém
Demorou pra eu entender
Que só por existir
Eu já incômodo você
Num país que fez um plano pedagógico e político para nos esconder:
Teoria do branqueamento, imigração européia, apagamento
Tentaram me impedir de nascer
Tentaram me impedir de viver
Só seria aceita se fosse pra te atender
Nas suas necessidades mais básicas:
De vassoura na mão ou com a bunda pelada
Mulata exportação
E-X-P-O-R-T-A-ÇÃO!
De pessoas! De mulheres! SOA SUAVE
Porque é de mulheres negras
Essas aí sempre estiveram à venda
No mercado em que a escravidão 
Pra nós não acabou não
A preta não é gente, é só a diversão
Pras mentes doentes, cérebros racistas em ação
Vou queimar os seus circuitos internos
E nem preciso de muito pra isso
Basta que eu abra a minha boca ou pegue a caneta
Porque pra um país de pessoas racistas
Que esperam de nós, no máximo sermos passistas
Qualquer atitude de uma preta
Pra eles é muita treta!

Máscara Kore

Escultura em madeira e folha de latão – Povo Marka. República do Mali

Máscara utilizada por jovens da associação Ndomo que atua promovendo a socialização por meio de ritos de passagem e controle social.

… E o filho da preta, aquele que nem nasceu, que nem teve tempo de participar de algum rito de passagem.

Conto O CASO DA VARA
Lucrécia, descrita como “negrinha magricela”, com 11 anos não escapa da vara quando o seminarista fujão Damião opta por não protegê-la, apesar do apreço e pena. Prefere agradar a família e, egoisticamente, garantir sua permanência longe do seminário.

Tamysa Correa, representando Iansã, a senhora dos ventos e das tempestades.

Música: NÃO DESISTE

Não desiste negra não desiste
Não desiste negra não desiste
Não desiste negra não desiste
Não desiste negra não desiste 
Pare, 
respire, 
descanse e depois se levante
2x

Não desiste negra não desiste 
Não desiste negra não desiste
Não desiste negra não desiste
Não desiste negra não desiste

Pare, 
respire
Descanse e depois se levante
2X

Não desiste negra não desiste
Não desiste negra não desiste
Não desiste negra não desiste
O teu corpo aqui na terra insiste

(Mudando o ritmo)
Não desiste negra não desiste
Não desiste negra não desiste
Não desiste negra não desiste
Essa alma ancestral existe

(Incisiva)
Não desiste, 
não desiste
Não desiste, 
não desiste
Não desiste,

não desiste
Não desiste
Preta ce existe

Não hesite
Não hesite
Não hesite em viver
Em mostrar tua palavra 
E apontar quando doer

Não hesite em dizer
Apontar quando doer
Não hesite em dizer
Apontar quando doer

Cada bala que foi ferida
Cada palavra boca maldita
De machista ouuu de racista
Será revertida
Será revertida

É Xangô que veio trabalhar
O machado aqui a me saldar
Kaô kabiecile
E viva todos os Orixás 
Viva todos os Orixás
E viva todas as Orixás 
O nome que não pode ser dito
É de Yami Oxorongá

Só mulher pode dizer
Só preta pronunciar
Essa Orixá tão bela 
Yami Oxorongá

Então 
Não desiste negra
Não desiste
Não desiste
Nãoooo …(barra vento sem ser dobrado)

Não hesite em apontar 
sempre que alguém te ferir
Não hesite em apontar
Se alguém te silenciar

Não hesite em gritar 
se alguém te apertar
Não hesite em xingar
Se alguém te maltratar

Não hesite negra não hesite
Não hesite negra não hesite
E não desiste negra não desiste
Porque em você a luz existe

Não hesite 
Não hesite
Não hesite 
Eu vejo você vive

SE NINGUÉM NUNCA TE DISSE
PRETA, VOCÊ EXISTE!

Máscara Gueledé

A função das máscaras chamadas gueledé é a de celebrar a potência feminina homenageando uma associação homônima de mulheres idosas. Os dançarinos e mascarados gueledê são homens que dançam com o objetivo de honrar essas mães anciãs.

... Evocar a força das anciãs, preta. Um dia, preta, um dia, mais homens hão de honrar sua força. Não desistir. Resistir.

Conto MARINA
Sobre a negra que se apaixona pelo sinhozinho e se suicida.

Laremi Paixão, representando Oxum,  orixá, a rainha da água doce, dona dos rios e cachoeiras.

Poema ME DEIXEM AMAR

Me deixem amar
Me deixem amar
De todos os lados só vejo negação,
Proibição
Como se meu corpo vivesse em eterna escravidão
Mesmo após a abolição
Eles dizem quem eu devo amar
Me proíbem de me apaixonar
A cor da minha pele me impede de amar?
Sou negra e não posso amar um branco
Eles me julgam, e eu aos prantos
Ninguém sabe da minha dor
Por ter que negar e esconder um sentimento
Por não poder expressar o amor
Isso me consome
E entre a dor do quase amor
E do julgamento
Me despeço da vida
E faço do túmulo
O meu lamento

Máscara Igbo

Os igbo vivem no sudoeste da Nigéria, sendo um dos maiores grupos culturais desse país. A cultura artística desse povo é muito rica e ela varia conforme as diferentes cidades e aldeias onde vivem na Nigéria. O sentido do uso desse tipo de máscara está ligado ao culto ancestral. Uma das maneiras de manifestar respeito aos mortos é portar em festivais organizados em datas prefixadas o uso de máscaras com face branca, produzida por uma tinta natural (caolim) à base de uma espécie de argila chamada Nzu, na língua igbo (UKAEGBU, 1996, p.168). Segundo Victor lkechukwu Ukaegbu (1996, p.290) “o giz branco usado em uma variedade de medicamentos, saudações ritualizadas e também usado como maquiagem em máscaras e serviços religiosos tradicionais”. Do ponto de vista físico, o uso de caolim na face refere-se à palidez ancestral, pois como boa parte dos grupos africanos a cor branca é associada à ancestralidade. A associação masculina Mmo, no norte da igbolândia conduz os iniciados nas cerimônias fúnebres em honra dos ancestrais falecidos. O objetivo é a indução dos espíritos que partiram a fim de que possam proteger a aldeia. Más direcionamentos das práticas religiosas poderiam provocar o efeito oposto, fazendo com que essas figuras perturbassem o equilíbrio existente causando danos ao grupo.

…Usar máscaras em respeito a todas as negras que não puderam amar…

Conto ESPELHO
Um Alferes  chega para cuidar de uma casa e os negros todos fogem. Ele se vê sozinho brigando com o que ele classifica de sua alma exterior e interior.  

Espelhar a essência…

Poema: SER QUEM SOU

Na coragem de ser quem sou
Levando a cada célula do meu corpo amor
Levando a cura e a transmutação
A minha, das minhas ancestrais
E das minhas irmãs
Por séculos silenciadas
Pela branquitude com seu silêncio gritante
Na tentativa constante
De amordaçar e escravizar
Nossos corpos e pensamento
Nosso espírito e sentimento
Pintando brancas mentiras
De cabelos loiros, escuros ou ruivos
De pele clara
Pintando a mentira da inferioridade negra
Da superioridade branca
Mentiras que eu destruo
Elas, que foram como venenos
Implantados à força nas minhas células
Mas que bem no fundo do meu coração
Eu sabia que eram mentiras
Ainda que o veneno me fizesse mal
Me fizesse quase cair, sem forças
Lá no fundo eu ouvia
Eu sentia
Eu via
Que havia
Que há
Que haverá
Uma negra Mulher, Menina e Anciã
Me mostrando o caminho à clareira
Ao fogo sagrado em que se encontra
A história verdadeira
Das minhas ancestrais
Da minha pulsação ao ouvir
O som dos atabaques, da tina
A verdade de Titina Silá
A verdade de Teresa de Benguela
A verdade de Adalgiza, de Adília André Ferreira, da Dona Regina Hermes
A verdade de N’zab Willa, de Claudia Maria
A verdade que LIBERTA
Da negritude negada
Dos açoites travados à força
E da beleza invisibilizada desde sempre
Eu reconheço a beleza que de mim emana
O amor que de mim pulsa
A vida, a terra, o som, a cor
Voz da Consciência
Que por tempos foi adormecida
Mas que das minhas entranhas
Sempre ressoou:
A consciência da liberdade
E da honra de ser quem eu sou
Mulher Negra, Mulher-Amor.

Máscara Yaurê

A principal característica das máscaras yaurê é a representação antropo-zoomorfa, isto é, uma mescla da representação de uma face humana com um animal encimada, geralmente, por um antílope.

O antílope é considerado um dos seres primordiais. O uso da máscara de antílope, então, criaria um laço entre o mascarado e o poder ancestral. Sua função principal é ser utilizada em funerais, representando os espíritos conhecidos como yu. Eles seriam os intermediários entre o ser supremo Bali e a humanidade, ajudando a pacificar discórdias.

Devido a semelhanças linguísticas, no passado, os yaurê foram tratados como um sub-grupo dos baulê, algo que foi rejeitado em estudos mais recentes. Em suas máscaras observamos um alongamento da face e uma gestualidade dos lábios como se pronunciasse um “u”.

Embora seja um grupo relativamente pequeno, com cerca de 40 mil pessoas (2012), os yaurê apresentam muitos aspectos únicos em sua arte. Uma característica formal que distingue a máscara yaure da baulê, por exemplo, é a tendência daquela em se utilizar de bordas geométricas nas laterais da face, chamadas “barbas”. 

Na busca da força ancestral, do complemento animal, uma forma de se enxergar, de buscar outros espelhos, de acordar, de refletir a força interna adormecida.

Conto JOGO DO BICHO
Fala  da boa negra. Ela garante que  vai com a patroinha – já que a criou – se essa se casar. Lá no meio do conto tem um negro que sempre joga  na borboleta

Voar.

Música: PANTERA NEGRA

Morte prematura, vivo na amargura
Vejo a vida dura, não sei o que é ternura
Sou aliciada, sou esculachada
Diga ó pátria amada o que vim fazer?
Se saio na rua toda com postura
Sou aliciada sempre por você
Mas se eu resisto, grito não me toque,
Sou a preta suja, quem vai te querer?
Esse é o machismo que eu sinto na pele, bem na minha ele
Justo por eu ser negra, negra
E serei até morrer
Oprimida, reprimida e excluída
Sempre esquecida
Mas lembrada pra faxina na sua casa
Oprimida, reprimida e excluída
Sempre esquecida
Mas lembrada se é pra ir pra cama
Sempre ouvir dizer que eu se quiser crescer
Devo me esforçar em ser a Globeleza
Ou então me contentar com seus cargos de limpeza

Ontem ama de leite
Hoje sirvo apenas para seu deleite
É a branca pra casar
Com a preta na rua de mãos dadas nem pensar (bis)

Dentro e fora do rap
As pretas são as guerreiras
Seguram as pontas solteiras

Dentro e fora do rap
As pretas são descartadas
Os manos querem as mais claras

Esse é o racismo, é forte é incisivo
Que opera na mente bem como um vício
Tira minha beleza, joga na sarjeta
Já sim MV não tem paquita preta
O preto quer ser branco, o branco ainda mais branco
Eu vejo e me espanto, onde isso vai parar?
Tenha orgulho negro!
A consciência não pode parar!
Meu cabelo Black
Um punho forte cerrado
É o poder meu legado
Meu cabelo Black
É tão fera que é pra cima

É alto como a auto estima
Meu cabelo Black
Não alisa sou pantera negra
Muita melanina
Meu cabelo Black

Black, black
Black, black
Black

Máscara djimini

Essa peça é uma versão mais abstrata da máscara que combina feições humanas com um pássaro (calão) que se curva por sobre o rosto, a partir da testa da figura. Para muitos povos da Costa do Marfim, o pássaro calão é considerado um símbolo da fertilidade.

O termo Yangaleya (ou Yangeleya) é utilizado tanto para a dança e para a máscara, quanto para o pássaro.

Formalmente as máscaras faciais djimini apresentam o mesmo aspecto geral. O que muda, por vezes, é a representação do pescoço e bico do pássaro, mais ou menos estilizado, mais ou menos naturalista, a depender da antiguidade, escultor e cidade de onde proveria a peça.

Decorações na lateral do rosto normalmente associadas à sinuosidade de barbas ou à sua abstração na forma de zigue-zague são heranças ou influências estilísticas provindas da cultura senufo e remetem à importante figura do ancião. Já o olho curvo vazado e pequeno e o inusitado gesto do pássaro sobre o rosto são convenções estéticas típicas dos djimini. 

Asas para conquistar novos espaços, novos mundos. Máscara para parir coragem de seguir em frente, rugindo feito pantera.

Exposição “África, Mãe de Todos Nós: Conexão entre Mundos”

Data: até 25 de agosto
Horário: terça a domingo, das 10h às 18h
Local: Museu Oscar Niemeyer (MON) – Hall térreo
Endereço: Rua Marechal Hermes, 999 Curitiba
Ingressos: R$ 20 (inteira), R$ 10 (meia-entrada) e quartas gratuitas
Maiores informações no site do MON

Fotos André Mathias (show) e Artyou Storyes (máscaras)

Karen Monteiro

Com arte, tá tudo bem. Se as exposições, peças de teatro, shows, filmes, livros servirem de gancho  para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, cronista, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além de repórter, foi produtora, editora e editora-chefe. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado. Seu mais recente projeto é o seu site pessoal

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