Emilie Snethlage, cientista pioneira no Brasil: uma mulher inspiradora

Post 18 - Blog Avoando (autor: Sandro Von Matter)

Dia Internacional da Mulher foi ontem e o mês será de celebrações. E esta é uma boa oportunidade para buscarmos inspiração em mulheres tão extraordinárias quanto revolucionárias, pessoas que mudaram os rumos da história, quebraram paradigmas, transpuseram barreiras e influenciaram gerações. O blog Avoando não poderia ficar de fora, por isso, conto aqui um pouco da trajetória de uma dessas mulheres.

É provável que poucas pessoas tenham ouvido falar sobre ela, mas esta verdadeira heroína do mundo das aves certamente deixaria aventureiros da ficção como o Indiana Jones para trás em um piscar de olhos. Henriette Mathilde Maria Elizabeth Emilie Snethlage, ou simplesmente Emília Snethlage como gostava de ser chamada, era uma mulher muito à frente do seu tempo.

Se, hoje, alguém ainda pode se equivocar e dizer que viajar sozinho é algo extremamente perigoso e pouco recomendado para mulheres, você pode imaginar como seria em 1909? Bem, ela pouco se importava com afirmações deste tipo. E foi assim que ela deixou sua marca na história dos naturalistas que exploraram as florestas brasileiras, coordenando diversas expedições por todo o país e chegando até locais onde nenhum homem havia pisado.

Em uma de suas mais emblemáticas aventuras, narrada em 1910 no  Boletim do Museu GoeldiEmilie partiu de Vitória carregando uma espingarda, um mapa (detalhe em imagem abaixo) e um diário rumo a Amazônia, acompanhada apenas por poucos índios, membros das nações Curuahés e Chipayas.

Em 1909, aos 41 anos, a heroica ornitóloga seguiu para uma região nunca antes percorrida por um branco, em uma travessia a pé, entre os rios Xingu e Tapajós que, duraria nada menos que 4 semanas, pelo interior da desconhecida Floresta Amazônica. Alguns anos depois, essa travessia seria mencionada com admiração por pessoas como o ex-presidente norte-americano Theodore Roosevelt e por um dos maiores ornitólogos da época, o alemão Erwin Stresemann.

emilie-snethlage-primeira-mulher-estudiosa-de-aves-mapa-1Mas, para Emilie – assim como para centenas de mulheres que lutam por seus ideais -, as superações em sua vida começam muito antes de suas aventuras. Nascida em 13 de abril de 1868, em Kraatz bei Gransee, Brandenburgo, ao norte de Berlim, a pequena menina ficou órfã de mãe aos quatro anos de idade e, foi educada em casa pelo pai.

Antes de se tornar pesquisadora de renome internacional, trabalhou por mais de dez anos como governanta, na Inglaterra, na Irlanda e na própria Alemanha e, somente após receber uma pequena herança, em 1899, já com mais de trinta anos, conseguiu realizar seu sonho e ingressar em uma universidade. E isso só foi possível, graças a luta incansável dos movimentos pela igualdade e direitos civis femininos, que pressionaram as universidades alemãs para começar a aceitar, oficialmente, a matrícula de mulheres em seus cursos.

Começava aí a longa jornada de Emilie, em uma carreira brilhante de cientista, ingressando na universidade de Berlim, no curso de História Natural.

Mas, apesar de aceitar a matrícula de mulheres, as universidades impunham às estudantes condições extremamente abusivas e restritivas. Na época, as alunas – Emilie incluída – deviam obrigatoriamente chegar aos auditórios quinze minutos antes do início das aulas e, literalmente, se esconder atrás de um biombo. Não era permitido a elas manifestarem-se de nenhuma forma durante a aula, e deveriam deixar o local apenas depois de transcorrido um quarto de hora do final da apresentação. A justificativa dos coordenadores dos cursos era de que a presença de uma dama poderia “distrair” os cavalheiros presentes.

Foi assim, enfrentando inúmeros preconceitos absurdos, que as primeiras mulheres cursaram a universidade na Alemanha. Emilie nunca se deixou intimidar por essas normas, muito pelo contrário. Após finalizar o curso de História Natural, em 1904, completou seu doutorado – summa cum laude ou com a maior das honras, literalmente – com uma tese sobre a inserção e origem da musculatura no corpo dos artrópodes, ilustrada com duas pranchas de desenhos feitos por ela.

Assim que completou seus estudos, a agora ‘doutora Snethlage’ começou a trabalhar na área de Zoologia do Museu de História Natural de Berlim, sob as ordens de seu diretor, o ornitólogo alemão Anton Reichenow. Após um ano e meio de atuação, Emilie tomou conhecimento, por Reichenow, de uma vaga para um profissional de zoologia em um museu da América do Sul, mais precisamente em Belém do Pará. Assim, a naturalista se candidataria a um cargo que mudaria sua vida para sempre.

No Brasil, foi uma das maiores cientistas e escreveu obra de referência sobre ornitologia

Na época, o Museu Paraense, sob coordenação do zoólogo suíço Emílio Goeldi, passava por profunda reestruturação, como parte de um projeto audacioso que tinha como um dos principais objetivos publicar obra de referência internacional sobre os animais do Brasil, uma espécie de “enciclopédia sem precedentes na literatura zoológica do país”.

Para cumprir este objetivo, Goeldi buscava contratar profissionais em início de carreira, mas que já atuavam em instituições de renome da Europa. Pessoas que, na maioria dos casos, eram solteiras e não teriam problemas para se mudar para outro país e que, segundo ele, poderiam “acomodar-se em instalações relativamente simples”.

Este era o caso de Emilie Snethlage, contratada pelo zoólogo no ano seguinte, ao término de seu doutorado. Em agosto de 1905, a destemida ornitóloga alemã, então com 37 anos, chegou ao Brasil para ser assistente em zoologia. Foi a primeira pesquisadora a ser contratada como funcionária pelo estado do Pará.

De 1905 a 1929, ela não apenas participou, mas liderou dezenas de expedições científicas por todo o país, colecionando viagens, histórias e descobertas. Visitou regiões naturais e bacias hidrográficas ainda hoje pouco conhecidas, como algumas áreas dos rios Marajó, Tapajós, Tocantins, Maecuru, Xingu, Jamundá, Iriri, Curuá, Negro, Santo Antônio do Prata, Doce, Araguaia e Madeira, além de localidades da região sul do país, do Rio de Janeiro, Maranhão, Minas Gerais, Bahia e Mato Grosso.

O espírito aventureiro de Emilie sempre foi uma das características mais marcantes de seu legado. Este espirito é ilustrado pela muitas histórias registradas sobre a vida da pesquisadora, como a que aparece descrita em uma troca de correspondências entre os ornitólogos alemães Charles Hellmayr e Erwin Stresemann.

Durante uma de suas expedições à região amazônica, em 1914, em uma viagem pelo Rio Iriri, afluente do Xingu, enquanto navegava em uma canoa a remo, Emilie brincava com a mão nas águas do rio, quando foi mordida no dedo por uma piranha (Roseveltiella piraha). A pioneira ornitóloga rapidamente tentou salvar o que havia restado do dedo do meio da mão direita, mas com o avanço da infecção e, sem outra alternativa, tornou-se necessário amputá-lo. Mas, como nenhum dos membros da expedição se disponibilizou a ajudá-la, ela não teve outra escolha e cortou parte do dedo sozinha.

Emilie Snethlage tornou-se uma das maiores cientistas do Brasil e, em 1914, publicou obra o Catálogo de Aves Amazônicas, na qual a pesquisadora inventariou 1.117 espécies de aves, um livro que se transformaria na principal referência para os estudiosos da ornitologia brasileira durante os setenta anos seguintes. Além disso, a Dra. Snethlage compilou dados, fez inventários faunísticos pioneiros, descobriu espécies novas e descreveu cerca de 60 espécies e subespécies, estabelecendo as bases dos estudos sobre a Biogeografia de aves no Brasil.

Neste mesmo ano, assumiu a direção do Museu Goeldi, cargo que ocupou até 1921, sendo uma das primeiras mulheres, na América Latina, a exercer a direção de uma instituição científica. Em 1922, transferiu-se para o Museu Nacional do Rio de Janeiro, para assumir o cargo de naturalista-viajante. Tornou-se membro atuante da Academia Brasileira de Ciências e da International Society of Woman Geographers.

O inestimável conjunto da obra científica de Emilie Snethlage teve grande repercussão, não apenas na zoologia internacional como, também, no próprio processo de institucionalização da Ciência no Brasil, sendo uma das primeiras mulheres cientistas a atuar no país, antes da fundação das universidades na década de 1930.

Com 61 anos, partiu em mais uma de suas aventuras: uma nova expedição para percorrer o Rio Madeira, o único dos grandes afluentes ao sul do Amazonas que ainda não tinha explorado. Antes de partir, comentou com o então diretor do Museu Nacional, o antropólogo e etnólogo Roquette-Pinto, “Esta será minha última viagem”. Ela faleceu durante a expedição, em 1929, na cidade de Porto Velho, no dia 25 de novembro.

Em 1985, o ornitólogo Helmut Sick, considerado o mais importante pesquisador de aves do país, dedicou a Emilie Snethlage sua principal obra: o renomado livro Ornitologia Brasileira. Em 2002, os pesquisadores Joseph e Bates, deram o nome da ornitóloga a uma nova espécie de ave – Pyrrhura snethlageae ou tiriba-do-madeira (foto abaixo) -, atualmente ameaçada de extinção devido ao desmatamento na Amazônia.

Para finalizar este post, indico a leitura da última carta de Emilie Snethlage para seu irmão (traduzida para o português), escrita em Porto Velho, em 4 de novembro de 1929, exatamente três semanas antes do seu falecimento. A carta foi publicada por seu sobrinho, Heinrich Snethlage, na revista científica Journal of Ornithology, em seu necrológio, sob o título Meine Reise durch Nordostbrasilien (Minha Viagem pelo Nordeste do Brasil) e, posteriormente, traduzida para o português pela pesquisadora Miriam Junghans.

Imagens: Arquivo Guilherme de La Penha/MPEG e Bruno Rennó Birding Tours.

Sandro Von Matter

Pesquisador em ecologia e conservação, se dedica a investigar questões sobre o topo das florestas tropicais e as fascinantes interações entre animais e plantas. Hoje, à frente do Instituto Passarinhar, é um dos pioneiros em ciência cidadã no Brasil, e desenvolve projetos em conservação da biodiversidade e restauração ecológica, criando soluções para tornar os centros urbanos mais verdes.

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