Encontrei um bebê passarinho, e agora?

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As mais de 9 mil espécies de aves espalhadas pelo globo, apesar de sua enorme variedade de tamanho e comportamento – do pequeno beija-flor à enorme ema -, se reproduzem praticamente da mesma forma há milhares de anos: com fecundação interna, postura e incubação de ovos.

Como acontece com os répteis, os ovos das aves precisam ser incubados, ou seja, mantidos aquecidos até o nascimento dos filhotes. Depois de saírem dos ovos, os filhotes permanecem no ninho recebendo alimento e proteção de um ou ambos os pais, o que varia de espécie para espécie.

No Brasil, os pequenos e indefesos filhotes das aves denominadas canorasaquelas que utilizam o canto para se comunicar, reproduzir e defender seu território -, como os Sabiás, os Sanhaços e os Bem-te-vis, levam, em média, duas semanas para eclodirem dos ovos e outras duas semanas para deixarem seus ninhos.

Isso ocorre geralmente entre os meses de outubro e dezembro e, por isso, é comum encontrarmos aves jovens em ruas arborizadas, parques ou jardins.

Aí, você pode pensar que aquele bebê passarinho que não voa muito bem, aparentemente perdido ou abandonado pelos pais precisa de ajuda, certo? E, por isso, quase sempre nosso primeiro impulso é o de adotar aquela criaturinha indefesa e tentar criá-la. Mas, na maior parte dos casos, a jovem ave não precisa de nenhuma ajuda. Tirá-la do seu habitat prejudica mais do que ajuda porque interferimos no seu processo de desenvolvimento.

Mas eis algumas dicas preciosas para você saber o que fazer nesta situação:

1. Observe se a ave apresenta algum sinal de machucado ou trauma físico grave.
– Se sim, coloque-a, com delicadeza, em uma caixa de papel fechada com alguns furinhos para circulação de ar e a encaminhe imediatamente ao setor ou secretaria da prefeitura de sua cidade, responsável por animais silvestres. Alguns exemplos: Centro de Zoonoses, Divisão de Fauna Silvestre ou CETAS – Centro de Triagem de Animais Silvestres;
– Se a ave não apresenta nenhum tipo de machucado aparente, certifique-se se ela está mesmo bem: veja se ela consegue se agarrar aos seus dedos:
— Se sim, o melhor a fazer é colocá-la em um galho acima do solo e se afastar do local;
— Mas, se a ave não movimenta as pernas, é provável que seja um filhote que caiu do ninho. Neste caso, faça uma busca cuidadosa pelo ninho, caso não o encontre basta improvisar um novo, podendo inclusive ser utilizado um ninho em forma de tigela comprado em loja. Acomode o filhote o mais rápido possível e se afaste.

2. Você ainda pode ficar observando para ter certeza de que o filhote não foi abandonado. Mas, provavelmente, não: a maioria dos filhotes encontrados assim são, na verdade, aves jovens que acabaram de sair do ninho e, por isso, não são tão ágeis quanto as adultas. Os pais certamente estão observando com cuidado toda a movimentação e, tão logo você se afaste, voltarão a alimentar o filhote como antes.

3. Aliás, é um mito pensar que as aves podem sentir nosso cheiro e, que abandonariam um ninho por este motivo. A maioria das aves possui olfato pouco desenvolvido e são incapazes de detectar qualquer tipo de mudança no cheiro do ninho ou dos filhotes.

4. É altamente recomendado, por inúmeros especialistas, que você evite adotar uma ave silvestre. Entre outros motivos, está o fato de que criar um filhote é uma tarefa muito difícil e com poucas chances de sucesso. Filhotes de aves precisam ser alimentados, imprescindivelmente, a cada 15 ou 20 minutos, do nascer até o pôr-do-sol. No caso de recém-nascidos, este processo pode demorar semanas. Além disso, as aves adultas ensinam aos jovens como procurar comida, como evitar predadores e como se comunicar.

5. Nós humanos não estamos preparados para compartilhar com as jovens aves um manual completo de sobrevivência na natureza como seus pais biológicos. Sem as habilidades certas, as aves podem acabar morrendo em decorrência da falta de preparo para a vida livre. Além disso, aves criadas por humanos aprendem a se socializar com humanos, em vez de se entenderem com outras aves. Assim, se tornam dependentes e vulneráveis.

6. Por último, é preciso lembrar que criar aves silvestres é contra a lei. Aquele que o fizer pode ser enquadrado na Lei de Crimes Ambientais (Lei Nº 9.605) que considera crime contra a fauna a manutenção de animais silvestres em cativeiro sem a devida permissão, licença ou autorização da autoridade competente.

Mas afinal de contas, por que as aves deixam a segurança e o conforto de seus ninhos tão cedo? Simples: diferente do que você pode pensar, ninhos não são seguros, muito pelo contrário! Por isso, é extremamente perigoso para os filhotes permanecer em um mesmo local por semanas: predadores e parasitas como mamíferos e moscas podem encontrar facilmente um ninho pelo seu odor.

Por este motivo, os pais trabalham duro para criar seus filhotes e torná-los aptos a deixar o ninho o mais rápido possível. Desta forma, as aves adultas podem levar os jovens para diferentes locais aumentando significativamente as chances de sobrevivência das novas gerações.

Agora, observe atentamente, no vídeo abaixo, um filhote de Sabiá-laranjeira explorando seu habitat. É lindo!

Foto: Sandro Von Matter

Pesquisador em ecologia e conservação, jornalista ambiental e fotógrafo de natureza, investiga questões sobre o topo das florestas tropicais e as fascinantes interações entre animais e plantas. Hoje, à frente do Instituto Passarinhar, é um dos pioneiros em ciência cidadã no Brasil, e desenvolve projetos em conservação da biodiversidade e restauração ecológica, criando soluções para tornar os centros urbanos mais verdes.

Sandro Von Matter

Pesquisador em ecologia e conservação, jornalista ambiental e fotógrafo de natureza, investiga questões sobre o topo das florestas tropicais e as fascinantes interações entre animais e plantas. Hoje, à frente do Instituto Passarinhar, é um dos pioneiros em ciência cidadã no Brasil, e desenvolve projetos em conservação da biodiversidade e restauração ecológica, criando soluções para tornar os centros urbanos mais verdes.

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