‘Embaixador do (eco)turismo’, nomeado por Bolsonaro, já foi autuado por maus-tratos contra animais e suspeita de tráfico

O apresentador de TV Richard Rasmussen, que ficou famoso, na primeira década dos anos 2000, por suas “aventuras na selva” e o convívio com animais exóticos – mas também por polêmicas envolvendo seu trabalho e sua conduta -, foi resgatado do “ostracismo” por Bolsonaro, no início deste mês, com o convite para assumir a recém-criada função de Embaixador do Turismo. O anúncio foi feito pelo presidente via redes sociais, nas quais ele enfatizou sua principal missão: promover o ecoturismo no exterior.

Rasmussen agradeceu pelo Twitter, dizendo que aceitou a nomeação “com muita honra”. Em vídeo, ao lado do novo chefe, contou que vai tirar o turista estrangeiro do “eixo vicioso” e apresentar-lhe opções como o Pantanal e “florestas tropicais” (assista. no final deste post, no tweet de Bolsonaro). Já no Facebook, o apresentador se gabou de ser um profundo conhecedor da natureza brasileira e revelou sua infinita bondade ao ceder para o governo, sem qualquer pagamento, imagens de seu arquivo captadas durante 17 anos de trabalho. Quanto desapego! Lembrando que biólogos e especialistas em conservação sempre criticaram o conteúdo produzido por Rasmussen por conterem “indícios de perturbação e maus tratos à fauna silvestre”.

Para justificar a escolha de Bolsonaro, o ex-apresentador não disse que “frita hambúrguer”, mas que é poliglota e, por isso também, representará com muita dignidade o país em eventos internacionais, como palestrante. Não sem demostrar uma pontinha de mágoa por ter sido desdenhado por governos anteriores: “Nenhum outro governo pensou na minha pessoa. Nenhum outro governo aproveitou-se do meu conhecimento”. Poxa…

Para o site da Embratur, Rasmussen declarou: “É primeira vez que um governo abre as portas para que todo o meu material, colhido em todo o Brasil, seja utilizado em prol de um bem maior: que é disseminar este rico e brilhante país. A nossa chave é o ecoturismo e o turismo é uma grande ferramenta de conservação”. 

Infrações, multas e suspeita de tráfico

Por conta de sua vaidade sem limites, Rasmussen se expôs demais e ganhou fama, para o mal. Já no início de sua carreira como apresentador, ele se dizia biólogo, ou seja, mentia porque não tinha formação. Sofreu tanta pressão dos especialistas que foi estudar para ter o diploma. Diz que também é economista.

Seu currículo é, no mínimo, assustador, mas talvez tenha sido exatamente tal adjetivo que o qualificou para assumir o cargo inventado pelo presidente. Afinal, uma pessoa sem escrúpulos, como Rasmussen parece que, infelizmente combina com as políticas ambiental, social e de desenvolvimento pautadas pelo governo Bolsonaro. Ele nega a má fama, mas é só você começar a pesquisar sua vida na internet para descobrir inúmeras histórias que não o enaltecem.

Ele gostava de explorar ambientes selvagens, sempre destacando o quão perigosos eram, mas, por diversas vezes. foi denunciado por maus-tratos contra os animais que exibia, fossem exóticos ou não. Como na foto que ilustra este post, por exemplo.

Entre 2002 e 2009, foi autuado oito vezes pelo Ibama por causa de denúncias e flagrantes incontestáveis de maus tratos contra a fauna. Isso foi no final do governo de Fernando Henrique Cardoso e durante o de Lula, um tempo em que o Ibama era bem estruturado e mantinha uma equipe de fiscais competentes para atuar e multar infratores.

Uma das maiores polêmicas se deu quando Rasmussen realizou filmagens sensacionalistas para o programa Fantástico, da TV Globo, como denúncia de que os pescadores da região matavam botos para usar como isca para pescar o peixe pirapitanga. Em depoimento para o documentário Below The River (Rio Abaixo, inédito no Brasil), ele foi acusado de fraude pelos pescadores: ele os teria pago para que matassem uma fêmea de boto cor-de-rosa – que estava grávida – em frente às câmeras, sem revelar seu objetivo. Tais filmagens levaram à proibição da pesca do tal peixe, o que prejudicou a vida dos pescadores na região.

Ele também era acusado constantemente de manter animais presos em cativeiro para fazer gravações de resgates, como se fossem reais. Sua primeira multa, em 2002, mesmo ano em que iniciou seu trabalho na TV, foi por causa de uma performance no Programa do Faustão: segurou um sapo nas mãos para que ele fosse beijado, pois seria “transformado em príncipe”. Apesar da polêmica negativa, pouco tempo depois ganhou quadros na TV Record e programas exclusivos no SBT, na Net Geo (da National Geographic) e na Rede Bandeirantes. A irresponsabilidade da mídia não tem tamanho.

Com as autuações e o aumento das denúncias, o cerco se fechou. A maior parte das autuações aconteceram em Carapicuíba, São Paulo, onde o apresentador tinha o Criadouro Conservacionista Toca da Tartaruga, sem comprovação de origem das espécies, e que foi fechado em 2005.

Segundo a Folha de São Paulo, em uma vistoria realizada em 2004 no criadouro de Rasmussen, o Ibama relatou que “faltavam diversos animais que constavam da fiscalização anterior, existindo outros que não constavam, vários micos-estrela estavam mortos na sala de atendimento veterinário e um morto no recinto, cães circulavam livremente no recinto de diversas aves e saguis, filhotes de onça eram mantidos em canil, entre outras irregularidades”.

Mas tem mais. O resumo da apelação ao Ministério Público lista os seguintes danos causados pelos responsáveis do criadouro à fauna:
– elevado número de morte de animais devido às más condições do criadouro;
– maus tratos, diante das condições de insalubridade, fugas, mortes por predadores, falta de cuidados veterinários e devida alimentação;
– nas recorrentes fugas de animais já acostumados à vida em cativeiro, sem o acompanhamento de sua devida reinserção na natureza;
– nos indícios de ainda maior número de mortes, fugas ou venda a pessoa sem condições de receber animais, diante da ausência de documentos de destino dos animais desaparecidos;
– na recepção de animais apanhados na natureza, por não haver documento comprobatório de origem lícita;
– nos danos causados aos ecossistemas nacionais pela introdução de espécimes exóticas”. 

Esse lugar precisava ser fechado, realmente. Pior que eu nem me admiro que uma pessoa como Rasmussen tenha sido chamada por Bolsonaro para assumir um cargo em seu governo e representar o Brasil. Com um currículo tão nefasto, ele deveria continuar no ostracismo.

Hoje, as multas ambientais do Embaixador do Turismo somam mais de 250 mil reais (263,41 reais, de acordo com dados da Folha de São Paulo; em reportagem do jornal Estadão, o valor de uma única multa, contra o criadouro, foi de R$ 399 mil) e ainda estão em processo na Justiça. Uma das multas recebidas por ele (144 mil reais) se refere à suspeita de permutar espécie silvestre sem autorização do Ibama. Agora, como integrante do governo Bolsonaro – que também já foi multado pelo Ibama, não pagou e, quando se tornou presidente, exonerou o fiscal autor da multa -, ele certamente não precisará mais se preocupar com isso.

Pororoca e o fim da carreira

Dizem as más línguas que o que tornou Richard Rasmussen muito famoso não foram suas peripécias na natureza selvagem (em 2015, teve um pedaço do dedo médio da mão direita arrancado por um jacaré em gravações no Pantanal para programa no canal Nat Geo), nem a má reputação advinda dos maus-tratos contra os bichos que ele explorava, mas um vídeo curtinho que viralizou na internet e acabou virando meme.

Ele foi feito na foz do rio Araguari, no Amapá, para apresentar o fenômeno da Pororoca, quando se dá o encontro das águas do mar e do rio, provocando grandes e violentas ondas.

Pois o apresentador se colocou de costas para a Pororoca, abriu os braços segurando um bastão e anunciou “a onda mais longa do planeta Terra”. Ao virar para encarar o fenômeno de frente, percebeu que a onda ia engoli-lo e saiu correndo. Quem quiser, pode assistir ao episódio ridículo no final deste post.

Pra terminar, vale destacar que, em artigo escrito para seu site, Rasmussen defende a caça de animais silvestres autorizada por licenças ambientais, com base em valor pago pelo caçador, que seria revertido em ações de conservação. Pronto! Como dizem, “juntou a fome com a vontade de comer”. Mas, se depender de nós, o projeto de lei que libera a caça de animais silvestres, não vai passar.

Agora, se você não é adepto do governo Bolsonaro e o estômago ainda permite, assista ao vídeo divulgado por ele em seu Twitter, com a declaração de ambos sobre a parceria, e também ao episódio da Pororoca. Se for fã do presidente, “se joga” só no primeiro. Do segundo, é provável que você não goste. Corra, Rasmussen, corra!

Foto: Divulgação

Fontes: Estadão, O Eco, Folha de São Paulo, MPF

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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