Embalagem de salgadinho… Recicla?!

embalagem de salgadinho

Salgadinhos, chocolates, cafés, biscoitos, bolachas, ovos de chocolate, barrinhas de cereais e rótulos de garrafas PET enchem as prateleiras dos mercados e têm uma coisa em comum: o BOPP. A sigla é o nome daquela embalagem de plástico que envolve esses e outros produtos muito consumidos ao redor do mundo. O material é ótimo para conservar alimentos, pois evita o contato do produto com gases atmosféricos, variações de temperatura e umidade. Outras vantagens incluem a facilidade de coloração, impressão e o fácil deslizamento pelas máquinas, melhorando assim o rendimento da produção. Quer mais uma coisa boa? É totalmente reciclável.

A sigla BOPP vem do termo bi-axially oriented polypropylene, que significa película de polipropileno biorientada. O nome se deve ao estiramento que o material sofre no processo de extrusão para ser produzido, que é tanto no sentido longitudinal quanto transversal. A película é formada por duas capas exteriores de polímeros, copolímeros, aditivos e uma camada interna de homopolímeros e material reciclado. Basicamente, plástico. A película pode ser transparente, branca, perolada ou mate e algumas embalagens têm uma lâmina de alumínio, o que dá o aspecto metalizado.

Todos os tipos de BOPP são recicláveis e o reprocessamento do material não emite gás perigoso. Infelizmente, porém, o fato do material ser reciclável não garante que vai ser reciclado. Este é o maior problema do BOPP, pois a grande maioria das cooperativas não recolhe o material. As alegações incluem a deficiência de mercado, com poucos compradores, e a sujeira das embalagens.

A falta de informação sobre a possibilidade de reciclagem deste material também pode levar cooperativas e recicladoras a deixá-lo de lado. Um relatório do Centro de Tecnologia de Embalagem (CETEA/ITAL) diz que somente duas empresas recicladoras no estado de São Paulo reciclavam BOPP no fim da década passada e somente o material de origem industrial, como rebarbas e sobras de filmes.

A baixa reciclagem também se dá devido à má identificação das embalagens plásticas. Segundo outro artigo do CETEA/ITAL e da Faculdade de Engenharia Química (FEQ/UNICAMP), apenas metade das embalagens avaliadas tinham o símbolo de identificação da resina (um triângulo formado por três setas) e destes, 30% estavam identificadas de forma errada. Para embalagens alimentícias, o símbolo de identificação do BOPP deve ser igual ao do PP (polipropileno), que é o número 5 dentro do triângulo de setas.

Com isso, a maior parte das embalagens vai parar em aterros sanitários, quando não em lixões, causando diversos problemas ambientais e sociais. Quando jogadas nas ruas, elas entopem bueiros, contribuindo para cheias e enchentes, ou ainda, vão parar nos oceanos, onde são ingeridas por animais, provocando muitas mortes.

Então, qual a melhor solução para lidar com as embalagens de tantos produtos que consumimos? Como prevê a Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei 12.305/2010) e o primeiro R do conceito lixo zero, a melhor prática é não gerar o resíduo. Batatas chips podem ser substituídas por batatas assadas em casa, as bolachas por frutas e as barrinhas de cereais industriais por opções caseiras (faço frequentemente em casa, existem várias receitas bem fáceis na internet). Assim, deixamos de consumir as embalagens BOPP e diminuímos a demanda por sua produção.

Também dá para evitar o consumo de BOPP escolhendo um produto semelhante que venha numa embalagem mais atrativa ao mercado da reciclagem. Se tiver algum produto embalado em BOPP que você compre muito, o primeiro passo pode ser a prática do segundo R: reduzir o consumo. Aliado a esta, procure alguma cooperativa na sua cidade que colete o material e veja como você pode destiná-lo corretamente, lembrando de deixá-lo limpo e seco depois do uso.

Outra forma de não enviar as embalagens para o aterro sanitário é praticar o upcycle, uma vertente da reutilização que preserva as características originais do material. É dar ao resíduo outro uso ou valor, sem provocar as alterações químicas e físicas da reciclagem. Esta técnica evita o desperdício de materiais com potencial de utilização, reduz o consumo de novas matérias-­primas, energia e água e reduz as emissões de gases de efeito estufa, que ainda existem no processo de reciclagem. Em uma rápida pesquisa em sites de busca, encontramos várias coisas para fazer com as embalagens, como recheio de almofada, e também, empresas que fazem seus produtos a partir de resíduos.

Por fim, a reciclagem. No Brasil, a reciclagem do BOPP ainda é pequena, mas tecnologia existe, inclusive 100% nacional. A empresa Vitopel do Brasil desenvolveu o vitopaper, um papel sintético produzido com material reciclado pós-consumo que inclui PP, BOPP, PE (polietileno) e (PS) poliestireno. Entre os produtos oriundos de BOPP reciclado há mochilas, embalagens cosméticas e prateleira para salgadinhos. Este último é um projeto conjunto da empresa Pepsico, que produz chips, com a Terracycle, empresa dos EUA que recicla materiais de difícil reciclabilidade.

Esta união comercial não é a única. Uma fábrica na Inglaterra, a Enval, trabalha em parceria com grandes indústrias alimentícias para defender a reciclagem do BOPP pós-consumo. No processo usado pela empresa, os laminados plásticos metalizados são picados e misturados com carbono. A energia térmica gerada degrada o plástico em uma mistura de hidrocarbonetos, que é esfriada e separada em gás e óleo. O gás pode ser usado para gerar eletricidade para o processo e os óleos ​​podem ser vendidos como combustível ou matéria-prima. A folha de alumínio permanece intacta e pode ser recuperada em forma sólida.

Todos os produtos que consumimos têm uma história, que não acaba quando o caminhão do “lixo” leva embora “o que sobrou”. Na hora das compras, as suas escolhas vão fazer parte da vida útil destes bens e vão contribuir para o modo como eles continuam no nosso mundo. Escolha sabiamente.

Foto: Damien Cox/Creative Commons/Flickr

Jornalista e técnica em Meio Ambiente, a catarinense é Embaixadora da Juventude Lixo Zero Blumenau e membro da Juventude Lixo Zero Brasil. Escreve sobre sustentabilidade e preservação ambiental no blog pessoal Sustenta Ações, em que busca contribuir para um mundo mais verde e consciente

Letícia Klein

Jornalista e técnica em Meio Ambiente, a catarinense é Embaixadora da Juventude Lixo Zero Blumenau e membro da Juventude Lixo Zero Brasil. Escreve sobre sustentabilidade e preservação ambiental no blog pessoal Sustenta Ações, em que busca contribuir para um mundo mais verde e consciente

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