‘Encauchados da Amazônia’: saber da floresta, inovação e design em peças únicas

Uma técnica de impermeabilização de tecido com o uso do látex, originada na cultura indígena da Amazônia, unida a tecnologias adaptadas e fibras vegetais, é a alma do trabalho da Encauchados da Amazônia.

Acrescente a isso o envolvimento de dezenas de comunidades tradicionais, entre povos indígenas, seringueiros, ribeirinhos, quilombolas e assentados da reforma agrária, e imagine o tamanho do impacto que essa iniciativa alcança. Os homens colhem o látex e produzem a borracha com uma parte dele, e outra parte é repassada para mulheres, que fabricam artesanato e comercializam, obtendo renda própria.

A partir da realidade da desvalorização e desmonte do mercado da borracha na Amazônia, que deixou seringueiros sem apoio e forçou em muitos casos a migração para periferias de cidades, veio a ideia do fundador do Encauchados da Amazônia, Francisco Samonek.

O negócio nasceu como projeto de mestrado de Francisco na Universidade Federal do Acre, que hoje conta com duas patentes concedidas e tornou-se uma tecnologia social.

Baseado no estado do Pará, o negócio envolve cerca de 75 comunidades extrativistas e mais de 80 famílias. Além de tudo isso, o processo elimina todos os ativos derivados do petróleo no processamento da borracha, que são substituídos por produtos naturais como óleo vegetal, cera de carnaúba, estearina vegetal e outras cargas vegetais provenientes de resíduos da agroindústria – açaí, muru-muru, castanha, andiroba, dentre outros.

O produto ponta de linha da Encauchados da Amazônia é uma sandália de dedos muito macia, bonita e cheirosa por conta do uso da fibra do açaí (veja na foto de destaque deste post). Outros itens produzidos são a linha de folhas, que inclui um centro de mesa em forma de vitória-régia (foto abaixo), descanso de mesa, além agendas, porta trecos, bolsas de mão, bags para eventos e camisetas.

“Conseguimos fazer com que os seringueiros sejam empreendedores e produzam, em nível de campo, uma borracha melhorada. Assim, eliminamos a parte mais cara e poluente da cadeia produtiva da borracha, que é a usinagem. Para a limpeza de cada quilo de borracha uma usina de beneficiamento usa 10 litros de água. Nós não usamos água. O seringueiro produz uma borracha limpa e com pouca umidade, que segue direto para a produção”, aponta Francisco.

Lauro Samonek, filho de Francisco que recentemente se uniu à Encauchados na coordenação administrativa, diz que o que mais o encanta no negócio é ajudar as pessoas: “Promover o empoderamento dos comunitários, gerando não só trabalho e renda, mas também felicidade, é o que me move”.

Produtos cheios de design, histórias e sustentabilidade, que promovem uma conexão direta com uma Amazônia moderna, que valoriza a sociobiodiversidade. O trabalho da Encauchados pode ser encontrado em pontos de venda em Belém, Recife, Belo Horizonte, Florianópolis, São Paulo e Rio de Janeiro. E também na loja virtual.

A iniciativa participa atualmente do Programa de Aceleração da Plataforma Parceiros pela Amazônia, que promove oficinas, mentorias, assessoria jurídica e contábil, de marca, além de fomentar a conexão com outros pares do ecossistema de negócios de impacto.

Mulheres de diversas comunidades que criam os produtos lindos da Encauchados da Amazônia

Fotos: Encauchados da Amazônia

Mônica Ribeiro

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colabora com a revista Página 22, da FGV-SP e com a Plataforma Parceiros Pela Amazônia, e atua nas áreas de meio ambiente, investimento social privado, economia solidária e negócios de impacto, linkando projetos e pessoas na comunicação para um mundo melhor

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