Encontro marcado

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Foram oito anos de espera por uma imagem. De certa forma, algo dentro de mim já havia desistido de procurar por aquela cena, mas, ao mesmo tempo, o destino confabulava para que eu fosse ao encontro dela. Início de julho de 2012. Eu tinha acabado de celebrar meu aniversário para seguir em viagem ao encontro da pesquisadora Tânia Sanaiotti, em Cuiabá. De lá seguiríamos para a Serra das Araras para monitorar um ninho de harpia que o Programa de Conservação do Gavião-Real acompanhava.

Chegamos ao nosso destino – a Pousada Currupira D’Araras – para o almoço. À tarde, fizemos uma visita de reconhecimento ao local e fomos recepcionados pela imponente fêmea de harpia em uma árvore seca. Eu nunca visitara um ninho no Cerrado e a proximidade com aquela águia me trouxe bons pressentimentos sobre o período que teríamos pela frente.

No dia seguinte, chegamos cedo ao jatobá que abrigava o ninho. Na primeira luz da manhã, já pude fazer uma bela foto da fêmea levando em seu bico um galho para o ninho. Passamos ali o resto do dia; o mesmo fizeram a fêmea e seu filhote que não saíram mais do conforto de sua casa.

Um dia depois, logo cedo nos despedimos de Tânia. Seguimos – eu e o biólogo Renato Soares Moreira – para mais um dia de monitoramento. Fomos ao mirante que dava a visão do vale e do ninho. Lá percebemos a imponência do jatobá escolhido pelo casal. Sempre me encantei pelas árvores elegidas por essa espécie. Emergentes em meio a qualquer tipo de vegetação, são bichos que planejam muito bem onde criarão seus filhotes.

Chegamos ao pé do ninho, no meio da tarde. O filhote estava sozinho e chamava por seus pais. Esperamos ali por cerca de duas horas até que Renato viu, ao longe, um grande vulto. Binóculos à mão, constatamos que era um dos pais e que este trazia uma presa em suas garras. O coração veio na garganta. Analisei o possível trajeto que ela poderia fazer em direção ao ninho e localizei uma janela no meio da vegetação, que talvez me desse a chance de fazer a foto.

O tempo começou a passar e nada de a harpia se movimentar. O sol já dava sinais de que iria se esconder atrás da Serra. Foi, então, que o bicho saltou do galho! Acompanhei seu voo por trás das árvores esperando pelo momento em que ele entraria na janela. E, como num sonho, cruzou o céu batendo as asas, no único local em que eu poderia ter aquele bicho inteiro no quadro da foto.

Quando adentrou a mata, eu nem precisei checar a imagem no visor da câmera. Tinha certeza do que estava registrado. Daí foi só dar um abraço no amigo e estampar um sorriso que não saiu do rosto por dias.

Formado em jornalismo, o fotógrafo João Marcos Rosa se especializou em registrar temas ligados à vida selvagem e à conservação, trabalhos que o levaram a correr o mundo atrás de boas e fascinantes histórias. Colabora com as revistas National Geographic Brasil, BBC Wildlife, GEO e Terra Mater. Autor dos livros “Harpia” e “Fauna de Carajás”, vive em Nova Lima (MG) e é um dos sócios da agência Nitro Imagens.

João Marcos Rosa

Formado em jornalismo, o fotógrafo João Marcos Rosa se especializou em registrar temas ligados à vida selvagem e à conservação, trabalhos que o levaram a correr o mundo atrás de boas e fascinantes histórias. Colabora com as revistas National Geographic Brasil, BBC Wildlife, GEO e Terra Mater. Autor dos livros “Harpia” e “Fauna de Carajás”, vive em Nova Lima (MG) e é um dos sócios da agência Nitro Imagens.

Um comentário em “Encontro marcado

  • 21 de setembro de 2015 em 3:12 PM
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    Gente, essa história parece saída direto de um livro desses que unem o real com o fantástico: jatobás, harpias, vigílias, janelas na vegetação e sorte…. Estou encantada! Grata pela descrição, consegui visualizar a cena com detalhes!

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